
Na sexta-feira (10), estreia no Amazon Prime Video um filme que colocou os críticos em um dilema na época do seu lançamento nos cinemas, no início de abril. Trata-se de O Drama (The Drama, 2026), escrito e dirigido por Kristoffer Borgli e protagonizado por Robert Pattinson e Zendaya. Como falar sobre sua contundência e suas polêmicas sem dar spoiler?
Há filmes em que o segredo é a alma do negócio. Revelar uma virada na trama ou um plot twist, como chamam em Hollywood, equivale a privar o público da surpresa. Sem o devido alerta de spoiler, um crítico pode arruinar a experiência de assistir a um policial, a um suspense, a um terror ou até a uma comédia romântica _ mistérios e reviravoltas não são exclusividade de nenhum gênero. Aliás, mesmo documentários lançam mão de artifícios mais associados à ficção. Vide A Artista e o Ladrão (2020), do diretor norueguês Benjamin Ree.
Em alguns casos, o final muda totalmente a história que acabamos de ver. Ou a solução estava na cara o tempo todo, mas o cineasta, tal qual um ilusionista, como define o diretor Christopher Nolan, foi hábil em desviar nosso olhar para outra coisa.

Às vezes, a guinada acontece bem mais cedo. O exemplo clássico é o de Psicose (1960), em que Alfred Hitchcock fez a plateia achar que estava contando a história de uma secretária que roubou US$ 40 mil da imobiliária onde trabalhava para pagar as dívidas de seu amante, até que a famosa e fatídica cena do chuveiro nos mostrou que a história sendo contada era outra.
Não raro, o plot twist é só perfumaria: não concede mais relevância ao tema abordado, não abre novas leituras, não ressignifica o filme. Mas se for bem feito, se for saboroso, se fizer o queixo cair, está valendo.
E mesmo quando tomamos cuidado de não avançar o sinal na descrição de uma sinopse, corremos o risco de condicionar o espectador. Ao escrever que o roteiro de um filme é surpreendente, induzo o leitor a já olhar por trás das cortinas, gerando uma expectativa que pode reprimir o espanto diante das descobertas e reversões ofertadas pelos cineastas.
Mas há situações em que o spoiler é essencial para a argumentação sobre um filme, para justificar elogios, como aqueles que fiz a Que Horas Eu te Pego? (2023), comédia de Gene Stupnitsky, e Pisque Duas Vezes (2024), terror de Zoë Kravitz, fundamentar uma crítica negativa ou explicar por que existe um debate, o que é o caso de O Drama.
Na trama, Zendaya interpreta Emma, e Robert Pattinson faz o papel de Charlie. Quando o filme começa, eles estão na semana dos últimos preparativos para o casamento. Cada um está escrevendo e compartilhando com os amigos o que vai dizer na cerimônia. Charlie, por exemplo, afirma adorar como Emma transforma os dramas dele em comédia.

Parece que estamos diante de uma comédia romântica como qualquer outra, mas quem já viu o trailer sabe que alguma coisa balançou o relacionamento, a ponto de o casal não conseguir sorrir com naturalidade durante uma sessão de fotos. E quem conhece o diretor e roteirista de O Drama sabe que esse filme não vai ser uma simples comédia romântica.
O norueguês Kristoffer Borgli é o mesmo cineasta de Doente de Mim Mesma (2022) e de O Homem dos Sonhos (2023). Pode-se enxergar em O Drama características dos dois títulos anteriores, como as cenas que embaralham o real e o imaginado, o tema da cultura do cancelamento e o clima de constante desconforto.
A certa altura, Emma inverte a mão: transforma uma comédia em drama. E então faz surgir um elefante enorme no meio da sala.
Não se pode ignorá-lo e é preciso nomeá-lo, portanto, fica o alerta de que haverá SPOILERS a partir daqui.

No dia em que Emma, Charlie e os padrinhos Rachel (vivida por Alana Haim, de Licorice Pizza) e Mike (personagem de Mamoudou Athie, da série Arquivo 81) estão provando os pratos e os vinhos a serem servidos no casamento, os quatro amigos resolvem contar qual foi a pior coisa que cada um já fez na vida. As confidências provocam risos, embora algumas ações tenham sido realmente vergonhosas, até que Emma revela: quando tinha 15 anos, ela planejou um massacre a tiros no colégio onde estudava. Chegou a levar um rifle para a escola, mas não seguiu adiante com o plano.
Pronto. Essa revelação chocante muda tudo na relação entre os personagens do filme — e muda tudo também na relação dos espectadores com o filme.
O Drama pergunta: o amor é incondicional? Será que conhecemos de verdade a pessoa que amamos? Como conciliar a visão idealizada com a realidade? Você já contou tudo sobre seu passado para quem divide a cama contigo? Há coisas que não merecem perdão? Segredos que impedem uma segunda chance? Existe uma calculadora moral para medir o que é aceitável e o que não é? Até onde vai a nossa hipocrisia?

Todas essas perguntas são válidas, pertinentes e instigantes. O problema é que o próprio filme interditou uma parte muito importante do debate ao tratar como segredo de Estado o motivo da crise entre Emma e Charlie.
Sobreviventes dos ataques a tiros em colégios e pais de vítimas reclamaram que O Drama usa as chacinas escolares apenas como elemento de um plot twist e criticaram o marketing do filme, por esconder essa questão em vez de aproveitar a influência de Zendaya e Robert Pattinson para discutir sobre essa tragédia cotidiana dos Estados Unidos.
A comunidade negra também se queixou, citando estatísticas: são homens brancos que atacam a tiros em escolas e universidades. Negros são raros, mulheres são raríssimas — uma mulher negra, então, é praticamente uma fantasia.
É verdade que o filme não se omite de criticar a presença massiva das armas de fogo na sociedade, na cultura e no imaginário do país. Também fala sobre o que pode levar um adolescente a querer matar seus colegas, encenando em flashbacks episódios de bullying, isolamento social e depressão e mostrando como atiradores são encorajados, ensinados e endeusados em fóruns da internet.
E a identidade racial de Emma suscita leituras como a que fizeram a curadora de arte Andreza Delgado, fundadora da Perifacon, e a jornalista Karol Gomes: ambas negras, no Instagram elas refletiram sobre como o racismo estrutural está por trás das reações de Charlie à confissão da noiva.
Mas O Drama aborda seus temas complexos com ironia e comicidade, o que, pelo menos nos Estados Unidos, gera compreensível controvérsia. Será que dá para fazer humor sobre tiroteios em escolas enquanto famílias choram por filhos e irmãos mortos e milhões de crianças e adolescentes vivem com medo de que sua sala de aula vire palco de uma matança? E nós podemos rir, mesmo que de nervoso?
Extrapolando, O Drama reafirma a liberdade de expressão artística ao mesmo tempo em que convida a refletir sobre os possíveis limites da arte. E este é um mérito inegável do filme: deixa o espectador com zilhões de perguntas na cabeça e provoca qualquer coisa, seja positiva ou negativa, menos indiferença.
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