
O DJ francês Kavinsky — nome artístico de Vincent Belorgey —, encontrado morto em sua casa, em Paris, na terça-feira (28), aos 50 anos, compôs a música que deu alma para um filmaço estrelado por Ryan Gosling. Lançada em 2010, Nightcall acompanha os créditos de abertura de Drive (2011), título do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn, que infelizmente está indisponível no streaming.
Drive é um filme de assalto que rouba nosso coração, um filme violento que conquistou o amor de uma legião de fãs. Não faltam momentos bonitos, assim como não faltam momentos sangrentos. Às vezes, uma coisa pode ser emendada à outra em questão de segundos, como na cena do elevador.
Sabemos que, apesar dos arroubos de sensibilidade, o protagonista não é exatamente um mocinho, mas a essa altura do campeonato a condução do filme já nos transformou em seu copiloto. E agora, como reagir quando ele empunhar seu martelo? É permitido vibrar? Filmes também atingem a perenidade quando nos provocam desconforto em relação a nossos próprios impulsos e sentimentos.
Qual é a trama de "Drive"?

Drive valeu a Nicolas Winding Refn o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes. No longa-metragem, o cineasta faz um sofisticado exercício estilístico sobre um arquétipo recorrente em Hollywood: o do homem calado e calejado, às vezes travestido de justiceiro, noutras de criminoso, não raramente mocinho e bandido na mesma persona.
O protagonista encarnado por Ryan Gosling não tem nome. Ganha a vida pilotando carrões para bandos de assaltantes em fuga ou como dublê em cenas de perseguição em produções cinematográficas. É um sujeito deslocado e sem território que apenas quando está dirigindo parece adequado ao espaço que habita.

A introspecção do personagem principal esconde a tensão da história — a frieza nas relações que estabelece parece uma proteção contra seus impulsos (a propósito, drive, em inglês, também tem esse sentido). A contenção no trabalho dramático de Gosling combina com a profusão de elipses na narrativa: nem sempre sabemos exatamente o que está acontecendo. Além disso, a direção de fotografia ilustra a personalidade do protagonista, volta e meia colocando-o no canto de cenas abertas.
A certa altura, o piloto apega-se a uma garota sem entender ao certo o que sente. Mas é por ela que se envolve numa ciranda típica dos filmes de roubo, em que um erro sucede ao outro e a violência explode. Só que, quando isso acontece, já estamos embarcados na carona do protagonista, embalados pela trilha sonora e admirando a paisagem produzida pela combinação de visual retrô, fusões de imagens e cenas em câmera lenta. É uma experiência sensorial.
Livro é muito diferente do filme

Drive é baseado no livro homônimo assinado por James Sallis, que é muito diferente do filme. O autor descreve com mais detalhes a personalidade do protagonista, narrando episódios de sua infância, aí incluídos acontecimentos que deram origem a traumas diversos e o fizeram fugir de casa, sozinho, antes de atingir a maioridade.
Além disso, os personagens secundários e seu envolvimento com o Piloto (é como a tradução brasileira chama The Driver) aparecem de maneira mais discreta. Os capítulos são invariavelmente curtos, e a narrativa é fragmentada, cheia de idas e vindas no tempo, o que acentua o suspense e torna a fruição mais complexa.
Mitos hollywoodianos

Além do pistoleiro solitário cavalgando por pradarias em busca de uma causa justa para sacar a sua arma, Hollywood também consagrou como imagem icônica e fetichista o ás do volante que faz de seu carrão envenenado a extensão de seu corpo e de sua personalidade.
O desfile de bólidos pilotados por Ryan Gosling em Drive é de fazer salivar os amantes da velocidade. O próprio ator reformou um Chevrolet Malibu 1973 que aparece em cena. Ele também pega no volante de, entre outros, um Chevrolet Impala, na primeira sequência do filme, e de um Ford Mustang GT 5.0 2001, este numa perseguição de arrepiar.
O enigmático piloto de Drive remete ao detetive vivido por Steve McQueen e seu Ford Mustang 390 GT no longa Bullitt (1968), que traz a antológica sequência da perseguição pelas ladeiras da cidade de San Francisco, e a Corrida contra o Destino (1971), com o desiludido Kowalski (Barry Newman) acelerando seu Dodge Challenger R/T 440 Magnum pelas estradas dos Estados Unidos em uma jornada existencialista e suicida. Em À Prova de Morte (2007), Quentin Tarantino prestou tributo explícito a este outro filme de culto. Também se pode identificar no protagonista de Drive traços de Taxi Driver (1976).
Coadjuvantes escolhidos a dedo

