
Christopher Nolan: O Cineasta Icônico e sua Obra é uma das mais recentes publicações de uma editora gaúcha que vem ampliando a biblioteca dos fãs de cinema: a Belas Letras, de Caxias do Sul. Entre os livros já lançados, estão Noir Futurista: Os Bastidores de "Blade Runner", Kubrick: Uma Odisseia, A Ciência de "Interestelar": Uma Viagem pelas Teorias de Nolan e Os Mundos de Hayao Miyazaki: As Influências por Trás dos Filmes Icônicos.
O novo volume faz parte da coleção escrita pelo crítico inglês Ian Nathan. Dele, já haviam saído pela Belas Letras obras sobre Quentin Tarantino, Tim Burton, Clint Eastwood e Steven Spielberg.
Traduzido por Tanara Araújo, Christopher Nolan: O Cineasta Icônico e sua Obra (192 páginas, R$ 184, 90) mergulha nos labirintos narrativos e nas obsessões do diretor mais badalado dos últimos tempos. Nolan ganhou o Oscar de melhor filme (como um dos produtores) e o de direção por Oppenheimer (2023), que chegou perto de alcançar US$ 1 bilhão nas bilheterias. Essa marca já foi superada, com folga, pelo épico A Odisseia (2026), sua adaptação para o poema do grego Homero.

Os 11 capítulos contemplam os 13 longas-metragens de Nolan. Nathan publicou o livro antes de ver A Odisseia, mas foi preciso ao vislumbrar a aproximação entre a jornada de Odisseu e a cinebiografia do físico J. Robert Oppenheimer (1906-1967), considerado o pai da bomba atômica: "Dois homens brilhantes lançados à deriva pelo massacre sangrento que arquitetaram para pôr fim a uma guerra. O cavalo de madeira não seria, afinal, uma arma de destruição em massa para arrasar uma cidade?".
Ian Nathan abre sua obra afirmando que Christopher Nolan "foge a qualquer lógica" e termina dizendo que "não há ninguém como ele". O cineasta britânico de 56 anos faz filmes autorais e idiossincráticos, mas dentro do sistema de Hollywood. Desafia as leis da indústria "ao criar obras de gênero originais e notáveis que celebram sua própria complexidade, contrariando cada truque usado pelos estúdios para tentar atingir o maior público possível". É, simultaneamente, um artista e um cientista, um entertainer e um provocador.
Para o crítico inglês, o "grande mistério" de Nolan, comparado a outros diretores da chamada "corrente da seriedade" surgida nos anos 1990 — como Steven Soderbergh, David Fincher, Kathryn Bigelow e Darren Aronofsky —, é a sua popularidade. Por que nos empolgamos tanto em decifrar seus enredos labirínticos e suas tramas com cronologia não linear que originam gráficos, diagramas e tutoriais na internet?
Talvez uma das razões seja o convite à imersão, a valorização da experiência na sala de cinema. E Nolan oferece um espetáculo de mágica à moda antiga: prefere efeitos práticos em vez da computação gráfica e, graças a orçamentos polpudos, pode se dar ao luxo de construir cenários que viram a realidade de cabeça para baixo, como o corredor de hotel giratório de A Origem (2010).

A ilusão é tanto sua ferramenta quanto seu tema, vide o duelo de mágicos de O Grande Truque (2006). Escreve Nathan: "Sua obra se unifica fundamentalmente na exploração da percepção e do tempo, atraída pela chama da subjetividade — afinal, o que podemos aceitar como real? (...) E quanto mais de perto observamos, mais notamos que seus filmes, em algum nível, também falam sobre a própria natureza do cinema".
Pode-se recorrer de novo a A Origem como exemplo: "Em essência, Cobb (o personagem do ator Leonardo DiCaprio) e seus colegas na fabricação de sonhos são uma alegoria dos cineastas. Nolan admitiu que a composição de seus personagens é o espelho de uma equipe de filmagem: Cobb é o diretor; Arthur, o produtor; Ariadne, a diretora de arte; Eames, o ator; Saito, o estúdio que banca o empreendimento; Fischer, o público". E poderíamos acrescentar que Arthur acumula as funções de diretor de fotografia e montador, e Yusuf, o químico, pode ser visto como o técnico dos efeitos especiais.
Há bastidores saborosos, como os da ficção científica Interestelar (2014) e seu compromisso com a ciência, o realismo e a funcionalidade. Um dos capítulos mais interessantes é o primeiro, que reconstitui os primeiros passos de Nolan e cita suas principais influências. Nathan conta que na escola o futuro diretor, por intermédio de um tutor progressista, teve acesso a um VHS pirata de Blade Runner: O Caçador de Androides (1982). Exibido por partes, o filme de Ridley Scott acabou se tornando "um norte" na sua carreira. Outros nomes marcantes na sua formação cinematográfica foram Stanley Kubrick (1928-1999), David Lynch (1946-2025) e Michael Mann.

Nolan também se inspirou na literatura para elaborar suas formas de narrar. O curioso é que teve como modelos escritores de estilos e temas divergentes. De um lado, havia Raymond Chandler (1888-1959), gênio da literatura pulp e padrinho do cinema noir, que "contava histórias obscuras sobre elegantes heróis da noite. Os cínicos — porém nobres — detetives particulares na trilha de crimes tão tortuosos que sua solução final permanecia fora de alcance. O mundo, como Chandler o descrevia, era tão corrompido quanto Gotham", descreve Nathan. "Nolan adorava os detalhes, a tangibilidade das cenas e a recusa de Chandler em seguir as regras tradicionais de crime e castigo. 'O ponto todo é que estão mentindo para você', se deleitava."
Para o crítico inglês, o personagem encarnado por Guy Pearce em Amnésia (2000) é "puro Chandler: o outsider, o detetive particular, a alma romântica destroçada, caminhando pelas mesmas ruas, farejando os mesmos crimes. É o instinto de vingança que o move — mais profundo que a própria memória, como a força inevitável do universo".
Do outro lado, estavam os contos metafísicos do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), plenos de sonhos e memórias, labirintos e duplos. Para Ian Nathan, há muito em comum entre os filmes do diretor e as obras do escritor. Ambos veem o tempo não como uma linha reta, mas como uma estrutura flexível e dobrável. Há histórias dentro de histórias ou sonhos dentro de sonhos. A realidade é constantemente questionada, forçando personagens e o público a duvidar daquilo que sabem. E os dois autores transformam conceitos filosóficos complexos em tramas acessíveis. Mais adiante, o crítico define A Origem como "um filme de James Bond segundo Borges".
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