
Existem filmes em que o segredo é a alma do negócio. Revelar uma virada no roteiro ou um plot twist, como chamam em Hollywood, equivale a privar o público da surpresa. E sem o devido alerta de spoiler, um crítico pode arruinar a experiência de assistir a um policial, a um suspense, a um terror ou até a uma comédia romântica. Afinal, mistérios e reviravoltas não são exclusividade de nenhum gênero. Aliás, mesmo documentários lançam mão de artifícios mais associados à ficção. Vide A Artista e o Ladrão (2020), do diretor norueguês Benjamin Ree. Se a realidade é mais estranha do que a ficção, como diz o ditado, este título mostra que a vida real também pode ser mais imprevisível, improvável, até inverossímil.
Em alguns casos, o final muda totalmente a história que acabamos de ver. Ou a solução estava na cara o tempo todo, mas o cineasta, tal qual um ilusionista, como define o diretor Christopher Nolan, foi hábil em desviar nosso olhar para outra coisa.
Pois bem: nesta quinta-feira (9), estreia nos cinemas um desses filmes em que o melhor é não saber quase nada da trama. Portanto, pode ficar sossegado: este texto não vai dar nenhum spoiler de O Convite (The Invite, 2026). Aliás, não vou revelar nem o gênero em que se enquadra o título dirigido por Olivia Wilde, a mesma de Fora de Série (2019) e Não se Preocupe, Querida (2023).
O que dá pra dizer é que O Convite remete a dois filmes. Um é o clássico Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966), versão do diretor Mike Nichols para uma peça de Edward Albee. Elizabeth Taylor e Richard Burton interpretam um casal em crise que convida um casal mais jovem para beber na casa deles depois de uma festa. As conversas regadas a álcool vão revelando ressentimentos e desejos reprimidos.
O outro também é baseado num espetáculo teatral: O Deus da Carnificina (2011), adaptação de Roman Polanski para o texto escrito por Yasmina Reza. Na trama, um casal (papéis de Kate Winslet e Christoph Waltz) vai à casa de outro (Jodie Foster e John C. Reilly) para conversar sobre uma briga entre seus filhos na escola.
O Convite é a refilmagem de um longa-metragem que também tem origem no teatro, mas se eu disser o nome, posso acabar prejudicando a experiência do espectador.

A história está ambientada na cidade de São Francisco, na Califórnia, e se passa quase toda dentro do apartamento do casal vivido pelos atores Seth Rogen e Olivia Wilde. Ele é Joe, um músico fracassado que, ao chegar do trabalho, descobre que sua esposa, Angela, convidou os vizinhos do andar de cima — Pina (papel de Penélope Cruz) e Hawk (encarnado por Edward Norton) — para uma noite de queijos e vinhos.
De cara, e por isso eu acho que não é spoiler, fica claro que o casamento de Joe e Angela está em crise, enquanto Pina e Hawk transam todas as noites. As estocadas de violoncelo da trilha sonora denunciam o desacordo e o desconforto. O bacana é que o emprego da música reforça as nossas incertezas sobre os rumos que O Convite vai tomar: esse violoncelo tanto sugere algo sinistro quanto tem efeito cômico.
Conforme prometido, não vou entrar em detalhes sobre o que acontece na interação entre os quatro personagens. Mas posso contar que ao longo da sessão no cinema podemos pensar nos riscos que assumimos ao nos comprometer com a civilidade e, obviamente, nas nossas dinâmicas de casal.
O Convite é um filme sobre tudo o que parceiros amorosos escondem um do outro e tudo o que os casais projetam em outros casais. Às vezes, falamos mal dos outros para não discutir nossos problemas, ridicularizamos para escamotear nossa inveja; em outras, quando olhamos mais de perto a miragem se desfaz.
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