
A cantora britânica Bonnie Tyler, que morreu nesta quarta-feira (8), aos 75 anos, em Portugal, jamais será esquecida por seus fãs — e também pelos espectadores de muitos filmes.
Pelo menos duas de suas canções tornaram-se presença constante no cinema: Total Eclipse of the Heart (1983) e Holding Out for a Hero, gravada para a trilha sonora do filme Footloose: Ritmo Louco (1984), de Herbert Ross, que pode ser alugado em Amazon Prime Video, Google Play e YouTube.

Entre os outros filmes que utilizaram Holding Out for a Hero, está Shrek 2 (2004), de Andrew Adamson, Conrad Vernon e Kelly Asbury — mas na voz de Jennifer Sounders, que dubla na versão em inglês a vilã Fada Madrinha. A personagem canta na cena do baile real, onde faz uma performance espetacular para tentar seduzir o rei enquanto Shrek tenta salvar a princesa Fiona. Veja no Amazon Prime Video, na HBO Max e no Telecine.
A lista inclui mais duas animações — Angry Birds 2: O Filme (2019) e Super Mario Bros.: O Filme (2023) —, a aventura de super-herói Shazam! Fúria dos Deuses (2023), e episódios das séries Cold Case, Euphoria e Loki.

A comédia criminal Vida Bandida (2001), dirigida por Barry Levinson, estrelada por Bruce Willis, Cate Blanchett e Billy Bob Thornton e atualmente disponível no canal MGM+ do Amazon Prime Video — sob o título Bandidos —, emprega as duas músicas. Em uma das cenas, os personagens cantam Total Eclipse of the Heart juntos dentro de um carro.
Total Eclipse of the Heart também aparece em Lenda Urbana (1998), Party Monster (2003), Diário de um Banana (2010), Os Estranhos: Caçada Noturna (2018), Gloria Bell (2018), Os Cinco Diabos (2022), Bottoms (2023), A Última Showgirl (2024), Chefes de Estado (2025) e nas séries Nip/Tuck, A Nova Vida de Toby e A Queda da Casa de Usher.
Um dos casos mais recentes foi na comédia de terror Casamento Sangrento 2: A Viúva (2026), de Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, que estreou recentemente no Disney+. Total Eclipse of the Heart embala um duelo da protagonista vivida por Samara Weaving com a amante rejeitada de seu ex-noivo. A cena, que envolve uma bazuca e um spray de pimenta, talvez seja a única digna de nota no filme.
Filme nacional usou "Total Eclipse of the Heart"

Até filme brasileiro já lançou mão do clássico de Bonnie Tyler Total Eclipse of the Heart. Foi no belo drama Deserto Particular (2021), de Aly Muritiba, presente no menu da HBO Max.
Como o título sugere, a história começa com o protagonista, Daniel (interpretado por Antonio Saboia), correndo em uma noite deserta de Curitiba. Em uma narração em off, descobrimos que ele está completamente apaixonado:
— Não era só o ar que me faltava. O que me faltava era você.
Mas quem é Daniel, o que faz da vida, por que está com um braço engessado? E a quem ele está se dirigindo?
Aly Muritiba vai desvendando a trama e o drama aos poucos. O ritmo imersivo é potencializado pela direção de fotografia do venezuelano Luis Armando Arteaga, que investe bastante em sombras e enquadramentos enviesados — traduções visuais das angústias e das dúvidas do personagem —, e pela edição da portuguesa Patricia Saramago, que não tem pressa para cortar as cenas, como a indicar que aquela é uma existência em suspenso. Os dois recursos, o da penumbra e o da contemplação, também contribuem para o clima onírico e sensual de Deserto Particular.
Afastado do trabalho — o motivo, mais uma vez, só será informado mais adiante e em conversas cifradas — e preso a uma rotina que inclui cuidar do pai doente, Daniel escapa via celular. O WhatsApp é o território mágico onde troca mensagens com Sara e manda nudes. São os raros momentos em que esboça um sorriso (ou quase isso).
Até que ela para de responder. Some. Daniel tem apenas um caminho a seguir: pegar o carro e viajar até Sobradinho, no interior da Bahia.
É só então, após mais ou menos meia hora de filme, que os créditos aparecem na tela, sinalizando que agora sim começa a aventura do protagonista. É tanto uma jornada Brasil adentro quanto uma viagem de autodescobrimento. À procura de Sara, Daniel vai conhecer um outro Daniel. E foi tudo culpa do amor, como diz o título da canção composta por Diana na década de 1970 que embala uma cena em uma boate baiana ("Não sei por que / Esse amor existiu entre nós / Agora só resta esquecer"). Foi um eclipse total do coração, nome em português do sucesso de Bonnie Tyler, que toa ao fundo durante um encontro dos dois personagens em uma boate.
Os versos sofridos e desesperados de Total Eclipse of the Heart — "De vez em quando eu desmorono" — refletem a confusão sentimental de Daniel, assim como o cenário de Sobradinho, cidade erguida em torno de uma hidrelétrica, remete ao represamento emocional. O personagem permite a Aly Muritiba abordar os preconceitos e as ilusões que ora nos guiam, ora nos desorientam na sinuosa estrada da paixão e da sexualidade.
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