
Ambientado em um motel, Muito Prazer (2026) é como se fosse uma transa entre O Homem que Copiava (2003) e Saneamento Básico, o Filme (2007). No seu novo longa-metragem, Jorge Furtado volta a retratar pessoas comuns que tomam decisões absurdas ou ilegais motivadas por necessidade financeira ou paixão. E o diretor e roteirista gaúcho também volta a praticar a metalinguagem: seus personagens usam câmeras de gravação para produzir fantasias e, assim, resolver problemas reais.
Muito Prazer estreia nos cinemas nesta quinta-feira (27) e na sexta (28), às 19h15min, terá uma sessão com debate na Sala Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Depois da exibição, Furtado vai conversar com a advogada e professora Fernanda Nunes Barbosa, sob mediação da jornalista Nanni Rios. Na pauta, a intimidade e a privacidade na era da tecnologia.
— Existe um assunto que é tabu, mas muito interessante, que é a indústria dos vídeos pornográficos na internet — disse Furtado em entrevista ao repórter Carlos Redel, de Zero Hora, na época das filmagens, em 2025. — Juntos, os dois maiores sites pornô têm mais do que o dobro de visitas do Instagram. E esses vídeos são, na minha opinião, um raio-X da sexualidade humana. A pornografia escuta e investiga os desejos, os prazeres e os fetiches de milhões de pessoas por dia.
Em outras entrevistas, o diretor revelou que a primeira ideia para criar Muito Prazer foi a de combater os algoritmos no que diz respeito ao prazer, ao afeto e ao romance. Eles tentam catalogar e prever tudo, mas esbarram na imprevisibilidade do desejo e das relações reais. A segunda ideia era uma vontade antiga sua, a de "contar a história de alguém que precisa provar, com imagens, que está dizendo a verdade, nesse mundo de inteligência artificial cada vez mais difícil de dizer o que é real e o que não é".
Produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre em coprodução com a Globo Filmes e distribuído pela Elo Studios, Muito Prazer é estrelado pelo mineiro Daniel de Oliveira, pela carioca Luisa Arraes e pela baiana Samantha Jones. Daniel interpreta Rubem, um motorista de aplicativo que é o contrário de rico, como ele diz. Um dia, ele herda de um tio um motel localizado em Porto Alegre, o Pérola. Mas o lugar está abandonado e caindo aos pedaços.
Pior: ao chegar lá, Rubem descobre que também herdou dívidas e que há uma ex-funcionária morando em um dos quartos. Trata-se de Grace (Luisa Arraes), personagem que tem um monólogo lindo sobre por que gostamos de olhar para as nuvens: "Acho que é porque elas mudam, sempre. São muito parecidas e todas diferentes. Não tem duas iguais. Tem nuvens calmas, furiosas, leves, pesadas, lentas, rápidas, transparentes, carregadas, sombrias, luminosas, simples, complexas, umas andam em bandos, outras são solitárias. Elas vêm, passam, vão embora, somem. E quem presta atenção nas nuvens anda de cabeça erguida. Curiosidade é um tipo de coragem".

A única saída para solucionar as pendências de dinheiro da dupla é reativar o Pérola, que foi filmado em locações, no Skylab (um motel desativado na Avenida Eduardo Prado, no bairro Ipanema), e em estúdio — onde a equipe dos diretores de arte Fiapo Barth e Dayane Paz criou a Suíte Egípcia, a Suíte Medieval e a Suíte Oriental, entre outras. Logo em uma das primeiras noites, o estabelecimento é alvo de um assalto. Então, Rubem e Grace decidem instalar câmeras de segurança e acabam conhecendo uma especialista em ferramentas digitais, Nalva (Samantha Jones).
Essa personagem muda os rumos da história. O trailer de Muito Prazer entrega o que vai acontecer, mas acho que a comédia erótica vai ser mais gozada — e ao mesmo tempo mais reflexiva — se você não souber qual é o plano do trio para salvar o Pérola. Posso dizer que a interação entre os três personagens rende boas risadas, principalmente por causa de Grace e Nalva. As duas personagens foram muito bem desenhadas, e as duas atrizes souberam encontrar o espírito e o timing cômico dos seus papéis — para tanto, contribuem a direção de fotografia de Lívia Pasqual e a montagem de Giba Assis Brasil. Jorge Furtado, por sua vez, estava bem inspirado na hora de escrever os diálogos. Tem piada até sobre o Bragantino!
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