
Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day, 2026) é um filme com velhos problemas da Marvel.
O 38º filme do Universo Cinematográfico Marvel (MCU, na sigla em inglês) entrou em cartaz nesta quarta-feira (29), pouco mais de 10 anos após a estreia da terceira encarnação do super-herói criado em 1962, nas histórias em quadrinhos, pelo roteirista Stan Lee (1922-2018) e pelo desenhista Steve Ditko (1927-2018). Antes de Tom Holland dar as caras em Capitão América: Guerra Civil (2016), o personagem foi vivido pelos atores Tobey Maguire e Andrew Garfield em aventuras que oficialmente não fazem parte do MCU.
Maguire estrelou a trilogia Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi entre 2002 e 2007, que teve como vilões o Duende Verde, o Doutor Octopus, o Homem-Areia e o Venom. Os três filmes foram sucesso de público, somando quase US$ 2,5 bilhões nas bilheterias.
Garfield protagonizou O Espetacular Homem-Aranha (2012) e O Espetacular Homem-Aranha 2 (2014), ambos do diretor Mark Webb. O herói encarou primeiro o Lagarto e depois o Electro, e os dois títulos também foram um êxito comercial, faturando, juntos, pouco menos de US$ 1,5 bilhão.

Sendo bem sincero, eu não consigo eleger qual é o melhor Homem-Aranha do cinema. Os três atores têm suas virtudes e todos foram bem-sucedidos em refletir sobre as delícias e as torturas da adolescência, como os gibis clássicos fizeram, e em transmitir a essência do personagem: grandes poderes trazem grandes responsabilidades.
Tobey Maguire fez um Peter Parker tímido, nerd, vulnerável e adorável. Mesmo que em 2007 a cena da dança em Homem-Aranha 3 tenha causado vergonha alheia, depois a gente entendeu a intenção: aquela era a visão distorcida de um garoto CDF e sem traquejo social sobre o que seria ser um "bad boy" cheio de confiança.
Andrew Garfield, que entre os três atores é o que tem mais recursos dramáticos, entregou uma atuação mais visceral. Ele nos convence da falta de aptidão do Peter para as relações humanas, da sua alegria infantil diante das novas habilidades e da sua fúria vingativa contra o assassino de um ente querido.
E Tom Holland, que tinha 19 anos quando vestiu pela primeira vez o uniforme, trouxe para o papel uma energia genuinamente juvenil. Como o personagem dos quadrinhos, o Aracnídeo de Holland é tagarela e pontua com muitas piadas as cenas de ação. E nessas sequências, a experiência do ator com ginástica artística, balé e parkour foi fundamental para imprimir um tom mais realista.
O histórico do Aranha de Tom Holland

Um Novo Dia é o quarto filme solo de Tom Holland como Homem-Aranha e o primeiro que não é dirigido por Jon Watts. Quem assina a direção é Destin Daniel Cretton, de Shang Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021). Mas os roteiristas continuam sendo os mesmos, Chris McKenna e Erik Sommers.
E este é o sétimo título do Universo Marvel com a presença do super-herói. Se o Peter Parker tradicionalmente é representado como um cara pobre, no cinema o personagem é sinônimo de riqueza: juntos, os seis filmes anteriores em que Holland aparece arrecadaram perto de US$ 10 bilhões nas bilheterias.
Na primeira aparição, em Guerra Civil, o adolescente fã do Homem de Ferro que mora no bairro Queens, em Nova York, é recrutado pelo próprio Tony Stark, ganha um traje tecnológico avançado e entra na luta contra o grupo do Capitão América. Uma das cenas icônicas é a da batalha no aeroporto, onde o guri rouba o escudo do Steve Rogers usando suas teias.
Em Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), Peter está no modo curtindo a vida adoidado — no caso, a vida de super-herói. Enquanto espera ser chamado para uma nova missão dos Vingadores, se divide entre o tédio, a amizade com o nerd Ned (papel de Jacob Batalon) e a expectativa de convidar para o baile uma garota chamada Liz, sem perceber que ali do lado existe uma menina que tem mais a ver com ele, a MJ encarnada por Zendaya. Interpretado por Michael Keaton, o ressentido Abutre foi apontado por críticos estadunidenses como o primeiro supervilão da Era Donald Trump.
Depois, o Aranha foi uma das vítimas do estalo de Thanos em Vingadores: Guerra Infinita (2018), e em Vingadores: Ultimato (2019) ele retorna à vida para participar da grande batalha final, onde sofre com a morte de Tony Stark.
Em Homem-Aranha: Longe de Casa (2019), Peter, durante uma viagem escolar na Europa, tenta se declarar para MJ e é enganado por um personagem que se passa por herói mas na verdade é o vilão Mysterio (vivido por Jake Gyllenhaal) — um personagem que manipula a realidade, empregando um discurso e uma prática que expõem nossa facilidade de acreditar em fake news, de se deixar iludir em nome de nossas crenças, de nossos preconceitos e de nossas ideologias.
Mysterio acaba revelando a identidade secreta do Aranha para todo o mundo. No filme seguinte, Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021), Peter Parker, acusado pela morte do suposto herói e com a vida de seus amigos destruída pela exposição pública, pede ajuda ao Doutor Estranho, mas um feitiço errado abre o multiverso, trazendo para o Universo Marvel atual os Homens-Aranha interpretados por Tobey Maguire e Andrew Garfield e os antigos vilões Duende Verde, Doutor Octopus, Homem-Areia, Venom, Lagarto e Electro. Após a trágica morte da Tia May (papel de Marisa Tomei), Peter pede que o Doutor Estranho lance um novo feitiço e faça todo mundo, incluindo MJ e Ned, esquecer quem ele é.
Qual é a trama de "Um Novo Dia"?

