
"Ingmar Bergman é provavelmente o maior artista do cinema, desde a invenção da câmera." A definição cunhada por Woody Allen dimensiona a estatura da obra produzida pelo cineasta sueco, um dos tantos gênios condenados ao esquecimento no streaming não fossem plataformas como a MUBI, que na sexta-feira (10) resgatou do limbo digital três filmes fundamentais: O Sétimo Selo (1957), Persona (1966) e Gritos e Sussurros (1972) — saiba mais sobre cada um deles ao fim deste texto.
Se você prefere números quando se fala de tamanho, aqui estão alguns ligados a Ingmar Bergman (1918-2007): foram três vitórias no Oscar de filme internacional, por A Fonte da Donzela (1960), Através de um Espelho (1961), que também concorreu na categoria de roteiro original, e Fanny e Alexander (1982), que disputou ainda as estatuetas de melhor filme e direção.
Houve outras seis indicações a Bergman na premiação da Academia de Hollywood, sendo três por Gritos e Sussurros: melhor filme, direção e roteiro original. Ele também ganhou um Urso de Ouro no Festival de Berlim e o Globo de Ouro de longa estrangeiro (ambos por Morangos Silvestres, de 1957); o Prêmio Especial do Júri em Cannes (por O Sétimo Selo) e o troféu de diretor na mostra francesa (por No Limiar da Vida, de 1958); e o Prêmio Especial do Júri em Veneza (por O Rosto, de 1958).

Nos seus quase 40 anos de carreira como diretor, roteirista e dramaturgo, Bergman refletiu sua austera formação religiosa e os traumas de infância. Foi um autor que investigou a fundo as aflições da alma humana em torno de temas como o sentido da vida, da morte, do amor e da fé em Deus.
Esses temas foram encenados de forma intimista em parceria com um time recorrente de técnicos — como os diretores de fotografia Sven Nykvist e Gunnar Fischer e a editora Siv Lundgren — e atores. Entre estes, destacam-se Bibi Andersson, Harriet Andersson, Gunnar Björnstrand, Erland Josephson, Max von Sydow, Ingrid Thulin e Liv Ullmann.

Em 2012, em Zero Hora, o jornalista Marcelo Perrone conversou com três admiradores de Bergman para ajudar os neófitos a dar seus primeiros passos na obra do diretor: o escritor Luis Fernando Verissimo (1936-2025), o crítico de cinema e psicanalista Enéas de Souza e o cineasta e professor de cinema Carlos Gerbase.
— Conhecer a obra de Bergman é como conhecer Shakespeare no teatro ou Beethoven na música: faz parte da formação cultural básica de qualquer um — disse Gerbase. — Mas há uma razão ainda mais forte: depois de conhecer os filmes de Bergman, o espectador conhece melhor a si mesmo.
— Bergman é um cineasta que faz a gente mergulhar na dimensão humana mais profunda. Mostra que somos seres separados, não isolados, e que temos sempre que nos dar conta do Outro e dos outros. É um cinema da alteridade — afirmou Enéas.
— O que ficou do cinema do Bergman, mais do que o seu valor literário, que até se banalizou um pouco com o tempo (a existência como uma provação pela qual ninguém passa incólume), foram imagens como aquela da Morte puxando os mortos, em silhueta, em O Sétimo Selo — apontou Verissimo. — Ou então o consolador abraço materno no final de Gritos e Sussurros.

A trajetória de Ingmar Bergman, vale ressaltar, não é ilibada. A maior mancha na biografia do diretor são suas posições durante a Segunda Guerra Mundial. No seu livro de memórias A Lanterna Mágica (1987), ele próprio admitiu ter sido fascinado e deslumbrado pelo nazismo até os 25 anos, influenciado pelo pai, um pastor luterano de extrema-direita. Em 2025, no Festival de Karlovy-Vary, na República Tcheca, o ator sueco Stellan Skarsgård, 75 anos, que chegou a trabalhar com Bergman, afirmou:
— Ele foi a única pessoa que conheço que chorou quando Hitler morreu.
Vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante por Valor Sentimental (2025), Skarsgård também disse que Bergman era manipulador e tinha caráter muito difícil. Essa opinião é corroborada pelo cineasta sueco Roy Andersson, 83 anos, autor de Vocês, os Vivos (2007) e Sobre a Eternidade (2019). Ele descreveu o colega de ofício como uma "pessoa terrível" e "quase um fascista".
Saiba mais sobre os três filmes adicionados ao menu da MUBI:
O Sétimo Selo (1957)

O filme se passa na Idade Média. Ao voltar de uma Cruzada, um cavaleiro (interpretado por Max von Sydow) encontra seu país devastado pela peste negra e tenta superar a ameaça da Morte (Bengt Ekerot) em uma partida de xadrez.
— O Sétimo Selo é um filme que usa todas as armas do cinema _ afirmou o cineasta Carlos Gerbase. — Tem um roteiro impecável, uma fotografia belíssima, uma direção de arte perfeita, música bacana, atuações incríveis de Max von Sydow e Gunnar Björnstrand e um trabalho de câmera sensacional, em que alguns enquadramentos não saem da minha memória, como, no final do filme, os personagens numa montanha seguindo a Morte rumo ao desconhecido. Não é só o melhor filme de Bergman. É um dos melhores da história.
Persona (1966)

O título dado originalmente no Brasil, Quando Duas Mulheres Pecam, é horroroso e preconceituoso, além de não refletir o verdadeiro tema do filme. Na trama, Elisabeth (Liv Ullmann) é uma atriz de teatro que, após uma crise emocional, para de falar. Seu tratamento se dará em uma ilha isolada — Faro, no Mar Báltico, escolhida como lar de Bergman e cenário de várias de suas obras —, aos cuidados da enfermeira chamada Alma (Bibi Andersson). Para quebrar o silêncio, Alma começa a narrar episódios íntimos à paciente.
Gritos e Sussurros (1972)

Estrelado por Liv Ullmann, Ingrid Thulin e Harriet Andersson, Gritos e Sussurros ganhou o Oscar de melhor fotografia e também concorreu às estatuetas douradas de melhor filme, direção, roteiro original e figurinos. Vale reproduzir um trecho de texto do crítico e professor Daniel Feix publicado em Zero Hora em 2014: "Uma das obras-primas de Bergman, um dos maiores filmes da história do cinema. A trama sobre o aflorar dos ressentimentos de três irmãs, reunidas pela grave doença de uma delas, é de uma potência dramática difícil de mensurar. Parceiro habitual de Bergman, o fotógrafo Sven Nykvist registra a atmosfera de uma casa de campo da virada do século 19 para o 20 trabalhando com cores fortes, em uma paleta vermelho-alaranjada que ajuda sobremaneira a transferir para a tela a energia reprimida que subjaz naquelas relações".
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