
A Sala Redenção, no Campus Centro da UFRGS, em Porto Alegre, exibe de graça nesta quinta-feira (16), às 19h, e na terça (21), às 16h, um filmaço chamado Durval Discos (2002). As sessões fazem parte da mostra intitulada Pantufa e Cobertor, que convida os espectadores a "doarem roupas quentinhas que estiverem sobrando em casa, para que outras pessoas também possam se agasalhar neste inverno".
Durval Discos foi o grande vencedor do Festival de Gramado de 2002. Recebeu sete Kikitos e muitos aplausos em cena aberta, durante a projeção.
Trata-se do longa-metragem de estreia da diretora Anna Muylaert, que havia sido premiada pelo curta A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti (1995) e sido roteirista da série de TV Castelo Rá-Tim-Bum (11 episódios entre 1994 e 1996). Depois, ela se consagraria novamente com filmes como É Proibido Fumar (2009), ganhador de oito Candangos no Festival de Brasília, e Que Horas Ela Volta? (2015), laureado em Berlim e em Sundance. Seu currículo inclui O Clube das Mulheres de Negócios (2024) e A Melhor Mãe do Mundo (2025).
Durval Discos (2002) gira em uma rotação cambiante. Vai da comédia urbana ao suspense policial, passando pelo drama existencialista e roçando no absurdo — sem sofrer arranhões. Em Gramado, o título produzido pela gaúcha radicada em São Paulo Sara Silveira conquistou os troféus de melhor filme brasileiro de ficção pelo júri, pelo público e pela crítica, direção, roteiro (assinado pela própria Muylaert), fotografia (Jacob Solitrenick) e direção de arte (Ana Mara Abreu, que reprisou a conquista em 2023, com Tia Virgínia).
O longa retrata a vida besta do dono de uma loja de discos de vinil, o quarentão Durval (Ary França), e de sua mãe, Carmita (Etty Fraser, morta em 2019, aos 87 anos). O cenário é o bairro classe média paulistano do Pinheiros, descortinado no movimentado plano-sequência da abertura: os nomes do elenco e da equipe — como Marisa Orth, no papel de uma vendedora de doces, e André Abujamra, autor da trilha sonora — aparecem em placas de rua, cartazes, tabelas de preços de padarias, fliperamas, açougues, chaveiros e cabeleireiros.

Quando a história começa, Anna Muylaert aposta em longos planos de conjunto, quase sem closes — o espectador parece sentar-se no sofá na casa de Durval, sujeito que resiste à mudança: acredita na superioridade do vinil na então era do CD, só escuta clássicos setentistas de Tim Maia, Jorge Ben e Novos Baianos, mantém os cabelos compridos e, sobretudo, ainda vive com a mãe controladora.
A rotina tediosa é brevemente interrompida quando a cantora Rita Lee (1947-2023), em uma participação especial, entra na loja à procura "daquele LP do Caetano, capa branca com assinatura". E é quebrada de vez quando uma empregada (Letícia Sabatella) some, deixando para trás uma garota de cinco anos, Kiki (Isabela Guasco). A alegria da criança contamina Durval e Carmita, mas logo um telejornal informa: ela foi sequestrada.
É aí que Muylaert vira o disco, mostrando que o filme tem um lado A, mais alegre, e um B, mais agonizante: mãe e filho enfim se confrontam. Fazem-se ouvir o despertar do ciúme, a redescoberta de uma graça de viver e a agonia de cortar o cordão umbilical. A dor lancinante é brilhantemente traduzida no clímax de Durval Discos pelos versos iniciais de Pérola Negra, de Luiz Melodia: "Tente passar pelo que estou passando / Tente apagar este teu novo engano / Tente me amar, pois estou te amando / Baby, te amo, nem sei se te amo".
Anna Muylaert fala sobre "Durval Discos"

Em 2023, quando Durval Discos reestreou nos cinemas, dentro do projeto Sessão Vitrine Petrobras, a diretora e roteirista Anna Muylaert me concedeu a seguinte entrevista:
O que você lembra da sessão de Durval Discos no Festival de Gramado de 2002?
