
Chorão: Só os Loucos Sabem tem vários problemas, mas contra a emoção não existe razão: chorei ao ver o filme sobre o vocalista e letrista da banda Charlie Brown Jr. no 54º Festival de Cinema de Gramado. Estrelada por José Loreto e Nanda Marques, a cinebiografia musical teve sessão na noite de segunda-feira (17) no Palácio dos Festivais.
Foi o terceiro concorrente aos Kikitos da competição de longas-metragens brasileiros de ficção. Antes vieram Feito Pipa e Pele de Rinoceronte, e os últimos três serão Leite em Pó, nesta terça (18), Justino: Nos Bastidores do Reino, na quarta (19), e Nosso Segredo, na quinta (20).
Com estreia nos cinemas marcada para o dia 4 de março de 2027, Chorão: Só os Loucos Sabem foi escrito pela roteirista Duda de Almeida e se baseia no livro de memórias Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz? (2018), da estilista Graziela Gonçalves. Nessa obra, a viúva do cantor conta a história das quase duas décadas de seu romance com Alexandre Magno Abrão, o Chorão, que morreu em 6 de março de 2013, aos 42 anos, vítima de uma overdose de cocaína.
A direção do filme é dividida por Hugo Prata, o mesmo das cinebiografias Elis (2016), sobre Elis Regina, e Angela (2023), sobre Ângela Diniz, e Felipe Novaes, realizador do documentário Chorão: Marginal Alado (2019).
O ator José Loreto, que encarnou o lutador de MMA José Aldo em Mais Forte que o Mundo (2016), interpreta o líder da banda formada em Santos (SP) que vendeu mais de 5 milhões de discos e deixou de herança sucessos como Proibida pra Mim (Grazon) (1997), Te Levar Daqui (1999), Dias de Luta, Dias de Glória (2003) e Só os Loucos Sabem (2009). Atriz da novela Quem Ama Cuida (2026), Nanda Marques faz o papel de Grazi — em um típico caso de a vida imita a arte, ela e Loreto se conheceram e começaram a namorar nos bastidores das filmagens. O elenco principal inclui Georgette Fadel e Kiko Marques, como os pais de Chorão, e Pedro Tirolli, 16 anos, na pele do baixista Champignon (1978-2013).

Os primeiros problemas de Chorão: Só Os Loucos Sabem aparecem logo de cara. A voz de Nanda Marques na narração em off de Grazi soa artificial: parece que a atriz está lendo um texto, o que prejudica a conexão emocional. Nas cenas dramáticas, ela também fica devendo em autenticidade.
Falta contexto para quem não é familiarizado com a trajetória dos personagens. O filme não situa o ano em que a história começa nem marca a passagem do tempo. O único indicador é o crescimento do filho de Chorão, Alexandre, nascido em 1990 e fruto de seu casamento com Thais de Lima. Mas essa criança surge de supetão na trama, e não há qualquer menção a esse relacionamento anterior.

Pior é jamais explicar questões importantes ligadas à arte e ao ofício de Chorão. Por que ele começou a escrever letras e a cantar? Como entrou em uma banda e como formou a Charlie Brown Jr.? Aliás, como surgiu esse nome? Se o grupo, aparentemente, não tocava nas rádios, já que as canções eram muito longas — coisa de sete minutos, segundo o filme —, como atraiu o interesse de uma gravadora gigante? Qual era o processo criativo do protagonista? Que composições tiveram Grazi como musa inspiradora?
São perguntas que ficam sem resposta. Pelo menos Só os Loucos Sabem retratam o papel fundamental da banda carioca Planet Hemp para a Charlie Brown Jr. encontrar sua identidade. Depois de ouvir o disco Usuário (1995) e de assistir a um show da turma de Marcelo D2 e BNegão, Chorão — que era fã dos grupos estadunidenses Suicidal Tendencies e Pantera — decidiu abandonar as letras em inglês para cantar em português sobre a realidade urbana brasileira. Também houve influência na sonoridade dos santistas, que passaram a misturar skate punk, reggae, rap e rock pesado.

Outro ponto negativo é a ausência de muitos clássicos. Não faltam sequências nas quais a banda aparece tocando canções como O Coro Vai Comê, Aquela Paz, Rubão, o Dono do Mundo, Senhor do Tempo e Tâmo Aí na Atividade no palco ou em estúdio — onde a mixagem de som faz saltar aos ouvidos a combinação de técnica e visceralidade dos instrumentistas. E compreende-se a limitação de tempo: com excesso de números musicais, Chorão: Só os Loucos Sabem poderia parecer menos um filme do que uma coleção de videoclipes. Mas por que pontuar cenas da cinebiografia com uma trilha sonora em inglês composta por Otavio de Moraes em vez de empregar faixas do repertório da Charlie Brown Jr. que acabaram de fora, como Zóio de Lula, Te Levar Daqui, Não É Sério e Dias de Luta, Dias de Glória?
Todos esses problemas, porém, ficam em segundo plano diante das virtudes de Chorão: Só os Loucos Sabem. Que foram prenunciadas e puderam ser vislumbradas durante os discursos de apresentação do filme no palco do Palácio dos Festivais.
O diretor Hugo Prata definiu Chorão como uma "pedra bruta de coração enorme", um sujeito que tinha o "pulso da rua" e que abrigava no mesmo corpo "truculência e poesia".

O ator José Loreto, que minutos antes havia deixado as marcas de suas mãos na Calçada da Fama, declarou:
— Eu não ia deixar ninguém fazer esse filme no meu lugar. Com desejo e devoção, era meio caminho andado. Sei que todo ator fala isso, mas é o filme da minha vida.
O casamento dos acertos do roteiro e da direção com a entrega de Loreto na atuação torna o filme emocionante. Não vemos um ator interpretando Chorão e imitando seus trejeitos e sua voz rouca: enxergamos o próprio Chorão.
Enxergamos o ídolo complexo e contraditório, enxergamos a sua dualidade dilacerante. A energia criativa se alternava com a angústia demolidora — testemunhamos a glória e o vazio. A dor, a raiva e seus demônios interiores conviviam com um amor intenso, sincero e protetor. Fui às lágrimas diante das interações carinhosas de Chorão com sua mãe, com seu pai e com seu filho. E chorei de tristeza por ver um talento enorme se autodestruir.
Como é certeira a pergunta que Grazi, na narração em off, faz na abertura do filme: "Um artista de verdade pode te tirar do abismo com uma música. Mas quem tira ele do abismo?".
E como eram reveladores e premonitórios os versos de Aquela Paz, música do disco de estreia do Charlie Brown Jr., Transpiração Contínua Prolongada, lançado em 1997: "A vida é feita de atitudes nem sempre decentes / Não lhe julgam pela razão /Mas pelos seus antecedentes / É quando eu volto a me lembrar / Do que eu pensava nem ter feito / Vem, me traz aquela paz / Você procura a perfeição / Eu tenho andado sob efeito / Mas posso te dizer que eu já não aguento mais / Desencana, não vou mudar por sua causa / Não tem jeito / Mas quem é que decide o que é melhor pra minha vida agora? / Ouvi dizer que só era triste quem queria / Ouvi dizer que só era triste quem queria / Ouvi dizer que só era triste quem queria / Ouvi dizer que só era triste quem queria".
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