
Marco histórico e sucesso de bilheteria, Xica da Silva (1976) está de volta aos cinemas e em cópia restaurada para comemorar seu cinquentenário. Em Porto Alegre, o filme dirigido por Cacá Diegues (1940-2025) e estrelado por Zezé Motta — que concedeu entrevista à coluna — pode ser visto a partir desta quinta-feira (16) na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana. As sessões são às 19h.
O relançamento de Xica da Silva faz parte do projeto Sessão Vitrine Petrobras, realizado pela distribuidora Vitrine Filmes com patrocínio a Petrobras. Entre outros filmes que ganharam restauro e reestreia, estão São Paulo Sociedade Anônima (1965), de Luiz Sergio Person, A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral, Durval Discos (2002), de Anna Muylaert, e Saneamento Básico, O Filme (2007), de Jorge Furtado.
— Poucos filmes brasileiros carregam tantas cores quanto Xica da Silva. Restaurá-lo é preservar a força de uma obra que rompeu padrões, exaltou a cultura negra, colocou uma mulher no centro da narrativa e conquistou o público sem abrir mão de sua ousadia — diz Silvia Cruz, idealizadora do projeto e sócia da Vitrine Filmes.
Xica da Silva atraiu 3,1 milhões de espectadores aos cinemas, conquistou os Candangos de melhor filme, direção e atriz no Festival de Brasília e revolucionou a maneira de representar o negro no audiovisual brasileiro. A trama é baseada no livro Memórias do Distrito de Diamantina da Comarca do Serro Frio (1863), de João Felício dos Santos. Chica da Silva foi uma mulher negra escravizada que, após conquistar a alforria, desafiou os padrões de sua época ao manter por cerca de 15 anos uma relação pública com João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes e um dos homens mais ricos do império português.
Com ele, Chica teve 13 filhos, criados com privilégios raramente concedidos a descendentes de uma ex-escravizada. Após a partida de João Fernandes para Portugal, Chica assumiu a administração de parte dos negócios e consolidou uma posição de destaque na sociedade local.

Assinado por Cacá Diegues e o escritor Antonio Callado (1917-1997), o roteiro troca Chica por Xica e cria uma versão mais irreverente, sensual e subversiva da personagem histórica. Embalado pela homônima e contagiante canção composta por Jorge Ben Jor, o filme se passa na segunda metade do século 18, no norte de Minas Gerais.
Representante da Coroa portuguesa, o comendador João Fernandes (vivido pelo gaúcho Walmor Chagas, 1930-2013) apaixona-se por Xica da Silva (papel de Zezé Motta) e a transforma na Rainha do Diamante, satisfazendo todos os seus desejos extravagantes. Alertado por inimigos do casal, o rei de Portugal manda um emissário a fim de impedir que cresça o poder de Xica na colônia.

O sucesso de Xica da Silva consolidou a figura de Zezé Motta no imaginário nacional. A atriz carioca já havia trabalhado em novelas como Beto Rockefeller (1968-1969) e Supermanoela (1974), e a partir dali tornou-se um rosto mais recorrente no cinema e na TV. Entre seus papéis de mais destaque, estão a Sônia do folhetim Corpo a Corpo (1984-1985) e a Dandara do filme Quilombo (1984), em outra parceria com o diretor Cacá Diegues.
Na premiação da Academia Brasileira de Cinema, o Grande Otelo, Zezé venceu como atriz coadjuvante por Doutor Gama (2021) e foi indicada na mesma categoria por Deserto Feliz (2007), Gonzaga: De Pai pra Filho (2012) e M-8: Quando a Morte Socorre a Vida (2019). Sua trajetória foi homenageada no Festival de Gramado de 2007, quando ela recebeu o troféu Oscarito.
Entrevista com Zezé Motta, atriz de "Xica da Silva"

Na entrevista a seguir, a atriz Zezé Motta, 82 anos, fala sobre o legado de Xica da Silva e sobre como o filme pode ser encarado hoje:
O que Xica da Silva significou na sua carreira?
Tudo! Foi um divisor de águas na minha vida. Eu sabia que ele (o diretor Cacá Diegues) estava fazendo teste, mas não tive coragem de me oferecer. E ele não estava encontrando a atriz para fazer a Xica. Se não encontrasse, como disse em sua biografia, ele não faria o filme. Um dia meu compadre Nelson Motta lembrou ao Cacá: "E aquela atriz de Godspell?". Era um musical que eu fazia em 1974. Fiz o teste com uma cena bem delicada, quando a Xica é proibida de entrar na igreja. Ganhei diversos prêmios por meu papel como Xica da Silva, incluindo o reconhecimento como melhor atriz em vários festivais de cinema em 1976. O filme me projetou nacional e internacionalmente. Viajamos por mais de 16 países, levamos mais de 3 milhões de brasileiros às salas de cinema na época. Não tinha internet e essa divulgação de hoje: pensa em 3 milhões de pessoas indo ao cinema em 1976!
Qual foi a importância do filme na questão da representatividade negra no cinema brasileiro?
Com Xica da Silva, virei símbolo sexual em uma época na qual diziam que nós éramos feios… Tem noção do que é ter uma mulher preta, em uma época em que revistas e jornais diziam que eu era feia, virar símbolo sexual? Só por aí já respondo sua pergunta. Além disso, uma mulher preta ocupar o protagonismo de um filme, estar na mídia, foi algo revolucionário.
O que você lembra da repercussão que Xica da Silva teve na época de seu lançamento?
Eu dava de duas a três entrevistas por dia, me lembro que havia semanas que eu não podia sair na rua direito por conta do assédio, quase fui sequestrada uma vez por um taxista que reconheceu minha voz e acelerou o carro. Eu tive que descer correndo...
Como o filme, embora ambientado na época do Brasil colonial, dialogava com o contexto da ditadura militar?
Embora Xica da Silva se passasse no Brasil colonial, era impossível não estabelecer paralelos com o Brasil dos anos 1970. O filme falava sobre poder, opressão, racismo, desigualdade e a luta por liberdade, temas que dialogavam profundamente com o momento que o país vivia durante a ditadura militar. Sem fazer um discurso direto sobre aquele período, a obra provocava reflexões sobre autoritarismo, privilégios e injustiças que permaneciam muito presentes na sociedade brasileira. Talvez por isso tenha causado um impacto tão grande. O público enxergava ali não apenas uma história do passado, mas também muitas questões do seu próprio tempo.

