
Agora que A Odisseia (The Odyssey, 2026) já está em cartaz nos cinemas — onde, no seu primeiro fim de semana, a aventura de Odisseu arrecadou mundialmente mais de US$ 260 milhões nas bilheterias —, resolvi atualizar o ranking dos filmes do diretor Christopher Nolan, do "pior" ao melhor.
Como as aspas denunciam, sou fã do cineasta britânico que comemora 56 nos no dia 30 de julho. É sempre um prazer assistir aos filmes de Nolan, mesmo quando acho que ele não acerta tanto a mão. Portanto, meu ranking vai inevitavelmente deixar na parte de baixo alguns títulos que muita gente considera excelentes. Convenhamos que é o tipo de problema que a maioria do cineastas gostaria de ter.

Nolan ganhou o Oscar de melhor filme, como um dos produtores, e o de melhor direção por Oppenheimer (2023), que também valeu uma indicação na categoria de roteiro adaptado. Ele concorreu outras cinco vezes na premiação da Academia de Hollywood: como coautor do roteiro original de Amnésia (2000), escrito com seu irmão, Jonathan Nolan; como roteirista e coprodutor, ao lado de sua esposa, Emma Thomas, de A Origem (2010); e novamente como um dos produtores e também como diretor de Dunkirk (2017).
Seus filmes já arrecadaram mais de US$ 6 bilhões nos cinemas. Os campeões de bilheteria são Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), com US$ 1,08 bilhão, Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), com US$ 1 bilhão, e Oppenheimer, com US$ 975,8 milhões.
Nolan é tão cultuado quanto criticado. Uns valorizam a capacidade do diretor de conjugar ação e reflexão e de explorar, em diferentes gêneros, as suas obsessões temáticas: a natureza maleável da memória e da identidade, a rivalidade entre os homens, a ética e a ambiguidade moral, a responsabilidade por escolhas extremas, a ambição e a culpa, o conflito entre percepção e realidade e a construção e a manipulação do tempo.
Ele também é adorado pelo estilo narrativo, com histórias não lineares que frequentemente espelham o próprio ofício cinematográfico, e por fazer um cinema à moda antiga: na era das câmeras digitais, continua filmando em película, em nome de uma qualidade de imagem melhor e de um formato de tela maior, e prefere efeitos práticos em vez de recorrer à computação gráfica.

Outros reclamam do pendor de Nolan em ser explicativo em excesso, com diálogos muito expositivos, e do parco desenvolvimento emocional de personagens (especialmente as femininas): em geral, parecem apenas ferramentas do roteiro, sem uma vida interior. Também há quem o veja como um diretor arrogante: em 2020, ele bateu pé com a Warner, querendo que o estúdio mantivesse a data prevista para o lançamento mundial de Tenet, 17 de julho — dia em que os Estados Unidos acabariam registrando um recorde de 65,1 mil casos novos de covid-19.
Feita toda essa introdução, vamos ao ranking, na ordem decrescente. Clique nos links se quiser saber mais.
13º) Insônia (2002)

É o único filme em que Christopher Nolan não trabalhou no roteiro — trata-se de uma adaptação, pela estadunidense Hillary Seitz, do homônimo policial norueguês de 1997 escrito por Erik Skjoldbjærg (também diretor) e Nikolaj Frobenius. Não à toa, carece de algumas marcas do cineasta, como a narrativa fragmentada e as analogias ao próprio trabalho. Mas novamente temos personagens lidando com as questões da construção da memória e da percepção da realidade.
O cenário foi transposto da Escandinávia para o igualmente branco e gelado Alasca. Will Dormer (Al Pacino, em ótima atuação) e Hap Eckhart (Martin Donovan), dois policiais de Los Angeles acusados de desvio de conduta, viajam até Nightmute, onde o assassinato brutal de uma adolescente desnorteia Ellie Burr (Hilary Swank), a inexperiente delegada local. Na terra onde brilha o sol da meia-noite, agrava-se a dificuldade de Dormer em dormir. Seu cansaço, físico e psicológico, é acentuado pelas ações do principal suspeito, um escritor encarnado por Robin Williams, em mais um papel no qual buscava se desvencilhar da comicidade sempre associada a ele. Apesar dos desempenhos do elenco, Insônia fica em último lugar no ranking por ser o mais convencional e o mais previsível filme de Nolan. (Indisponível no streaming)
12º) Tenet (2020)

