
O Telecine, que pode ser acessado via Amazon Prime Video (com sete dias de teste grátis) e Globoplay, adiciona nesta sexta-feira (17) ao seu menu Barba Ensopada de Sangue (2024). Dirigido por Aly Muritiba, que assina o roteiro com Jessica Candal, o filme adapta o romance homônimo do escritor Daniel Galera.
Barba Ensopada de Sangue é o terceiro longa-metragem baseado em um livro de Galera, que nasceu em São Paulo mas é de família gaúcha e foi criado em Porto Alegre, onde está morando novamente após algum tempo vivendo na capital paulista e em Santa Catarina. O primeiro foi Cão Sem Dono (2006), versão de Beto Brant e Renato Ciasca para Até o Dia em que o Cão Morreu, e o segundo, Prova de Coragem (2015), de Roberto Gervitz, que adapta Mãos de Cavalo.
O romance venceu o Prêmio São Paulo de Literatura em 2013. O filme concorreu no 52º Festival de Gramado, onde ganhou apenas o Kikito de melhor montagem, para Karen Akerman.
A direção é do baiano Aly Muritiba, dos premiados longas Para Minha Amada Morta (2015), Jesus Kid (2021) e Deserto Particular (2021) e das séries O Caso Evandro (2021), Cangaço Novo (2023) e Cidade de Deus: A Luta Não Para (2024).
Ao apresentar o filme no palco do Palácio dos Festivais, em Gramado, Muritiba disse que Barba Ensopada de Sangue era o competidor "mais gaúcho", lembrando que o personagem principal parte de Porto Alegre a Garopaba, em Santa Catarina, para investigar o que aconteceu com seu avô, que era conhecido como Gaudério. E o ator carioca Gabriel Leone, que depois seria protagonista da minissérie da Netflix sobre Ayrton Senna e coadjuvante em O Agente Secreto (2025), contou de sua relação com o RS:
— É minha primeira vez no Festival de Gramado, e não poderia ter uma primeira vez tão emocionante. Eu tive um avô gaúcho. Ele era de Cruz Alta e foi parceiro de boemia do Lupicínio Rodrigues (1914-1974). Era da Marinha e foi para o Rio, onde fez família. Meu avô era caxias e durão, mas dizem que virou um mel quando eu nasci. Fui seu primeiro neto e pude conviver com ele por cinco anos. Quando eu li essa história sobre um cara que busca saber do seu avô, tocou muito meu coração. Então, dedico esta sessão a Luís Carlos Frota.

No filme, o protagonista do livro ganhou nome, Gabriel (e uma barba nitidamente postiça). Ainda enfrentando o luto pela morte do pai, ele viaja a Garopaba na companhia de sua cachorra, Beta — interpretada por Texas, que, em Gramado, teve uma noite de estrela à la Messi, o cão de Anatomia de uma Queda (2023).
Na estação fria do litoral catarinense, Gabriel interage com personagens como Jasmin (papel de Thainá Duarte, de Cangaço Novo e do vindouro Corrida dos Bichos), guia turística dos passeios de barco para o avistamento de baleias, mas desperta o olhar desconfiado ou até ameaçador de pescadores locais. Ninguém gosta de saber que ele é neto do Gaudério, ninguém gosta de reconhecer nele o rosto dessa figura do passado que assombra a comunidade.

Aly Muritiba realçou o suspense da trama de Daniel Galera. O foco do filme está na resolução do mistério que envolve o destino de Gaudério. Então, enquanto as cenas destacam momentos como as descobertas do esqueleto de uma mão em uma caixa d'água e de um corpo enterrado na areia, ou cenários como uma fábrica abandonada, a trilha sonora acentua o clima de perigo e de tensão.
Lamentavelmente, o filme trabalha muito pouco com um elemento primordial do livro, o distúrbio neurológico do protagonista, a prosopagnosia: ele é incapaz de assimilar rostos após vê-los, mesmo os de conhecidos. E essa é uma condição que contribuiria para o suspense de Barba Ensopada de Sangue, mas sequer recebeu algum tipo de tratamento visual diferenciado — por exemplo, os homens que ameaçam Gabriel poderiam estar desfocados, de modo que o público assumisse a perspectiva do personagem.
No fim das contas, Barba Ensopada de Sangue parece vítima da prosopagnosia. Não há nenhum ponto grave, mas também nada que brilhe. Diante de tantos títulos sobre forasteiros hostilizados e sobre mistérios do passado que são lançados, principalmente nas plataformas de streaming, é um filme que corre o risco de, daqui a uma semana ou menos dias, se tornar indistinguível.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter
Assista aos vídeos Dica do Ticiano no YouTube: clique aqui
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano




