
A Netflix lança nesta quarta-feira (22) Elize: Sombras de uma Mulher (2026), filme que reconstitui a história do crime chocante cometido por Elize Matsunaga. Em maio de 2012, quando tinha 30 anos, ela assassinou e esquartejou o marido, Marcos Matsunaga, diretor executivo e herdeiro da empresa Yoki, no apartamento do casal, que tinha uma filha de colo, Helena.
Quem assina a direção desta produção true crime é Felipe Vellas, realizador de episódios de séries como Arcanjo Renegado e DNA do Crime. O roteiro foi escrito por Raphael Montes e Mariana Torres. Ele é o cocriador, com Ilana Casoy, do seriado policial Bom Dia, Verônica (2020-2024) e autor, também com Casoy, dos scripts da trilogia O Menino que Matou Meus Pais (2021), A Menina que Matou os Pais (2021) e A Menina que Matou os Pais: A Confissão (2023). Ela estava no time dos roteiristas da série Os Donos do Jogo (2025-).
— Esse não é um filme apenas sobre um crime. O objetivo era contar uma história que também fizesse refletir. Queríamos trazer a violência como discussão: o que levou Elize a esse ato tão brutal? — diz Raphael Montes.
— A gente quis mostrar a dualidade dessa mulher. É uma história que pode até ser identificável em alguns aspectos, mas tem o pior desfecho possível — completa Mariana Torres.

O filme conta sobre o passado traumático de Elize Matsunaga — o pai abandonou a família, o padrasto a estuprou e a mãe a expulsou de casa — e recria o relacionamento turbulento com Marcos, a quem ela conheceu quando era garota de programa.
Elize é interpretada por Lorena Comparato, atriz que é filha do célebre roteirista Doc Comparato e da fonoaudióloga e preparadora de elenco Leila Mendes e irmã da também atriz Bianca Comparato e da escritora e produtora cultural Fabiana Comparato. Lorena traz no currículo a Gláucia Figueira da série Rensga Hits! (2022-2025) e a Geise do seriado Impuros (2018-). Henrique Kimura vive Marcos, e o elenco inclui Denise Weinberg, do filme O Último Azul (2025).

"Fiz terapia para encarnar Elize Matsunaga"
No dia 7 de julho, a atriz Lorena Comparato, 36 anos, concedeu entrevista a um grupo de jornalistas. Confira perguntas e respostas sobre o filme Elize: Sombras de uma Mulher:
O que fez você querer interpretar Elize Matsunaga?
A primeira vez em que eu entrei em contato com a história da Elize foi no teste preparado pela Maria Silvia (Siqueira Campos) e com o (Felipe) Vellas, o diretor. Eu lembro de pensar como atriz: "Meu Deus, é uma personagem tão complexa que eu quero ter oportunidade de pelo menos uma vez na vida interpretar". Eu me preparei muito, eu estudei demais, tive acesso aos laudos do processo, aos depoimentos que a Elize deu, me baseei em tudo o que estava disponível na internet, como notícias, fotos e vídeos, e vi o documentário da Netflix feito pela Boutique (a minissérie em quatro episódios Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, dirigida por Eliza Capai e lançada em 2021). Ao assistir a esse documentário, eu entendi que estava de frente a uma mulher com muitas camadas, a uma história que é uma fatalidade absurda e que chocou muito o nosso país. E eu sinto que é uma história que tem temas importantíssimos para a nossa sociedade. Discute a questão de gênero, a questão de classe social, a questão da violência, do desarmamento. E aí, quando eu finalmente deparei com o roteiro, foi uma sensação inebriante mesmo, porque o Raphael Montes e a Mariana Torres (roteiristas do filme) escolheram esse caminho de contar fragmentos dessa mulher, essas sombras da Elize. Você assiste ali aos pedaços dessa mulher, que está despedaçada. E foi muito interessante fazer um filme que é baseado em fatos reais, que conta uma história que muitos de nós já conhecemos, mas que é uma ficção, uma obra que nos dá a oportunidade de imaginar a intimidade daquele casal, imaginar como foi essa história no âmbito pessoal.