O filme começa com os músicos de uma orquestra se preparando para um concerto diante de uma plateia lotada na Ópera Nacional da Ucrânia, em Kiev. Logo explode a ação — aqui, temperada pela tensa trilha sonora composta pelo sueco Ludwig Göransson, que quase sempre fará tudo em Tenet parecer mais interessante do que realmente é. Terroristas invadem o palco e atiram em alguns instrumentistas, mas o ataque é apenas uma distração para um sequestro. Nesse meio tempo, surge o personagem de John David Washington, agente de um batalhão que, aparentemente, tem como objetivo central somente resgatar o alvo dos sequestradores. Dá-se um enrosco não muito compreensível e, por fim, o herói anônimo acaba capturado e torturado, mas sobrevive para servir a uma causa maior: "Estamos tentando evitar a Terceira Guerra Mundial", diz a ele uma cientista interpretada pela francesa Clémence Poésy. Ela também aconselha o protagonista e o público sobre o que vem pela frente: "Não tente compreender. Sinta".
Sempre acusado por seus detratores de ser explicativo demais, desta vez Christopher Nolan fez um filme confuso demais: Tenet aborda física quântica, radiação, entropia, paradoxos das viagens no tempo, o quadrado mágico dos palíndromos, contra-ataques bitemporais, algoritmos apocalípticos... Um calcanhar de Aquiles torna-se um elefante no meio da sala: o pífio desenvolvimento de personagens. Os diálogos pontuados por conceitos científicos e algumas tiradas espirituosas impedem momentos de introspecção ou de exibição do lado emocional do protagonista e de Neil (papel de Robert Pattinson). Fundamentais na conquista do Oscar de efeitos visuais, as sequências de ação conseguem fascinar, mas chega um momento em que até as lutas corpo a corpo e os duelos automobilísticos passam a confundir: como reconhecer os personagens se todos estão de capacete? Quem eles estão combatendo, quem os está atacando? No fim, o que eram mesmo os artefatos que estavam buscando? Para que serviriam exatamente? (HBO Max, Mercado Play e aluguel em Google Play e YouTube)
11º) Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

Oito anos se passaram desde os acontecimentos de O Cavaleiro das Trevas (2008). Batman (Christian Bale), após assumir a culpa pela morte de Harvey Dent — mantendo incólume a imagem do promotor público que, transformado em Duas-Caras, havia cometido atrocidades em Gotham City —, está aposentado, e seu alter ego, Bruce Wayne, virou um bilionário recluso. Não dá bola a Miranda Tate (Marion Cotillard), investidora em um projeto de energia limpa, e não percebe que falta dinheiro para ajudar um orfanato, como se queixa o policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt). Seu sacrifício, porém, concedeu à cidade tempos de paz, erguidos sob a Lei Dent, que aprisiona bandidos sem julgamento nem direito a condicional. Mas Bruce ouve dos lábios rubros de Selina Kyle (Anne Hathaway), a Mulher-Gato: "Uma tempestade está chegando". Essa tempestade vem em forma humana (ou quase). É Bane (Tom Hardy, apavorante com seus rosto encoberto por uma máscara e sua voz distorcida), terrorista que surge aos olhos do espectador na acachapante cena de abertura, a bordo de um avião da CIA.
Não escondo que chorei três vezes quando assisti no cinema ao encerramento da trilogia do Batman. Mas o tempo de lá para cá realçou os vários problemas de O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que vão desde erros bobos de continuidade até as muitas decisões do roteiro que desafiam a mínima lógica (como todos os policiais de Gotham caírem em uma armadilha), passando pelas mortes indignas, rápidas demais ou simplesmente ridículas, de dois dos personagens principais. (HBO Max, Mercado Play e aluguel em Google Play e YouTube)
10º) Seguinte (1998)