Vinda de uma indicação ao Oscar de melhor atriz por Educação (2009), a inglesa Carey Mulligan, então com 26 anos, era o que os estadunidenses chamam de girl next door, a guria bonita que poderia ser sua vizinha de porta — no caso de Drive, literalmente. Seu jeito doce e melancólico casa bem com a personagem Irene. Naquele mesmo ano de 2011, Carey fez uma interpretação antológica da canção New York, New York em outro baita filme, Shame, de Steve McQueen.

A escolha para o bandido Bernie Rose foi um lance tarantinesco. A exemplo do que o cineasta estadunidense fez com John Travolta em Pulp Fiction, Nicolas Winding Refn resgatou Albert Brooks, então com 64 anos, que não fazia cinema desde 2003 (estava sendo esporadicamente visto, ou ouvido, apenas na TV, como no seriado Weeds e no desenho animado Os Simpsons), e o colocou em um registro nada habitual — o ator é mais associado a papéis cômicos.

Bryan Cranston e Christina Hendricks foram chamarizes para o público de dois seriados incensados e premiados. Ele, o rosto e a alma de Breaking Bad, faz o mecânico Shannon. Ela, a secretária Joan de Mad Men, interpreta Blanche, uma femme fatale ruiva e suburbana que entra na rota do protagonista.
O fetiche do figurino e dos objetos de cena

Cores vibrantes, néons, letreiros e jogos de luzes que remetem aos anos 1980 — Drive é retrô em sua essência. O trabalho de composição imagética de Refn incorpora signos facilmente reconhecíveis pelos espectadores e aposta na força sedutora dos objetos cênicos. Além dos carrões, há o martelo, a máscara e até o palito de dente usado por Gosling.
Há, sobretudo, a sua jaqueta dourada com um escorpião bordado às costas — quase uma atriz coadjuvante, uma espécie de uniforme, como o super-herói que o dublê pode delirar ser, e um símbolo explícito da natureza trágica do protagonista. O "recorte e monte seu Driver" que circulou na internet à época evidenciou o forte apelo visual do filme.
Trilha sonora evocante

Ora atmosférica, ora tensa, a música de Drive foi composta por Cliff Martinez, estadunidense que foi baterista do Red Hot Chili Peppers, estreou no cinema com Sexo, Mentiras e Videotape (1989) e firmou carreira a partir de inúmeras parcerias com o diretor Steven Soderbergh. São dele 14 das 19 músicas do disco.
Outras quatro são assinadas por grupos de electrorock. Nightcall, a música de abertura, une Kavinsky, que canta com efeito vocoder, aos vocais da brasileira Lovefoxxx, da banda Cansei de Ser Sexy. Sobre uma base de sintetizadores graves, soturnos e encorpados, mas que no refrão se abre para uma sonoridade quase solar, a letra exprime solidão urbana, mistério noturno e o anseio por uma conexão íntima ou redenção pessoal.
Vale destacar também A Real Hero, parceria do College com Electric Youth, que toca durante o bucólico passeio do protagonista com a personagem de Carey Mulligan e seu filho, cujos versos "a real human being / and a real hero" (um ser humano de verdade e um herói de verdade) parecem um comentário irônico. Por fim, é impossível esquecer o resgate de Oh My Love, pungente canção dos italianos Riz Ortolani e Katyna Ranieri que embala uma perseguição noturna.
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