
Disparadamente, estrondosamente, absurdamente, Obsessão (Obsession, 2025) é o filme mais rentável do ano, ou seja, o de maior retorno de investimento. Escrito, dirigido e editado por Curry Barker, um estadunidense de 26 anos, este terror já rendeu 500 vezes o que custou. Orçado em US$ 750 mil, até esta quinta-feira (2) havia faturado US$ 375,7 milhões nas bilheterias.
Se você não viu no cinema ou quer assistir de novo, agora já pode fazer isso em casa. Na virada de junho para julho, Obsessão foi adicionado às plataformas de aluguel digital. Custa R$ 29,90 no Google Play e no YouTube. Se preferir a tela grande, o filme segue em cartaz em uma sala de Porto Alegre, no Cinesystem do shopping Bourbon Country, com sessões às 22h.
Obsessão tornou-se o filme original (ou seja, sem ser uma continuação ou um prólogo nem ser parte de uma franquia) de maior sucesso comercial na década de 2020. Destronou Pecadores (2025), de Ryan Coogler, que somou US$ 370,2 milhões.
Também virou o campeão entre os filmes da produtora e distribuidora Focus Features, deixando para trás Traffic (2000), de Steven Soderbergh, que deteve a liderança por mais de 25 anos após faturar US$ 207,5 milhões.
Nos Estados Unidos, Obsessão virou um raríssimo fenômeno de público. Normalmente, a bilheteria de um filme cai de 35% a 50% no segundo fim de semana em cartaz, sobretudo com os títulos de terror, porque os fãs do gênero e os espectadores mais ansiosos costumam correr para os cinemas nos primeiros dias da estreia. No caso da obra de Barker, a arrecadação aumentou 39%.
Mas há um recorde que Obsessão não deve conseguir quebrar, o de A Bruxa de Blair (1999). O filme dirigido por Eduardo Sánchez e Daniel Myrick teve um orçamento de produção estimado em US$ 60 mil, valor que subiu para aproximadamente US$ 200 mil com os custos de pós-produção e a transferência para o formato de 35mm para os cinemas. O retorno financeiro foi monstruoso: US$ 248,6 milhões nas bilheterias, o que equivale a 1,2 mil vezes o que custou.
Como "Obsessão" virou fenômeno de bilheteria?

Parte do sucesso de Obsessão se deve ao marketing de guerrilha empregado pela Focus Features. A campanha viral transformou outdoors de Los Angeles e de Nova York em uma experiência interativa. Os anúncios exibem uma mensagem amorosa assinada por Nikki, a personagem interpretada pela atriz Inde Navarrette, e um número real de telefone. Ao enviar um SMS, as pessoas recebiam textos e áudios progressivamente perturbadores.
Outra parte deve-se à presença maciça do filme nas redes sociais e à propaganda boca a boca: a imprensa e os influenciadores digitais tornaram-se obcecados por Obsessão, por Barker e por Navarrette. Não era para menos.
Obsessão é um dos grandes filmes de terror dos anos 2020. Passei mal ao assistir, porque a atmosfera é sufocante, ainda que aqui e ali haja alívio cômico. As cenas de violência são comedidas na quantidade, mas não na intensidade: o choque jamais se torna anestesiante pela repetição. Há pelo menos um susto capaz de fazer pular na poltrona. E a trama parte de um alerta clássico do gênero — "tenha cuidado com o que você deseja" — para realçar o horror de um drama muito real e presente: os relacionamentos tóxicos.
Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sitges, na Espanha, este é o segundo longa-metragem de Curry Barker. O primeiro, Milk & Serial (2024), foi lançado diretamente e gratuitamente no YouTube, onde ele criou com Cooper Tomlinson o canal de comédia that's a bad idea, com esquetes sobre fantasmas pervertidos e serial killers atrapalhados. Barker assina o roteiro, a direção, a edição e a música, e divide com Tomlinson a produção, a fotografia e o protagonismo. Na trama, uma dupla popular das redes sociais precisa lidar com as terríveis consequências de uma pegadinha de aniversário.
Tanto por causa de suas origens no humor e no YouTube quanto por seu estilo em Obsessão, seus temas e sua capacidade de impactar, Curry Barker já suscitou afiliações a expoentes do terror contemporâneo, como Jordan Peele (de Corra! e Nós), Ari Aster (de Hereditário e Midsommar), Zach Cregger (de Noites Brutais e A Hora do Mal) e os gêmeos Danny Philippou e Michael Philippou (de Fale Comigo e Faça Ela Voltar). Sua ascensão está garantida: depois de Anything But Ghosts, filme estrelado por Aaron Paul, Bryce Dallas Howard e Violet McGraw sobre dois falsos investigadores paranormais que acabam enfrentando fantasmas reais, ele vai dirigir um novo título da franquia O Massacre da Serra Elétrica.
Qual é a trama de "Obsessão"?