O primeiro longa-metragem de Christopher Nolan foi feito enquanto ele tinha outro emprego e com apenas 6 mil libras — ele próprio operou a câmera, usando estoques de filmes 16mm em preto e branco e aproveitando a iluminação disponível nos cenários. O caráter amador transparece, mas também saltam aos olhos elementos que pautariam a trajetória do diretor, a começar pela frase de abertura do protagonista anônimo (como o de Tenet): "O que se segue é a minha explicação".
Seguinte tem uma narrativa não linear, que intercala quatro tempos distintos. Acompanhamos a trajetória de um aspirante a escritor (Jeremy Theobald, que depois faria pontas em Batman Begins e Tenet). Tal qual um cineasta que segue seus personagens, ele, à procura de inspiração, faz o mesmo com pessoas aleatórias nas ruas de Londres (daí o título original, Following). Acaba deparando com o ladrão Cobb (a profissão e o nome de Leonardo DiCaprio em A Origem), tipo vivido por Alex Haw que invade casas de estranhos, rouba pequenos objetos íntimos e muda coisas de lugar, para que as vítimas percebam o crime e passem a sentir falta do que perderam (é quase como um truque de mágica, que está no centro da trama de O Grande Truque). Como de hábito na filmografia do diretor, haverá uma reviravolta que muda nosso entendimento da história. O inesperado é um lance premonitório: o apartamento do protagonista tem na porta o logotipo do Batman, sete anos antes de Nolan dar início a sua trilogia do Homem-Morcego. (Indisponível no streaming)
9º) Interestelar (2014)

Premiado com o Oscar de efeitos visuais, o filme investe na vertente de 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001), de Stanley Kubrick, e Solaris (1972), de Andrei Tarkovski: a viagem rumo ao universo desconhecido e seu efeito psicológico e existencial sobre o explorador. Em atuação magnetizante e nuançada, Matthew McConaughey interpreta Cooper, engenheiro espacial e ex-piloto da Nasa que agora toca a vida como fazendeiro em um lugarejo açoitado por tempestades de areia. Ele voltará à ativa atendendo à convocação do cientista (Michael Caine) encarregado de um programa secreto da agência espacial dos EUA, que corre contra o relógio para encontrar um planeta habitável. A missão, além do grande risco e do longo tempo, exige de Cooper deixar os dois filhos, Tom (Timothée Chalamet quando jovem, Casey Affleck na fase adulta) e a pequena Murph (Mackenzie Foy e depois Jessica Chastain).
Interestelar talvez seja o filme mais divisivo de Christopher Nolan. Entre os pontos elogiados, está o compromisso com o embasamento científico. Com a consultoria do físico Kip Thorne, o diretor procurou tornar acessíveis ao grande público conceitos complexos — como teoria da relatividade, buraco de minhoca (uma deformação do espaço-tempo que permitiria viagens intergalácticas), gravidade quântica e quinta dimensão. Por outro lado, há quem entenda que Nolan acaba se contradizendo: derruba toda a ciência em prol de mostrar como o amor é a resposta para tudo. O sentimentalismo é exacerbado pela imponente trilha sonora de Hans Zimmer e tem seu ápice no célebre discurso melodramático da personagem de Anne Hathaway. Para o bem ou para o mal, virou meme a cena em que o protagonista chora compulsivamente. (HBO Max, Mercado Play e aluguel em Google Play e YouTube)
8º) Batman Begins (2005)

O filme protagonizado por Christian Bale foi influenciado por dois traumas dos Estados Unidos: o assassinato do presidente John F. Kennedy, em 1963, e os ataques terroristas do 11 de Setembro, em 2001. Nolan discute o poder e o propósito do medo — não à toa, um dos vilões é o Espantalho (papel de Cillian Murphy), que desenvolveu um gás capaz de fazer as vítimas alucinarem sobre seus piores temores.
Batman Begins mostra como um guri amedrontado se transformou em um Homem-Morcego. Nessa jornada, o diretor quis ser o mais realista possível. Primeiro, extirpou as cores espalhafatosas, as piadas escrachadas, os personagens cartunescos e os elementos bizarros das aventuras anteriores do personagem, assinadas por Joel Schumacher. Entram a fotografia com um jogo de luz sépia e sombras de Wally Pfister (indicado ao Oscar), a violência, a dor e a amargura. Depois, na construção do roteiro, se preocupou em responder a uma série de perguntas: por que a roupa de morcego? Por que a obsessão pela justiça? Como Bruce treinou? Como consegue seu equipamento? Por que ele não mata? Como seria um Batmóvel na vida real? Quem é Bruce Wayne? (HBO Max, Telecine, Mercado Play e aluguel em Google Play e YouTube)
7º) A Odisseia (2026)