O Carlão (Carlos Reichenbach, cineasta premiado em Gramado por Filme Demência e Anjos do Arrabalde, morto em 2012) me disse: "Se saírem até 30 pessoas no meio da exibição, tá normal". Eu me sentei lá atrás, queria ver quantos iam sair do Palácio dos Festivais. Não saiu ninguém. Foi uma das maiores alegrias da minha vida.
Durval Discos vai da comédia urbana ao suspense policial, passando pelo drama existencialista e roçando no absurdo. De certa forma, antecipou a fluidez de gêneros consolidada pelo sucesso de Parasita (2019), não?
No primeiro laboratório de roteiro do Festival de Sundance que teve no Brasil, perguntei para o Vondie Curtis-Hall (ator, diretor e roteirista estadunidense): você acha que é um problema o filme ter essa oscilação de mood, ser mais alegre no lado A e mais agonizante no lado B? Acha que devo limpar? Ele me respondeu: "Anna, o cinema moderno é isso, ninguém mais quer ver um dramalhão ou só uma comédia". E na verdade os irmãos Coen já faziam isso, Fargo (1995) já era assim. Acho que já havia essa tendência, talvez não no Brasil. Decidi que nunca mais iria tentar fechar um filme numa coisa só. É o cinema de que eu gosto, o que mistura.
A partir de Durval Discos, você firmou seu nome no cinema brasileiro, assinando filmes premiados como É Proibido Fumar (2009) e Que Horas Ela Volta? (2015). Como você avalia o espaço e o reconhecimento das diretoras na indústria nacional?
Em 2016, 2017, tive uma reunião com uma agente em Los Angeles. Ala disse que, antes de tudo, queria saber uma coisa: como é que uma mulher brasileira decide dirigir cinema? Você tinha ideia de que era impossível? Mas eu tinha um fé tão grande, uma determinação tão grande, que achava que era possível. Hoje, em retrospecto, vejo que o machismo era pior. Nasci em 1964, a onda feminista dos anos 1960 eu vivi criança. Na minha cabeça, o feminismo já tinha feito o seu trabalho, a gente podia ir pra faculdade, transar antes do casamento, podia trabalhar. A Tata Amaral (diretora de Um Céu de Estrelas) era minha colega de universidade. Nunca falamos de feminismo na época, achávamos que estava tudo certo. Vivíamos nessa ilusão. Quando entrei no mercado de trabalho, percebi que era muito diferente. Era maltratada, desrespeitada, humilhada. Mas eu achava que a culpa era minha, não tinha uma visão global. Achava que era por eu ser tímida, não sabia me defender. Não tinha claro que o fato de ser mulher me complicava a vida. Segundo a Ancine, apenas 19% dos filmes brasileiros são dirigidos por mulheres. Continua um domínio masculino, mas hoje o problema está colocado na mesa, a gente entende melhor, reivindica mais. É um problema milenar, e a solução não vai levar menos do que um século. O mais importante é entender quando é machismo e quando não é. Acho que as mulheres estão mais conscientes da questão de gênero. E antes de 2015 ninguém me ligava porque queria uma diretora, agora, quando o tema é feminino, (os produtores) já preferem que uma mulher dirija. O problema não é só brasileiro. Fiz uma contagem de 60 anos dos ganhadores do Oscar de melhor filme. Somente quatro tinham protagonismo feminino, sendo que em dois casos era repartido com um personagem masculino (os títulos citados são Bonequinha de Luxo, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Conduzindo Miss Daisy e Menina de Ouro). Agora há pouco é que tivemos Nomadland e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (vencendo o Oscar). O (Stanley) Kubrick, diretor que mais amo, só tem homem como protagonista. Quando você percebe isso, saca que a sua desvalorização profissional também ocorre na frente das câmeras. O dinheiro prefere os homens.
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