
As crianças eu não sei, mas os adultos — especialmente os cinéfilos — vão adorar Minions & Monstros (Minions & Monsters, 2026), filme de animação que estreia nesta quarta-feira (1º) nos cinemas brasileiros.
Trata-se do sétimo título da franquia que é a campeã de bilheteria entre as animações. Desde o lançamento de Meu Malvado Favorito (2010), os filmes do estúdio Illumination já arrecadaram US$ 5,4 bilhões. Superam o desempenho comercial de Shrek/Gato de Botas (seis longas entre 2001 e 2022), com US$ 4 bilhões, e Toy Story (seis entre 1995 e 2026, incluindo Lightyear), com US$ 3,9 bilhões até agora.
O sucesso das aventuras é fácil de explicar. No Brasil, começa pelo nome cristalino escolhido para rebatizar o título em inglês (Despicable Me), que pegou de primeira, assim como as criaturas amarelas ora engraçadas, ora enervantes foram adotadas em memes e em neologismos.
O protagonista, Gru, surgiu como um vilão que só queria o que todos queremos, ser motivo de orgulho para a mãe, e aos poucos foi se transformando em um paizão de suas três adoráveis filhas adotivas. A receita se completa com uma mistura — nem sempre muito bem azeitada — de comédia pastelão, sentimentalismo, pérolas da música pop (como Happy, de Pharrell Williams, indicada ao Oscar) e um punhado de referências.

Minions & Monstros é o primeiro filme da franquia com direção solo do francês Pierre Coffin. Ele assinou com Chris Renaud Meu Malvado Favorito e Meu Malvado Favorito 2 (2013) — que concorreu ao Oscar de animação —, com Kyle Balda Minions (2015) e com Balda e Eric Guillon Meu Malvado Favorito 3 (2017). Na companhia de Brian Lynch, Coffin também escreveu o roteiro, que faz uma ode ao cinema e à arte de fabricar ilusões, homenageando pioneiros de Hollywood como Charles Chaplin e Buster Keaton e citando clássicos como Cidadão Kane (1941) e Casablanca (1942).
Sendo assim, é possível que, na saída da sessão, filhos perguntem aos pais por que eles riram em tal cena. E é possível que os "grandinhons" comecem a rir antes mesmo de a história começar, na apresentação do logotipo da Universal Pictures, que financia e distribui as produções da franquia: simulando o efeito de rebobinar uma fita VHS, a abertura exibe vinhetas antigas do estúdio, até chegarmos aos anos 1920. E à la Zelig (1983) e Forrest Gump (1994), o filme insere os minions em momentos icônicos da alvorada do cinema, como a primeira imagem em movimento, surgida em 1879, quando o fotógrafo Eadweard Muybridge registrou o galope de um jóquei negro sobre um cavalo.

Feita essa introdução, uma guia da Universal conduz um grupo de pais e crianças por uma exposição sobre a magia do cinema e os grandes personagens de Hollywood. Um deles é o cineasta George Lucas, o criador da saga Star Wars, visto em uma atração, digamos, interativa. Outros são James e Henry, dois minions que nunca haviam dado as caras. Diante do olhar estupefato da audiência, a mediadora se dedica a narrar a trajetória da dupla.
Aí, assim como O Predador: A Caçada (2022) mostrou que os alienígenas colecionam seus troféus há muito mais tempo do que pensávamos, Minions & Monstros revela que os capangas de Gru existem desde os primórdios da humanidade.

James e Henry firmam uma amizade sólida, cimentada pela pulsão por contar histórias, pelo pendor a se meterem em confusão e pelo prazer que sentem diante do infortúnio alheio. Vide a sequência com o Ciclope, que celebra a tradição do humor eminentemente físico, calcado em exagerar a violência de mentirinha. Aliás, vale um aviso aos pais: o filme tem algumas piadas mais mórbidas, que incluem rainhas decapitadas, bruxos incinerados e piratas devorados por tubarões — mas tudo "se explica" depois, tudo está dentro do terreno da fantasia, todos saem ilesos.
As doces travessuras dos minions acabam os levando à Hollywood de antigamente, onde James e Henry, involuntariamente, tumultuam as filmagens de um faroeste. O diretor, um austríaco chamado Max, fica fulo da vida, mas logo descobre que os chefões do estúdio Bright Brothers adoraram o caos provocado pela dupla. Da noite para o dia, os personagens que falam uma língua incompreensível se tornam estrelas do cinema mudo.

Essa situação convida o cineasta Pierre Coffin a recriar cenas clássicas e diálogos famosos, em uma profusão impressionante de piadas — tente prestar atenção, por exemplo, aos títulos estampados nos cartazes dos filmes protagonizados por James e Henry. A certa altura, porém, como é característico na franquia, os coadjuvantes e as subtramas começam a se acumular. À medida que aumenta a escala, Minions & Monstros perde o frescor criativo e a capacidade de encantar _ pelo menos os olhos mais velhos; talvez o corre-corre divirta bastante a criançada.
Entre os novos personagens, estão Dort, um robô covarde vindo de outro planeta; Debbie, uma sufragista, ou seja, uma mulher que luta pelo direito feminino ao voto; e Goomi, um demônio verde e ardiloso que os minions conhecem por causa do sonho de James de dirigir seu próprio filme de monstro da Universal.
Visualmente, Goomi é uma versão fofa — praticamente um funko pop — do Cthulhu dos contos escritos por H.P. Lovecraft (1890-1937). A propósito, eis outra piada para os adultos: as criaturas que ele conjura se chamam Howard e Phillips, o nome e o primeiro sobrenome de Lovecraft. E a jornada destrutiva conta com a participação de um monstro que referencia um tesouro dos filmes B, A Bolha Assassina (1958).
Se a primeira metade de Minions & Monstros requer algum conhecimento prévio e a segunda investe mais na bagunça colorida, adultos e crianças devem rir em uníssono nas várias cenas pós-créditos — que na verdade são "entre-créditos". Mas não duvide que a vontade maior de rever o filme desta vez seja dos pais, para catalogar todas as citações e aparições. Pode ser um baita programa em família — uns vão revisitar suas memórias, os outros vão ser tentados a descobrir por que o pai abriu um sorrisão quando viu um sujeito dependurado em um relógio ou quando alguém pede a um pianista: "Toque de novo, Sam".
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