Em Obsessão, o diretor Curry Barker conta a história de Bear, personagem interpretado por Michael Johnston, um ator de 30 anos que só havia feito um papel de razoável destaque, o Corey Bryant das temporadas 5 e 6 da série Teen Wolf (entre 2015 e 2017). O tímido Bear é empregado em uma loja de instrumentos musicais, onde trabalha ao lado de sua paixão platônica: Nikki Freeman, personagem de Inde Navarrette, 25 anos, atriz que fez a Sarah Cushing em 47 episódios do seriado Superman e Lois (de 2021 a 2024) e que a partir de agora deve receber muitas propostas dos produtores de Hollywood. Ela é a alma e, literalmente, o corpo do filme: as rápidas transições emocionais e a fisicalidade de sua atuação impressionam.
O pedido de Bear para sair com Nikki está "atrasado há sete anos", como brinca Ian (Cooper Tomlinson), seu colega e melhor amigo. Na cena de abertura, o protagonista ensaia o que vai dizer à garota. São coisas que qualquer um de nós já deve ter dito ou escutado, mas Ian aponta o caráter doentio e sinistro de frases como "Você está em todas as músicas que ouço" e "Eu escolheria você acima de tudo".Sem coragem para revelar seus sentimentos para Nikki e temendo que não sejam recíprocos, Bear recorre a um brinquedo kitsch que comprou em uma loja de produtos esotéricos, o Salgueiro dos Desejos. Basta quebrá-lo ao meio para ter seu desejo realizado. Quando a vendedora avisa que muitos consumidores reclamam, ele indaga: as pessoas se queixam por que não deu certo? Ou por que funcionou e acabou com a vida delas?

Bear pede que Nikki o ame mais do que tudo no mundo. O desejo é rapidamente concedido e, no início, parece um sonho — mas o sonho de um homem abusivo, controlador e egoísta: Nikki está sempre excitada e só existe para ele. Quando Bear sai para trabalhar, ela fica o tempo todo à sua espera, de pé e imóvel no meio da sala.
De vez em quando e por brevíssimos instantes, a personagem emite gritos que tanto assustam quanto comovem — é como se fosse um desesperado pedido de socorro ao perceber que sua personalidade foi sequestrada e que ela está aprisionada.
Paulatinamente, Nikki se torna ciumenta, possessiva, impulsiva e violenta — essas duas últimas características são extremamente bem exploradas pelo diretor de fotografia Taylor Clemons e pela montagem de Curry Barker, que trabalham com a penumbra e o visceral. O sonho virou um pesadelo, o que é enfatizado pela climática trilha sonora composta por Rock Burwell. Agora, é Bear quem está preso.

Obsessão é um filme perturbador. Bear não é um mocinho, nem Nikki é exatamente uma vilã. Os atos horríveis dela não anulam os atos horríveis dele, que priorizou seus desejos em detrimento da autonomia da amiga e, no fundo, está se aproveitando de uma mulher vulnerável.
Por Curry Barker adotar a perspectiva de um personagem masculino para narrar uma história de codependência amorosa e relacionamentos tóxicos, Nikki pode parecer somente uma versão exagerada do estereótipo da "mulher louca". Mas o que o diretor faz, assim entendo, é colocar os homens no lugar das tantas mulheres que sofrem com a possessividade, a instabilidade e a agressividade de seus maridos e namorados — que às vezes são lobos disfarçados em pele de cordeiro: posam como o "cara legal e sensível", mas não sabem lidar com a rejeição, manipulam e, por fim, abusam.
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