
Ao ser perguntado sobre filmes que serviram de inspiração para sua adaptação de A Odisseia, em entrevista para a jornalista Melena Ryzik, do New York Times, o diretor e roteirista Christopher Nolan citou dois títulos.
Um foi Andrei Rublev (1966), do russo Andrei Tarkovski (1932-1986), o mesmo realizador de Solaris (1972) e Stalker (1979), vagamente baseado na vida do pintor homônimo do século 15.
— Causou uma grande impressão na equipe. As texturas são extraordinárias — disse Nolan.
O outro filme o cineasta britânico disse que exibiu "meio que por instinto, sem saber ao certo se seria relevante". Trata-se de Ran (1985), do japonês Akira Kurosawa (1910-1998).
— A filmagem é bem diferente, mas existe uma relação ali entre o ambiente e o vento. Agora, ao ver o nosso filme pronto, acho que Ran exerceu uma influência enorme — afirmou o realizador de A Odisseia (2026), que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (16).

Disponível no Telecine, que pode ser acessado via Amazon Prime Video (com sete dias de teste grátis) ou Globoplay, Ran venceu o Oscar de melhor figurino, assinado por Emi Wada, e foi indicado nas categorias de melhor direção, fotografia (Takao Saitô, Shôji Ueda e Asakazu Nakai) e direção de arte (Yoshirô Muraki e Shinobu Muraki). Também ganhou o Bafta, da Academia Britânica, de filme estrangeiro e de maquiagem (Tameyuki Aimi e Chihako Naito).
O filme leva a peça Rei Lear (1606), de William Shakespeare, para o Japão da época dos samurais. Esse universo, que durou do século 10 ao século 19, era um dos cenários preferidos de Kurosawa, o cineasta de Kagemusha: A Sombra do Samurai (1980), que dividiu a Palma de Ouro do Festival de Cannes com All That Jazz: O Show Deve Continuar (1979), de Bob Fosse, e disputou o Oscar internacional.

O diretor atraiu os olhares do Ocidente para o cinema japonês com o sucesso de Rashomon (1950), ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza e de um Oscar honorário de melhor filme estrangeiro. Sua narrativa em que quatro testemunhas apresentam versões dúbias e conflitantes de um crime já inspirou muitas produções, tanto em Hollywood (como O Último Duelo, de Ridley Scott) quanto na China (Herói, de Zhang Yimou).
Leão de Prata em Veneza, Os Sete Samurais (1954) não demorou a ser transformado em faroeste: Sete Homens e um Destino (1960). E A Fortaleza Escondida (1958), que recebeu o Urso de Prata de direção no Festival de Berlim, serviu de referência para George Lucas criar a saga Star Wars, em 1977.
Mas Kurosawa também olhava para o Ocidente. O filme Trono Manchado de Sangue (1957) é outra adaptação de um espetáculo teatral de Shakespeare, Macbeth (1623). Vencedor da Copa Volpi de melhor ator em Veneza, para Toshirô Mifune, Yojimbo, o Guarda-Costas (1961) bebeu de duas novelas noir do estadunidense Dashiell Hammett: Seara Vermelha (1929) e A Chave de Vidro (1931).
Qual é a trama do filme "Ran"?

Em japonês, ran significa caos, desordem, revolta. Ambientado no século 16, o filme Ran (1985) conta de forma majestosa a saga de Hidetora Ichimonji (papel de Tatsuya Nakadai), um poderoso mas já idoso chefe de clã que decide dividir em vida a sua herança entre os três filhos (e não três filhas, como no original de Shakespeare). Taro (personagem de Akira Terao), o mais velho, receberá o prestigiado Primeiro Castelo e se tornará o novo líder. Jiro (vivido por Jinpachi Nezu) e o caçula Saburo (encarnado por Daisuke Ryu) deverão apoia Taro e ficarão com, respectivamente, o Segundo e o Terceiro Castelos.
A decisão, ao contrário da harmonia pretendida pelo patriarca, faz ruir os laços familiares. Saburo reage, porque sabe das evidentes limitações do irmão, e contesta a lição de união da célebre Lenda das Três Flechas, mostrando na prática que podem, sim, ser quebradas. Então, acaba banido. No castelo de Taro, a esposa de Taro, a maquiavélica Lady Kaede (interpretada por Mieko Harada, em atuação assombrosa), incita o marido a assumir o controle total do clã. As maquinações convergem para um sangrento conflito.

Paralelamente, acompanhamos a jornada de Hidetora, que é um homem cheio de remorso: para ampliar seus domínios, matou e saqueou. Sua memória é assaltada por esses pecados do passado. Tanto pior deparar com o ódio e a traição entre seus filhos. Acaba condenado a vagar, enlouquecido, pelos campos, tendo a companhia do bobo da corte, Kyoami (personagem de Peter).
Embora não haja ligação direta de Ran e Rei Lear com o poema escrito pelo grego Homero, e muito menos exista semelhanças na ambientação geográfica e temporal, faz sentido que Christopher Nolan tenha exibido o filme de Akira Kurosawa para a equipe de A Odisseia.

Há pontos em comum, como o tormento vivido pelos protagonistas das duas histórias, ambos governantes. Tanto o rei Lear, na peça de Shakespeare, quanto Odisseu, no poema de Homero, encaram os desafios de manter a autoridade, lidar com a velhice e garantir a sucessão em seus reinos. Pode-se comparar a tormenta e as provações enfrentadas pelo monarca britânico com as tempestades marítimas que assolam o herói grego. E as duas tramas refletem sobre ambição, culpa e a fragilidade da condição humana.
Quando estreou nos cinemas de Porto Alegre, em outubro de 1985, Ran mereceu muitos elogios dos críticos de Zero Hora. Hiron Goidanich, o Goida, destacou a mescla de cenas intimistas e batalhas épicas.

Já Luiz César Cozzatti escreveu que, "para Kurosawa, importa discutir essa ética da vitória, a ética dos poderosos, que para atingir a hegemonia no seio da sociedade espalham a destruição e a morte".
Toda a trama é "mero pretexto para o grande mestre traçar um grandiloquente painel sobre os desvarios da ambição", pintado com a "sensibilidade plástica" do cineasta e seu "humanismo radical". E o diretor mostra que "a desordem é a ordem natural do mundo, pois na raiz de tudo está a estupidez, que sobrepaira as ideologias e os tempos".
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