Assombrosa na sua engenharia visual e no emprego do som (aí incluída mais uma aclamada trilha sonora composta por Ludwig Göransson), mas um tanto vazia emocionalmente, a adaptação do poema escrito pelo grego Homero é o filme que Nolan sempre quis fazer — e que ele sempre fez. O próprio diretor, em entrevista concedida ao jornal The New York Times, disse que, ao escrever o roteiro, percebeu como A Odisseia está presente em toda a sua filmografia.
No livro Christopher Nolan: O Cineasta Icônico e sua Obra, recém publicado no Brasil pela editora gaúcha Belas Letras, de Caxias do Sul, o crítico inglês Ian Nathan comparou Odisseu (Matt Damon) com o protagonista de Oppenheimer: "Dois homens brilhantes lançados à deriva pelo massacre sangrento que arquitetaram para pôr fim a uma guerra. O cavalo de madeira não seria, afinal, uma arma de destruição em massa para arrasar uma cidade?". Os mágicos de O Grande Truque são castigados por causa da hubris, o nome dado pelos gregos para definir um excesso de orgulho ou autoconfiança. Em Interestelar, o astronauta Cooper empreende uma aventura por galáxias desconhecidas enquanto tenta voltar para casa e reencontrar a filha. Em A Origem, a tentativa da esposa do ladrão de sonhos de aprisioná-lo em um mundo irreal reflete a condição do rei de Ítaca na ilha da ninfa Calipso (Charlize Theron). Em Dunkirk, o mar surge como o grande antagonista. A trilogia do Batman é cheia de referências, que vão das andanças de Bruce Wayne por um mundo hostil ao uso de um disfarce para expurgar o mal que tomou conta do seu lar. E há um alerta a Odisseu que se aplica ao personagem de Amnésia: "Você quer se lembrar, mas e se as memórias destruírem a sua felicidade?". (Em cartaz nos cinemas)
6º) Oppenheimer (2023)

Este épico com três horas de duração e mais de 70 nomes no elenco faturou quase US$ 1 bilhão nas bilheterias e ganhou o Oscar em sete categorias: melhor filme, direção, ator (Cillian Murphy), ator coadjuvante (Robert Downey Jr.), fotografia, edição e música original. Nolan reconstitui a turbulenta trajetória do físico J. Robert Oppenheimer (1906-1967), considerado o pai da bomba atômica que foi jogada pelos EUA sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial. Apesar de ser uma cinebiografia ambientada no passado, Oppenheimer tem a ambição de falar da humanidade como um todo e de dilemas muito contemporâneos.
Por um lado, seu protagonista nos lembra como somos complexos e contraditórios: Oppenheimer é egocêntrico, mas também é atormentado por dúvidas e inseguranças: será que a bomba vai trazer a paz que ele imagina, mesmo que por causa do medo? Oppenheimer é um cientista, mas também é um sujeito passional (o que vai render a primeira cena de sexo em um filme de Christopher Nolan, na companhia da personagem de Florence Pugh, subaproveitada na trama). Oppenheimer é um gênio, mas também é ingênuo — um personagem afirma: "Como esse homem que viu tanta coisa pôde ser tão cego?". Por outro lado, o diretor disse que o filme servia como um alerta para as empresas de tecnologia: "Quando falo com os principais pesquisadores no campo da inteligência artificial, eles dizem que estão em seu momento Oppenheimer. Eles estão olhando para a história para tentar responder: quais são as responsabilidades dos cientistas que desenvolvem novas tecnologias que podem ter consequências não intencionais?". (Canal Universal+ do Amazon Prime Video e aluguel em Google Play e YouTube)
5º) Dunkirk (2017)

