
O Amazon Prime Video adicionou recentemente ao seu menu um filme irlandês que comemora 35 anos em agosto e que deu origem a uma banda de Porto Alegre: The Commitments: Loucos pela Fama (The Commitments, 1991). Foi depois de assistir ao musical dirigido por Alan Parker (1944-2020) que uma turma de amigos resolveu criar, em 1995, a The Hard Working Band (leia mais logo abaixo).
The Commitments foi o penúltimo dos cinco longas-metragens musicais realizados pelo britânico Parker. Veio antes de Evita (1996) e depois de Bugsy Malone: Quando as Metralhadoras Cospem (1976), Fama (1980), Pink Floyd: The Wall (1982) e Evita (1996). O título concorreu ao Oscar de edição, assinada por Gerry Hambling, e ganhou quatro Baftas, o prêmio da Academia Britânica: melhor filme, direção, roteiro adaptado (Dick Clement, Ian La Frenais e Roddy Doyle, a partir do romance homônimo publicado por este último em 1987) e montagem.
A história se passa em Dublin, a capital da Irlanda, onde Parker acompanha a formação de uma banda de soul por nove rapazes e três moças — todos interpretados por um elenco amador, majoritariamente recrutado entre músicos da cidade. Era mais mais fácil ensiná-los a atuar do que fazer atores aprenderem a cantar e tocar instrumentos com propriedade, dizia o cineasta. E muitas das situações vividas nos ensaios foram incorporadas à trama.

No filme, Robert Arkins encarna Jimmy Rabbitte, idealizador e empresário da banda chamada The Commitments. Ele convoca jovens da classe trabalhadora, como o guitarrista Otuspan Foster (papel de Glen Hansard, que morreu em 29 de julho, em acidente de moto), o cantor Deco Cuffe (Andrew Strong), dono de uma voz potente e rústica, mas também de um ego inflado, o pianista Steven Clifford (Michael Aherne), que costumava tocar órgão na igreja local, e as backing vocals Bernie (Bronagh Gallagher), Imelda (Angeline Ball) e Natalie (Maria Doyle Kennedy).
O grupo toca clássicos da soul music dos Estados Unidos, como Mustang Sally (imortalizada na voz de Wilson Pickett), Try a Little Tenderness (Otis Reeding) e Take me to the River (Al Green), em pubs locais e conquista o público rapidamente. Mas logo tensões, conflitos e problemas pessoais ganham volume em meio aos sonhos e às esperanças da juventude.
Dos Commitments à Hard Working Band

Corroborando a máxima de que a vida imita a arte, o filme The Commitments inspirou o surgimento da banda porto-alegrense The Hard Working Band. O músico e empreendedor Daniel Galant, 51 anos, um dos fundadores do grupo, recorda:
— Eu e o Eduardo Bisogno éramos estudantes de Comunicação na Famecos (da PUCRS) e estávamos pensando em formar uma banda. Num final de semana qualquer de 1994, ele em Lajeado e eu em Bento Gonçalves, deu a coincidência de assistirmos ao filme. E na segunda-feira chegamos empolgados na faculdade com a ideia de fazer uma banda de soul no sul do Brasil. Na mesma época, meu irmão havia ganhado de presente de um amigo uma caixa com quatro CDs que tinha todos os hits da Motown (célebre gravadora dos EUA) que chegaram a número 1 da Bilboard entre 1959 e 1971.
A partir daí, Galant (guitarra) e Bisgono (teclados) começaram a busca pelos outros integrantes. Na turma da Famecos, já havia dois cantores, Joe Black (nome artístico de Jonatas Prates) e Nelson Ebelt, aos quais se juntaram Leticia Oliveira, também aluna da faculdade, e Andréa Cavalheiro. Bisogno também estudava na UFRGS, e de lá vieram o saxofonista Pedro Gonzaga e o baterista Iuri Freiberger. Gustavo Steffens era o contrabaixista. Um pouco mais tarde, entraram Carlos Mallmann (trombone), Deco Oldman e Alex Prinz (ambos trompetistas).
Hoje escritor, poeta, tradutor e professor, Pedro Gonzaga, 50 anos, comenta:
— Acho que a Hard Working não teria existido sem o filme, mas o que me parece mais importante, pensando agora, foi como os Commitments trouxeram de volta os clássicos da Motown e também a ideia de que uma banda podia ter um monte de gente.
Além do repertório recheado de sucessos do soul, do funk e do rhythm 'n' blues — da balada My Girl à dançante Hit the Road Jack, passando pela sensual I Say a Little Prayer e a politizada Respect —, a The Hard Working Band caprichava no visual, vestindo-se a rigor. Entre o final da década de 1990 e o começo dos 2000, a banda fazia cerca de 100 shows por ano. Em algumas dessas apresentações, como no Bourbon Street Music Club, em São Paulo, não cabiam no palco todos integrantes do grupo: metade precisou ficar no chão da casa.
A banda lançou três discos: The Hard Working Band (1998), gravado ao vivo no Salão de Atos da PUCRS com clássicos de Aretha Franklin, James Brown e Stevie Wonder, entre outros; Todas as Salas do Mundo (2001), álbum com músicas autorais, uma releitura de Condição (Lulu Santos) e uma canção de Bedeu, ícone do suingue gaúcho; e Trabalhando Duro (2002), outra gravação ao vivo, no Teatro Novo DC, em Porto Alegre, com a participação especial da Orquestra de Câmara da Ulbra, misturando faixas nacionais e internacionais.
Com o tempo, os integrantes originais foram debandando para tocar outros projetos, e novos músicos chegaram para dar continuidade ao grupo. Recentemente, a Hard Working Band comemorou seu aniversário de 30 anos com shows no Teatro CIEE-RS Banrisul, em Porto Alegre, e no Castelo Saint Andrews, em Gramado.
Ao lembrar do filme, Daniel Galant contou outra história em que a vida imitou a arte (vale um alerta de spoiler para quem nunca assistiu a The Commitments):
— No filme, tem aquele momento em que surge uma possibilidade do Wilson Pickett (cantor e compositor, 1941-2006, autor de In the Midnight Hour) fazer uma participação no show dos Commitments. Certa feita, eu e o Edu fomos ver o show dele no Salão de Atos da UFRGS e ficamos de plantão na saída dos artistas, na parte de trás do teatro. Quando ele saiu, nós dois partimos direto para pedir um autógrafo, mas fomos impedidos pelos seguranças do cara, que mesmo já em final de carreira ainda carregava aquela pompa de estrela da soul music. Acabamos nos contentando em conversar com o trompetista dele, que por sinal era um show a parte. Cantava, tocava e agitava a plateia antes do Wilson Pickett entrar. Mas mesmo assim ficou uma certa frustração, mais ou menos parecida com a que sofreram os Commitments pelo fato de o cara não ter aparecido pra cantar com eles.
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