Você disse que Xica da Silva "abriu uma conversa importante sobre poder, raça, desejo, liberdade e sobre as contradições da formação do Brasil". Pode falar um pouco mais sobre esses temas?
Xica da Silva colocou uma mulher negra no centro de uma história sobre poder, numa época em que pessoas negras, especialmente as mulheres, quase sempre apareciam de forma secundária ou submissa. Xica compreende as regras daquele mundo e encontra maneiras de enfrentá-las, ainda que dentro de uma sociedade profundamente escravocrata, racista e desigual. O desejo também é uma questão central, porque Xica não é mostrada apenas como objeto do desejo dos outros. Ela deseja, escolhe, provoca, ocupa espaços e reivindica o direito de viver seus próprios prazeres. Isso era muito forte para uma personagem negra no cinema brasileiro daquele período. Ao mesmo tempo, a liberdade de Xica é cheia de contradições. Ela conquista poder e privilégios individuais, mas continua vivendo dentro de uma estrutura que escraviza outras pessoas negras. E talvez esteja aí uma das grandes provocações do filme: mostrar que a formação do Brasil foi construída sobre relações profundamente violentas entre raça, dinheiro, poder e pertencimento. O filme não oferece respostas simples. Ele nos obriga a olhar para essas contradições e perceber o quanto muitas delas continuam presentes até hoje.
Como você vê o filme hoje? O que acha de algumas críticas negativas, que acusam uma hipersexualização da protagonista e uma romantização com tratamento cômico da escravidão?
Eu vejo essas críticas com respeito. Um filme realizado há 50 anos pode e deve ser revisto à luz das discussões que amadureceram desde então. Hoje falamos com muito mais profundidade sobre o olhar lançado sobre o corpo da mulher negra, sobre hipersexualização, violência racial e sobre a forma como a escravidão é representada. Ao mesmo tempo, é preciso compreender o filme dentro do contexto em que foi feito. Xica não era uma personagem apagada, obediente ou colocada apenas à margem da narrativa. Ela estava no centro da história, exercendo poder, desejo, inteligência e enfrentando aquela sociedade. Para mim, isso teve uma força enorme, especialmente em 1976, quando quase não existiam mulheres negras protagonizando o cinema brasileiro. Entendo que algumas cenas possam causar desconforto hoje, principalmente pelo uso do humor em uma realidade tão violenta quanto a escravidão e pela maneira como o corpo da personagem foi filmado. Mas não acredito que isso apague a importância histórica da obra. Prefiro olhar para o filme reconhecendo suas contradições, seus limites e também sua ousadia. Nenhuma obra deve ser colocada acima da crítica. O mais importante é que Xica da Silva continue provocando conversa. O fato de ainda discutirmos o filme, meio século depois, mostra que ele permanece vivo e continua nos obrigando a pensar sobre raça, corpo, liberdade, poder e sobre o próprio Brasil.
Como você acha que o público jovem vai encarar Xica da Silva hoje? A "patrulha ideológica", como o Cacá Diegues chamava, está mais forte hoje, não?
Acho que o público jovem vai assistir a Xica da Silva com um olhar diferente daquele de 1976, e isso é natural. Cada geração faz novas perguntas às obras de arte. O que antes passava despercebido hoje pode gerar debate, e isso faz parte da evolução da sociedade. Eu não gosto de pensar em termos de "patrulha ideológica". Prefiro dizer que hoje existe um olhar mais atento para temas como racismo, representação, machismo e desigualdade. Às vezes esse debate pode ser mais duro, mas ele também é importante porque nos faz revisitar a nossa história e refletir sobre ela. Espero que os jovens assistam ao filme com curiosidade e contexto. Que enxerguem tanto a sua importância histórica quanto as suas contradições. Uma obra de arte não precisa ser perfeita para continuar relevante. Pelo contrário: muitas vezes são justamente as obras mais complexas que permanecem vivas, porque continuam provocando perguntas, despertando diferentes interpretações e incentivando o diálogo.
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