
De vez em quando, os títulos brasileiros para filmes estrangeiros são bem melhores do que os originais. É o caso de Fogo Contra Fogo, como foi rebatizado Heat (1995), e também de Casamento Sangrento, nome dado por aqui a Ready or Not (2019).
Traduzível como "pronto ou não", o título em inglês faz referência à macabra brincadeira de esconde-esconde à qual a protagonista encarnada por Samara Weaving precisa sobreviver após se casar com o herdeiro de uma família riquíssima. Casamento Sangrento é mais sonoro e mais honesto: uma marca do filme é o banho de sangue decorrente da explosão de corpos.
A exemplo do que o diretor Adam Robitel fez em um terror lançado naquele mesmo ano, Escape Room (2019), os cineastas Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett misturaram a estrutura narrativa do tipo jogo de sobrevivência com o prazer sádico do subgênero slasher. À receita, acrescentaram um senso de humor ácido para satirizar a experiência não raro apavorante de conhecer os sogros e o resto da família do noivo.

Casamento Sangrento tornou-se um razoável sucesso financeiro: custou US$ 6 milhões e arrecadou nas bilheterias quase 10 vezes o seu orçamento (US$ 57,6 milhões). Inevitavelmente, dada a propensão em Hollywood de só apostar no que já deu certo, o filme ganhou uma continuação, Casamento Sangrento: A Viúva (Ready or Not 2: Here I Come, 2026), também dirigida por Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett e disponível a partir desta quinta-feira (2) no menu do Disney+.
A sequência se inicia literalmente segundos após os eventos do primeiro filme. Grace, a personagem da atriz australiana Samara Weaving, tornou-se a única sobrevivente do esconde-esconde que resultou na morte do marido e da família dele — todos satanistas. Ela desmaia assim que sai da mansão Le Domas. Quando acorda, está algemada à cama de um hospital: a polícia considera Grace a única suspeita pelos homicídios e pelo incêndio criminoso.
Eis que surge uma irmã mais nova de quem nunca tínhamos ouvido falar, Faith, papel de Kathryn Newton, a Cassie Lang de Homem-Formiga e Vespa: Quantumania (2023) e a protagonista de Lisa Frankenstein (2024). Os diálogos explicam: essa mana sequer foi citada em Casamento Sangrento porque as duas estavam havia cerca de 10 anos afastadas. E é aqui que Casamento Sangrento 2 pode começar a provocar um divórcio com o espectador.
Além de ser genérica, a rusga entre Grace e Faith é retratada com uma mistura de sarcasmo (na troca de farpas) e sentimentalismo (na trilha sonora) que acabam anulando um ao outro. E, obviamente, o motivo das mágoas, o abandono da caçula pela mais velha, vai conduzir as ações das duas personagens logo que elas se tornam alvos de um novo jogo mortal, ordenado pelo patriarca de outra família que tem um pacto com o Diabo, Chester Danforth (interpretado pelo cineasta David Cronenberg, em curtíssima participação).
Apresentado apenas como O Advogado, o personagem de Elijah Wood é um mero expositor da trama, esclarecendo aos coadjuvantes e ao público as regras do arranjo do chamado Conselho com o demônio. Estarão à caça de Grace e Faith gente como os filhos de Danforth, Ursula (Sarah Michelle Gellar) e Titus (Shawn Hatosy); o espanhol de péssima pontaria Ignacio El Caido (Néstor Carbonell); a pragmática empresária chinesa Wan Chen Xing (Olivia Cheng); e dois irmãos britânicos de ascendência indiana, Madhu (Varun Saranga) e Viraj (Nadeem Umar-Khitab).
Então, Casamento Sangrento 2 cai na mesmice. Por um lado, reprisa, sem nenhum brilhantismo, a crítica às elites e ao caráter corruptor do dinheiro e do poder vista em filmes bem mais encorpados — como, por exemplo, O Menu (2022), Piscina Infinita (2023) e Pisque Duas Vezes (2024). Por outro, na comparação com esses mesmos títulos se mostra um filme mansinho na carnificina. Ok, há corpos que explodem e banhos de sangue — mas já tínhamos visto isso no primeiro Casamento Sangrento. Em termos de criatividade e impacto nas cenas de violência, talvez o único destaque seja um confronto que envolve uma bazuca e um spray de pimenta ao som da clássica canção Total Eclipse of the Heart (1983) — que, convenhamos, também já está bem batida nos cinemas. Até filme brasileiro já utilizou esse sucesso da cantora Bonnie Tyler.
Enfim: Casamento Sangrento 2 é só para os amigos da noiva, ou seja, os fãs da personagem de Samara Weaving que podem não se importar com uma festa que toca as mesmas músicas de sempre e com um prato requentado e gosmento. Não à toa, o filme arrecadou nas bilheterias bem menos do que o original: US$ 39,5 milhões.
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