É desse ponto que começa Homem-Aranha: Um Novo Dia. Como diz o protagonista na sequência de abertura, "às vezes, o Homem-Aranha precisa fazer o que é difícil, mesmo que isso parta o coração de Peter Parker". Sem família, sem namorada e sem amigos, o Aranha vem protegendo Nova York em tempo integral.
Encarnada por Liza Colón-Zayas, a Tina da série The Bear (2022-2026), uma detetive da polícia com quem ele se comunica faz um alerta: o Amigão da Vizinhança está trabalhando demais. Aliás, tirando o Batman, não tem super-herói que trabalhe mais do que o Homem-Aranha. Além dos filmes da Marvel, ele estrela a trilogia de animação do Aranhaverso, de onde saiu uma série que estreou em maio no Amazon Prime Video, Spider-Noir. E quando ele não está no "escritório", as coisas não dão certo, como provam os filmes sobre vilões e aliados do personagem lançados recentemente, tipo Morbius (2022), Kraven, o Caçador (2024) e Madame Teia (2024).
A mesma policial diz ao Aranha que ele precisa criar conexões humanas. Nos raros momentos de folga, Peter fica bisbilhotando as redes sociais de Ned para espiar também a MJ. Ele chegou a escrever uma carta para a ex-namorada, na esperança de que ela volte a lembrar dele, mas não tem coragem de entregar.

Como se estivesse somatizando a dor pela perda de Tia May, a solidão e o excesso de trabalho, Peter encara mudanças estranhas no seu corpo e nos seus poderes. As teias passam a ser orgânicas, saem direto dos pulsos dele, como se o jovem quisesse expulsar o seu sofrimento, e o seu sentido de aranha fica superaguçado: qualquer ruidinho parece um terremoto, como se ele tivesse com síndrome de burnout.
Em uma das suas patrulhas por Nova York, o herói precisa perseguir e parar um tanque militar que ruma em direção a um centro de detenção de onde o vilão Escorpião está para ser transferido. Aí surge em cena o Frank Castle interpretado por Jon Bernthal, o Justiceiro, numa versão muito light do anti-herói, que sempre foi violento, frio e silencioso. Para caber num filme do Homem-Aranha, que tem classificação indicativa 12 anos no Brasil, o homem do caveirão estampado no peito nem pode falar um palavrão.
Aí também conhecemos Bill Metzger, personagem vivido por Tramell Tillman (ator da série Ruptura), que dirige o Departamento de Controle de Danos. O mantra desse órgão é "redirecionar energia negativa para algo útil". Por isso, por exemplo, os ninjas do Tentáculo agora trabalham como agentes de segurança do governo dos EUA.
E aí também o Aranha descobre que existe uma força invisível capaz de se apoderar da mente das pessoas. Essa entidade salta de um corpo pro outro para atingir seus objetivos. Quem é esse vilão e quais são os seus objetivos?
ALERTA DE UM BAITA SPOILER.
Dado o aviso de spoiler, um problema novo deste filme do Homem-Aranha é a ausência de um vilão clássico ou, pelo menos, de um rival que suscite leituras como aquelas proporcionadas pelo Abutre e por Mysterio. Sim, tem o Escorpião, mas ele aparece bem pouquinho. E desde que Metzger fala em "redirecionar energia negativa", fica claro que ele não joga no time dos mocinhos. Só que o roteiro demora muito para trazer isso à tona, gastando tempo com subtramas e coadjuvantes que às vezes não levam a lugar nenhum.
SEGUE O ALERTA DE SPOILERS.
Porém, há uma personagem coadjuvante que acaba ganhando protagonismo, a ponto de fazer Um Novo Dia não parecer mais um filme do Homem-Aranha, do Peter Parker e do Tom Holland, mas sim um filme dos X-Men, da Jean Grey e da Sadie Sink. Não à toa, o próprio Holland disse em uma entrevista que Sink — atriz que despontou como a Max do seriado Stranger Things (2016-2025) _ rouba a cena no terceiro ato. É a mutante Jean Grey a força invisível, e seu objetivo é invadir o Departamento de Controle de Danos para resgatar sua irmã, Sara, que também tem poderes telepáticos e telecinéticos e que foi sequestrada para servir de cobaia em experimentos que tentavam replicar essas habilidades. Ou seja, Jean não é uma vilã por maldade, mas apenas uma garota movida por um trauma.
FIM DOS SPOILERS.