Para uma atriz, como é lidar com essa carga emocional e psicológica de uma personagem que tem uma história tão intensa e tão pesada? Como foi se colocar no lugar de uma mulher com um passado traumático e autora de um crime tão chocante?
Sou muito a favor de afirmar que o trabalho que eu faço é mentira. E um faz-de-conta, ali não sou eu, ali é uma personagem, ali não é uma pessoa real. E eu tive um processo muito respaldado durante esse filme. A Netflix deu um suporte gigantesco, a Boutique estava sempre muito preocupada comigo com minha saúde. A Maria Silvia ficou comigo o tempo inteiro, foram 40 dias de ensaios e 40 dias de filmagens. Eu fui muito cuidada e fiz terapia durante o processo todo. Acho que para um artista é essencial fazer terapia, mas para esse trabalho específico foi mais do que essencial. Faço tratamento com a psiquiatra Cecília Gross, que me acompanha há muito tempo, e ela também faz consultoria para produções audiovisuais. Então, eu fazia sessões específicas para mim e sessões para a Elize. Houve toda uma construção para entender a psique dela, e acho que nesse lugar, entendendo ela e vendo ela como essa personagem, Elize, eu consigo distanciar ela totalmente de mim. Foi um processo muito intenso, muito difícil, muito desafiador, com muitas camadas. Sempre que a gente está próximo à morte, à violência, a sangue, a crimes, é uma coisa muito pesada. Não é fácil fazer e possivelmente não vai ser fácil também assistir. Mas eu sinto que que nós, como seres humanos, a gente tem um certo fascínio pelos absurdos da vida e da morte.

Por que o público é fascinado pela história de Elize? Por que ela se tornou uma espécie de ícone pop?
Acho que as pessoas são fascinadas por causa de vários fatores. A história de Elize chocou o país e é muito distante do comum: a Elize é uma mulher que mata um homem, que mata o marido. Infelizmente, a gente vive em um país e em um mundo nos quais os números de feminicídios são alarmantes. É muito mais comum homens cometendo violências contra mulheres do que o contrário. Eu sinto que as mulheres estão muito revoltadas com a violência praticada contra elas, ficam muito indignadas com a impunidade masculina. As mulheres não aguentam mais o histórico de abusos e violência. O filme abre uma oportunidade de debate, de fazer o público conversar sobre temas desafiadores. Além da questão de gênero, há a questão social. Elize era uma mulher mais pobre que se casou com um cara rico. Tem ainda a questão das dinâmicas de relacionamentos abusivos e, claro, o crime bárbaro, e tudo isso que aconteceu em 2012 teve enorme repercussão midiática. Acho que temos curiosidade e necessidade de observar o bárbaro no palco ou nas telas, para a gente identificar o mal que há em nós e o mal que há no mundo. Só que eu acho o termo ícone pop complicado, porque estamos falando de uma assassina, de uma tragédia real com vítimas reais. Não cabe a mim, como atriz, julgar uma personagem. Tenho de compreender suas camadas e seu arco dramático, entender o que levou essa personagem a fazer as escolhas que ela fez. Agora, isso não me impede de olhar para essa história e ver como uma grande tragédia.
Houve alguma cena mais difícil de fazer? Por quê?
Uau! Nossa, num filme desse, eu acho que tem muitas cenas muito difíceis de fazer, né? A gente está contando a história de um casal que tinha uma dinâmica muito tóxica, e eles eram excêntricos. Eram um casal com hábitos muito distantes dos meus. Eles caçavam, eles tinham uma cobra de estimação... As cenas mais difíceis foram as do crime. Tivemos todo um cuidado como equipe, com muito respeito na hora de fazer essas cenas com o Henrique (Kimura, ator que interpreta o empresário Marcos Matsunaga). Eu sinto que às vezes o artista pode não saber discernir muito bem o que é a realidade e o que é a ficção, e nessas cenas havia muito sangue. E havia as cenas com armamento, a cena na chuva com as malas em Cotia, quando a Elize vai lidar com as partes do corpo dele.

Você bate na tecla de que é um filme baseado em fatos reais, mas que é uma ficção. Pode falar sobre a dramatização, sobre o que é real e o que é ficção?
Eu sou muito fã de true crime, quando termino um filme ou uma série vou direto na internet saber o que é real o que não é. Então sei que o público, que é muito curioso, vai pesquisar para saber o que foi verdade e o que é liberdade do filme na forma de contar essa história. Para mim, foi muito bom, como atriz, ter acesso aos fatos e depoimentos, mas também foi muito bom ter esse distanciamento do real.
Por coincidência, uma de suas irmãs, a atriz Bianca Comparato, também trabalhou recentemente em uma produção de true crime: viveu Ana Carolina Jatobá na primeira temporada da série Tremembé (2025), do Amazon Prime Video. Vocês conversaram sobre Elize: Sombras de uma Mulher?
Ela teve muito uma preocupação comigo de como eu ia ficar, porque ela sabia o quão denso é contar uma história que tem bastante crime envolvido. Ela foi um porto seguro para mim, como ela sempre é.
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