
Sei que Heroes (2006-2010) acabou se tornando um abacaxi e confesso que nem vi até o final, mas mora no meu coração a primeira temporada da série adicionada nesta quarta-feira (1º) ao menu da Netflix.
Criada por Tim Kring e indicada, na primeira temporada, ao Emmy de melhor série dramática, melhor direção (David Semel) e melhor ator coadjuvante (Masi Oka), Heroes aplica ao mundo dos super-heróis indagações inerentes ao mais comum dos indivíduos: se você fosse "diferente" — sob qualquer ponto de vista: étnico, religioso, sexual, físico, político... —, encararia isso como bênção ou fardo? Se isolaria ou buscaria pertencer a um grupo? Com essa particularidade, estaria interessado apenas em seu próprio bem ou em uma causa universal?
Embora os personagens ganhem poderes extraordinários — uma é indestrutível, o outro lê pensamentos, um terceiro viaja no tempo —, eles continuam gente como a gente, cheios de desejos e dúvidas.
Os mocinhos não são santos, os vilões são humanizados, e ninguém está imune a problemas familiares, amorosos ou profissionais.

A identificação com o espectador — reforçada pela escalação de um elenco quase desconhecido, pelo menos naquela época — também ocorre porque Heroes mescla outros dois populares e cultuados produtos da cultura pop: as histórias em quadrinhos dos X-Men e o seriado Lost (2004-2010).
Aliás, tanto em X-Men quanto em Lost os personagens são submetidos a interrogações semelhantes. Desde que surgiram nos gibis da Marvel, em 1963, os mutantes sempre foram uma metáfora para minorias oprimidas. Já os sobreviventes do vôo 815 da Oceanic Airlines precisam lidar com Os Outros.
Em Heroes, são marcas evidentes de X-Men a noção de que super-heróis são o próximo passo da evolução humana, a figura de um geneticista indiano, Mohinder Suresh (interpretado por Sendhil Ramamurthy), que, à la Professor Xavier, mapeia e auxilia os seres "especiais" e as próprias habilidades dos personagens.
Quem leu bastante os quadrinhos vai reconhecer ecos de HQs clássicas, especialmente Dias de um Futuro Esquecido (1981), no qual mutantes viajam para o passado a fim de evitar uma tragédia — a trama da série gira em torno de uma profecia pintada por Isaac Mendez (papel de Santiago Cabrera), de que uma bomba atômica explodirá em Nova York. Egresso do futuro, o nerd japonês Hiro Nakamura (vivido por Masi Oka) alerta o enfermeiro nova-iorquino Peter Petrelli (encarnado por Milo Ventimiglia, que mais tarde faria This Is Us):
— Salve a cheerleader, salve o mundo!
De Lost, Heroes importou sobretudo a estrutura narrativa: uma colcha de retalhos que interliga mais de uma dezena de personagens, revelando conexões no passado e encerrando cada um dos 23 episódios da primeira temporada com um gancho irrecusável para o seguinte. (Você leu bem: 23 episódios. Naqueles tempos, as séries de TV eram bem mais longas do que as atuais produções do streaming.)
A descoberta dos poderes equivale ao acidente do avião, criando um microcosmo no qual alguns vão se unir e outros serão antagonistas. E, a exemplo do seriado da ilha, o final da primeira temporada abre um novo caminho para a história e mantém enigmas pipocados ao longo da série. Como o logotipo da Dharma ou a combinação numérica 4-8-15-16-23-42, em Heroes há um símbolo recorrente, que aparece em uma tatuagem, em um colar, em uma espada...
Personagens provam: X-Men + Lost = Heroes

Os personagens da série Heroes fundem características dos X-Men e de Lost. Claire Bennet, a animadora de torcida texana interpretada por Hayden Panettiere, tem um fator de cura, como o do mutante Wolverine: por mais que ela se machuque, seu corpo se regenera. E assim como na ilha todos querem proteger uma adolescente grávida também chamada de Claire, em Heroes todos querem salvar a cheerleader.
Interpretado por Jack Coleman, Mister Bennet, o pai de Claire, é uma versão light do senador Kelly, político que, nos quadrinhos, tenta registrar todos os mutantes e seus poderes. E como o Locke de Lost, é o mais velho, tem sempre um plano e não se sabe de que lado ele está.
Nathan Petrelli, o candidato ao Congresso dos EUA encarnado por Adrian Pasdar, pode voar, tal qual o Anjo da saga dos X-Men. E como Sawyer, o galã canalha de Lost, o político é egoísta, comete seus deslizes e parece relutante em se assumir como um dos mocinhos.
O enfermeiro Peter Petrelli é capaz de reproduzir os poderes de outros personagens, assim como a mutante Vampira absorve habilidades. E além de trabalhar na mesma área do médico herói de Lost, Jack, também é ele quem tenta unir os "especiais".
O geneticista Mohinder Suresh não é telepata como o Professor Xavier, mas, ora, é o professor do grupo. E como Sayid, o militar iraquiano perdido na ilha do Pacífico, ajuda a dar uma cara globalizada ao seriado.
O pintor e quadrinista Isaac Mendez retrata em suas telas visões de eventos que ainda não aconteceram, assim como a vilã Sina, dos X-Men, pode prever o futuro. E a exemplo de Charlie, o roqueiro de Lost, ele é o dependente de drogas da turma: só consegue desenhar quando injeta heroína nas veias.
Hiro Nakamura (cujo prenome se pronuncia como hero, herói em inglês) combina características de dois mutantes: o empregado de escritório em Tóquio é capaz de se teleportar, como Noturno, e viaja no tempo para evitar um futuro trágico, como Rachel Summers. E a exemplo de Hurley em Lost, é o nerd engraçadinho de Heroes: gosta de super-heróis e de Jornada nas Estrelas.
Nikki Sanders, a stripper de Las Vegas vivida por Ali Larter, tem dupla personalidade como a mutante Jean Grey — seu lado sombrio é também o mais poderoso. E como a Kate de Lost, também atende por outros nomes.
Filho de Nikki, o guri Micah (Noah Gray-Cabey) sabe se comunicar com máquinas, assim como o herói Cifra, que integrava os Novos Mutantes (uma das tantas equipes derivadas dos X-Men) era capaz de entender qualquer tipo de linguagem. E como acontece com o garoto Walt de Lost, seu dom pode ser decisivo.
Marido de Nikki, o foragido da polícia DL Hawkins (papel de Leonard Roberts) é intangível: atravessa paredes como a jovem mutante Kitty Pryde. E tal qual Michael, o pai chato do menino-prodígio de Lost, DL parece só ser o pai chato do menino-prodígio de Heroes.
O policial de Los Angeles Matt Parkman pode ler pensamentos, como a Fênix dos X-Men. E qual é a semelhança com Lost? Bem, como o comandante da aeronave que caiu na ilha do Pacífico, esse personagem é interpretado pelo ator Greg Grunberg.
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