
O Supercine da RBS TV exibe à 0h45min deste domingo (5) um filme lindo, caloroso e premiado sobre os sonhos e perrengues de uma família da periferia: Marte Um (2022).
Escrito e dirigido pelo mineiro Gabriel Martins, Marte Um ganhou oito troféus Grande Otelo na premiação da Academia Brasileira de Cinema: melhor filme, direção, ator (Carlos Francisco), ator coadjuvante (Cícero Lucas), roteiro original, fotografia (Leonardo Feliciano), edição (assinada pelo diretor com Thiago Ricarte) e som (Marcos Lopes e Thiago Bello). Concorreu em outras cinco categorias, incluindo atriz coadjuvante (Camilla Damião).
No 50º Festival de Gramado, recebeu quatro Kikitos: o Prêmio Especial do Júri ("pelo afeto que se vê na tela"), melhor roteiro, melhor música (Daniel Simitan) e melhor filme pelo júri popular. Sua exibição no Palácio dos Festivais provocou um funga-funga inesquecível. Ao acender das luzes, uma longa fila se formou na plateia para cumprimentar Gabriel Martins e os quatro atores principais: Rejane Faria, Carlos Francisco, Camilla Damião e Cícero Lucas.

Marte Um é uma realização da produtora Filmes de Plástico, a mesma dos premiados Temporada (2018) e O Dia que te Conheci (2023), ambos assinados por André Novais de Oliveira. Foi o primeiro longa-metragem solo de Martins, que em 2017 exibiu no Festival de Cannes o curta Nada e em 2019 codirigiu com Maurílio Martins o drama No Coração do Mundo. Ao apresentar o título em Gramado, ele disse:
— Sou um homem negro e periférico. Como os produtores e os atores deste filme em que a gente pode contar sobre nossas experiências. Façamos um brinde ao futuro. Que o cinema negro e o cinema periférico possam prosperar.
Divulgado como "um filme sobre sonhos e estrelas", segundo a sinopse oficial, Marte Um começa em 28 de outubro de 2018. Enquanto um telejornal anuncia a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência e fogos de artifício e gritos de guerra ecoam nas ruas, um menino negro mira o céu.
Estamos em Contagem, o terceiro município mais populoso (673,8 mil habitantes) de Minas Gerais, situado na região metropolitana de Belo Horizonte. Deivid, o Deivizinho (papel de Cícero Lucas), é filho de Wellington (Carlos Francisco, o seu Alexandre de O Agente Secreto) e de Tércia (Rejane Faria, vista recentemente em A Melhor Mãe do Mundo e Cinco Tipos de Medo) e irmão caçula de Eunice, a Nina (Camilla Damião, egressa do teatro).
Essa família, batizada com o mesmo sobrenome do diretor (que evoca sonoramente Marte), vai tendo suas personalidades e seus conflitos apresentados sem pressa, mas com foco.

Deivizinho é um craque do futebol de várzea, mas sonha em ser astrofísico, como o estadunidense Neil DeGrasse Tyson, e participar de uma missão — referida no título — que em 2030 pretende iniciar a colonização do planeta vermelho.
Wellington, porteiro em um condomínio de classe alta, se orgulha de estar há quatro anos sem beber e sonha com o ingresso do filho no seu time de coração, o Cruzeiro. O pai vê essa chance crescer quando um ídolo cruzeirense, o ex-jogador argentino Juan Pablo Sorín (vivido por ele próprio), se muda para o edifício onde trabalha.
O sonho de Nina é alugar um apartamento para ir morar com a namorada, Joana (Ana Hilário). A cena na qual as duas se conhecem, em uma boate, é uma das mais bonitas e sensuais do cinema brasileiro dos últimos anos, assim como a cena em que os pais descobrem a sexualidade da filha é uma das mais delicadas e engraçadas.
Faxineira em casas como a do anão humorista Tokinho (no papel dele mesmo), Tércia, por sua vez, não sonha: tem pesadelos e sofre de insônia desde que foi vítima de uma pegadinha de mau gosto em uma lanchonete.

À medida que as jornadas convergem e os personagens divergem, o que começara em tom de comédia dramática passa a roçar na tragédia — a ponto de o pai, a certa altura, dizer: "A gente se fodeu, família!".
Mas Marte Um, vale repetir, é um filme sobre sonhos e estrelas. Um filme sobre esperança e otimismo, um filme que alumia a alma. Brilha graças à simbiose entre Gabriel Martins, os atores e a equipe técnica.
Uma das opções mais felizes do diretor foi a de filmar planos longos e evitar ao máximo os cortes — no Festival de Gramado, ele me disse que, durante a produção, várias vezes orientou o diretor de fotografia Leonardo Feliciano a assumir o risco de não fazer contraplanos (ou seja, mostrar por outro ângulo um diálogo, por exemplo).
Essa decisão demonstra a confiança e o carinho de Martins para com o elenco. Combinada à autenticidade do design de produção assinado por Rimenna Procópio e dos figurinos elaborados por Marina Sandim, ajuda a tornar Marte Um um filme tão imersivo e tão naturalista: parece que estamos juntos aos personagens, parece que esses personagens são gente de verdade.
Uma família de verdade. Que vai brigar e ter perrengues, mas que se ama e se cuida. Talvez a cena que melhor simbolize isso seja a da cadeira. Sempre que penso nela, me arrepio e fico com os olhos marejados por lembrar daquele abraço pelas costas.
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