Premiado no Oscar nas categorias de edição, mixagem de som e edição de som, o filme está ambientado na Segunda Guerra Mundial, durante a Batalha de Dunquerque, entre maio e junho de 1940, quando cerca de 400 mil soldados aliados ficaram encurralados pelas tropas alemãs no nordeste da França entre a terra e o mar. Na iminência de serem massacrados, britânicos e franceses torcem por um resgate marítimo da Inglaterra — que, se vier e conseguir escapar do bloqueio inimigo, pode não ser suficiente para salvar todos.
Dunkirk intercala três núcleos dramáticos: por terra, o acaso reúne dois jovens combatentes (Fionn Whitehead e Aneurin Barnard, aos quais vai se juntar o personagem do cantor Harry Styles) na briga pela sobrevivência; por água, um veterano marinheiro (Mark Rylance) parte da costa inglesa com o filho e um ajudante, atendendo à conclamação para que barcos civis auxiliem na evacuação dos homens do outro lado do canal; por ar, um piloto inglês (Tom Hardy) lidera um grupo de caças que tenta evitar os ataques dos aviões alemães a embarcações e tropas. A narrativa é muito engenhosa: Nolan adota três arcos temporais distintos — respectivamente, uma semana, um dia e uma hora —, que gradativamente vão convergindo para um clímax simultâneo. (Amazon Prime Video e aluguel em Google Play e YouTube)
4º) Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008)

Sucesso de público e de crítica e vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante (postumamente concedido a Heath Ledger, ofuscante no papel do vilão Coringa) e edição de som, Batman: O Cavaleiro das Trevas estabeleceu um novo paradigma pros filmes de super-herói. Entre combates corporais, perseguições automobilísticas e explosões de prédios, discute temas perenes (como o que é um herói e o que separa o Bem do Mal) e dilemas modernos (como os riscos de combater o crime com extremismo).
A trama começa com um mirabolante assalto a banco, uma das homenagens de Nolan ao clássico policial Fogo Contra Fogo (1995), de Michael Mann. Entre as outras, estão a escalação do ator Willian Fichtner, a fotografia fria e azulada assinada por Wally Pfister (indicada ao Oscar), o peso da cidade e o caráter obsessivo dos personagens. A principal citação é na cena do interrogatório, que referencia o encontro, no restaurante, do detetive Vincent Hanna (papel de Al Pacino) e o ladrão Neil McCauley (Robert De Niro). Ali, Batman e o Coringa vão se reconhecer como duas caras da mesma moeda — "Você me completa!", diz o vilão para o herói. Depois, quando o Homem-Morcego suspende o Palhaço do Crime de ponta-cabeça, a câmera se movimenta para igualar a posição dos dois personagens: um não é mais o inverso do outro, mas seu espelho. (HBO Max, Telecine, canal Universal+ do Amazon Prime Video, Mercado Play e aluguel em Google Play e YouTube)
3º) Amnésia (2000)

Na cena de abertura, uma mão sacode uma foto Polaroid, mas, em vez de aparecer a imagem, ela vai desaparecendo. Em seguida, a fotografia é sugada para dentro da máquina; de um corpo estendido no chão, o sangue reflui; e a bala retrocede da cabeça do morto pro revólver empunhado pelo fotógrafo, um ex-agente de seguros (encarnado por Guy Pearce) que busca vingança pelo estupro e pelo assassinato da esposa. Na noite da tragédia, ele foi golpeado na cabeça, tornando-se vítima de uma rara desordem cerebral: é incapaz de formar recordações novas. Desconfiado de todos e traído pela própria memória, o personagem só sobrevive graças às fotos que tira das pessoas e dos lugares, às notas que escreve à mão nessas imagens e em papéis e às tatuagens que faz pelo corpo, o arquivo vivo da morte da mulher.
A mágica de Amnésia é misturar o tema — a condição fabril e flexível da memória — à estrutura. Após cada cena, Nolan mostra o que ocorreu ligeiramente antes. As surpresas para o público, portanto, não vicejam no futuro, mas no passado: a trama é contada do fim para o começo. A sensação é de que estamos recuperando as lembranças aos poucos, como acontece com o protagonista. (Canal Lionsgate+ do Amazon Prime Video e aluguel em Google Play e YouTube)
2º) O Grande Truque (2006)