Entre os velhos problemas da Marvel que aparecem em Homem-Aranha: Um Novo Dia, está a dependência excessiva da computação gráfica. Por causa dos efeitos digitais, as cenas de ação têm um aspecto de videogame. Falta realismo, falta peso, falta fisicalidade. Falta vida. Ainda assim, o filme tem pelo menos uma boa sequência, aquela que envolve os ninjas do Tentáculo.
Outro velho problema é a necessidade de mostrar a existência de um universo conectado e compartilhado, em que cada filme ou série tem de preparar o terreno para a próxima aventura. É uma camisa de força que a Marvel criou para si mesma, ao desenvolver narrativas interligadas destinadas a culminar em um megaevento. (Verdade seja dita, desta vez a cena pós-créditos — que surge bem lá no final — não rivaliza em importância com o próprio filme.)
Assim, Um Novo Dia coloca o Aranha a interagir com o Hulk (personagem de Mark Ruffalo), com o Justiceiro, que veio do seriado Demolidor, e com a nova Viúva Negra, Yelena Belova (Florence Pugh), que tem papel de liderança na equipe dos Thunderbolts, os chamados Novos Vingadores. E dá mais um passo na introdução dos X-Men no Universo Cinematográfico Marvel.
Isso tudo vai contra a proposta de uma história mais intimista dada no início de Um Novo Dia, e alguns personagens parecem inseridos aleatoriamente. Se o fan service empregado em Sem Volta para Casa convidou a explorar as consequências das escolhas do herói e a noção de legado, agora as aparições e as conexões dão a sensação de que o filme não pertence inteiramente ao Homem-Aranha. Definitivamente, não é um programa para quem gosta de tramas autocontidas, embora possa ser empolgante para quem curte acompanhar a grande tapeçaria da Marvel.
Mas mesmo os marvetes de carteirinha vão sentir dèjà vu, vão reconhecer uma fórmula. É verdade que os heróis da Marvel já não combatem mais forças malignas que ameaçam destruir o mundo. Agora, o inimigo está literalmente dentro de cada um deles: são seus sentimentos de perda, de luto, de raiva, de ansiedade, de depressão. Esses temas vêm se repetindo nas produções do estúdio, vide Homem-Aranha: Longe de Casa, WandaVision (2021), Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022), Pantera Negra: Wakanda para Sempre (2022), Thor: Amor e Trovão (2022), Guardiões da Galáxia Volume 3 (2023) e Thunderbolts (2025).
E como quase em qualquer filme da Marvel, a tensão emocional é constantemente quebrada por piadinhas que já se tornaram previsíveis. Ok, o humor é um traço indissociável do Homem-Aranha desde seu surgimento nos quadrinhos, mas há momentos que pedem mais dramaticidade. É como se nem os próprios personagens levassem a sério os perigos que enfrentam, os eventos trágicos que vivem e as dores que sentem. O pior em Homem-Aranha: Um Novo Dia é que até o bruto, sisudo e traumatizado Justiceiro tem de soltar piada como se fosse uma metralhadora giratória.
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