O Grande Truque se passa em Londres, na virada para o século 20, época em que os espetáculos de mágica, com seu convite à ilusão, ocupavam o espaço que em breve seria do cinema. Dois jovens buscam o estrelato: Robert Angier, personagem de Hugh Jackman, e Alfred Borden, interpretado por Christian Bale. Após um acidente de trabalho, os dois mágicos se transformam em terríveis rivais. E ainda vão disputar uma assistente de palco encarnada por Scarlett Johansson.
Na abertura, o engenheiro de gaiolas para pombos e tanques de água vivido por Michael Caine faz um monólogo que fala sobre o trabalho de mágico e dá pistas sobre o grande truque do filme. Esse monólogo é ilustrado por cenas que atiçam a curiosidade, como a de vários chapéus espalhados em uma floresta, e antecipam situações sinistras e revelações chocantes. Mas a todo instante estaremos nos iludindo, nos confundindo e nos surpreendendo, porque, a exemplo do que diz o personagem de Caine, talvez não estivéssemos prestando atenção, talvez não quiséssemos realmente saber. Eis uma bela metáfora para o cinema em si, onde somos cúmplices dos enganadores. (HBO Max — mas somente até 31 de julho —, Mercado Play e aluguel em Google Play e YouTube)
1º) A Origem (2010)

Ganhador do Oscar nas categorias de melhor fotografia, efeitos visuais, edição de som e mixagem de som, A Origem combina o filme-pipoca com o filme-cabeça. Arrecadou quase US$ 830 milhões nas bilheterias aos transformar temas da psicanálise em cenas de ação: a interpretação dos sonhos. Os arquivos secretos nos escaninhos da mente. As projeções que fazemos de quem nos cerca e de nós mesmos. Os pontos de fuga em um mundo interior. A engenharia da identidade. A tênue fronteira entre memória e imaginação. Os mecanismos de defesa do inconsciente. A culpa que atormenta a consciência. A realidade como uma construção mental.
Na trama, Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, um ladrão de sonhos. É capaz de penetrar na mente das pessoas enquanto elas estão dormindo para roubar segredos industriais. Mas ele acaba recrutado para o oposto: uma inserção (a inception do título original), ou seja, plantar uma ideia na cabeça do herdeiro de uma megacorporação, Robert Fischer (Cillian Murphy). Esse universo onírico não é nada pacífico: há tiroteios, perseguições e explosões. Projeções tomam a forma de capangas armados, e um trem desgovernado simboliza o perigo do inconsciente.
Feito com muitos dos colaboradores mais frequentes de Christopher Nolan, incluindo o diretor de fotografia Wally Pfister (sete filmes com ele), o editor Lee Smith (sete), o compositor Hans Zimmer (seis) e os atores Michael Caine (oito) e Cillian Murphy (seis), A Origem sintetiza obsessões temáticas e estilísticas, como o quanto de nossas lembranças são fabricações, o lado sombrio de cada um, o poder da ilusão e da teatralidade, a manipulação do tempo narrativo e o espelhamento do fazer cinema.
Seu enredo é basicamente o mesmo que envolve a produção de um filme: precisa-se de uma equipe para construir um sonho e alcançar corações e mentes. O personagem Dom Cobb é o diretor — e DiCaprio tem um tipo físico semelhante ao de Nolan e aparece com os cabelos dourados armados no mesmo topete do cineasta. Arthur (Joseph Gordon-Levitt), o seu braço-direito, desempenha funções que equivalem às do diretor de fotografia e do montador — é ele quem cuida do enquadramento e da sincronia dos sonhos. Ariadne (Elliot Page), a nova arquiteta, é quem projeta os cenários e decora o estúdio do inconsciente. Yusuf (Dileep Rao), o químico, pode ser visto como o técnico dos efeitos especiais: depende de sua mágica para que os espectadores possam sonhar. Saito (Ken Watanabe) é o produtor, o homem que entra com a grana e, por isso, se sente no direito de também entrar em cena. E Eames (Tom Hardy) é exatamente o ator, que encarna um papel para traduzir a razão em conceitos emocionais, ou seja, o cara que precisa cativar o espectador e inserir na sua cabeça e no seu coração uma ideia e um sentimento. (Amazon Prime Video, HBO Max, Telecine, Mercado Play e aluguel em Google Play e YouTube)
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter
Assista aos vídeos Dica do Ticiano no YouTube: clique aqui
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano


