
A Odisseia (The Odyssey, 2026) é o filme que Christopher Nolan sempre quis fazer. E é também o filme que ele sempre fez.
Em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira (16), o épico estrelado por Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson e Charlize Theron é o 13º longa-metragem de Nolan, que comemora 56 anos no dia 30 de julho. Sucede Oppenheimer (2023), que ganhou o Oscar em sete categorias, incluindo melhor filme e direção, e faturou quase US$ 1 bilhão nas bilheterias.
A nova adaptação do poema escrito pelo grego Homero é o primeiro longa-metragem da história totalmente filmado com câmeras IMAX analógicas de película no formato de 70 milímetros. Esse é um sonho que Nolan tinha desde seus 16 anos, como ele disse em uma entrevista ao jornal Los Angeles Times, e que o cineasta vinha ensaiando desde Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), que contava com 28 minutos em IMAX, incluindo a antológica cena de abertura, a do assalto a banco comandado pelo Coringa. Depois, o diretor empregou a tecnologia em A Origem (2010), O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), Interestelar (2014), que teve mais de uma hora de sequências espaciais registradas nesse formato, Dunkirk (2017) — 70% filmado em IMAX —, Tenet (2020) e Oppenheimer, no qual houve o uso inédito de cenas em preto e branco.
As câmeras IMAX são muito grandes, pesadas e barulhentas, e cada rolo de filme dura poucos minutos. Para superar barreiras físicas e sonoras e produzir A Odisseia, Nolan provocou a fabricante a projetar um equipamento novo, mais versátil e mais silencioso.

Ainda assim, houve limitações. Por exemplo, para viabilizar cenas de diálogo íntimas sem que a câmera atrapalhasse, a equipe do cineasta desenvolveu um sistema de espelhos para que os atores pudessem olhar uns aos outros. Cada cena filmada não podia demorar mais do que três minutos seguidos. E a duração do filme tinha de ficar abaixo de três horas: se fosse mais longo, não caberia fisicamente na cabine de projeção. Ficou em duas horas e 52 minutos.
A recompensa foi literalmente grandiosa. Esse formato de película é bem maior do que o tradicional e permite capturar quase 10 vezes mais detalhes visuais. Percebe-se mais texturas e mais variações de cor e de luminosidade. A tecnologia valoriza a busca obsessiva de Nolan por realismo e o trabalho do diretor de fotografia Hoyte van Hoytema, oscarizado por Oppenheimer, da figurinista Ellen Mirojnick e da designer de produção Ruth De Jong, que atuou na escolha das locações naturais e na construção de cenários em seis países. Entre os lugares visitados pelo filme, estão as praias de areia negra da Islândia, que dão vida ao submundo de Hades, o reino dos mortos, e a cidade cenográfica de Aït Benhaddou, no Marrocos, que representa a lendária Troia.
Ou seja, vale a pena gastar mais no ingresso para assistir ao épico do ano nas telas gigantes das salas IMAX, mesmo que nenhum dos 12 cinemas do Brasil com essa tecnologia disponha do equipamento necessário para exibir A Odisseia do modo como Nolan concebeu, com o enquadramento expandido (clique aqui para acessar o site oficial do filme e comparar os diferentes tipos de projeção). Ainda assim, este é um espetáculo realmente imersivo.

Mas talvez A Odisseia tenha muito para ver e pouco para sentir. Mesmo para os padrões de Christopher Nolan, achei um filme frio. Não me fez chorar, como aconteceu com O Cavaleiro das Trevas Ressurge e Interestelar, nem me vi encantado na sala de cinema, como aconteceu com Amnésia (2000), O Grande Truque (2006) e A Origem. Talvez porque eu já estivesse tão familiarizado com a trama, talvez porque a história contada em A Odisseia seja tão conhecida por todos nós.
O filme é baseado em uma obra fundamental do cânone da literatura ocidental — e, por extensão, do próprio cinema. Sem A Odisseia, não teríamos a Eneida, de Virgílio, A Divina Comédia, de Dante, Os Lusíadas, de Camões, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, o Ulysses, de James Joyce, e o clássico filme de ficção científica 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. O poema grego foi uma das principais inspirações para o especialista em mitologia Joseph Campbell criar, em 1949, o conceito da chamada Jornada do Herói, vista em sagas como O Senhor dos Anéis, Star Wars, Matrix e Harry Potter. Por causa da obra de Homero, odisseia tornou-se a palavra que designa longas jornadas marcadas por desafios e perigos. Essa estrutura narrativa pode ser vista em filmes muito diferentes entre si, como Sem Destino (1969), de Dennis Hopper, Depois de Horas (1985), de Martin Scorsese, Central do Brasil (1998), de Walter Salles, e Procurando Nemo (2003), de Andrew Stanton.

Outros diretores já haviam adaptado, modernizado ou reinterpretado A Odisseia. A lista inclui a superprodução italiana Ulisses (1954), protagonizada por Kirk Douglas e Silvana Mangano, A Eternidade e um Dia (1998), do grego Theo Angelopoulos, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000), uma comédia dos irmãos Coen, Cold Mountain (2003), com Jude Law e Nicole Kidman, e O Retorno (2024), com Ralph Fiennes e Juliette Binoche. Há até versão brasileira, Ulisses (2024), do diretor gaúcho Cristiano Burlan, que transpõe a trama para o Centro de São Paulo, onde, nas suas palavras, alguém atravessa um território hostil tentando preservar alguma humanidade.
Escrito provavelmente no final do século 8 antes de Cristo, o poema do Homero ajudou a popularizar a chamada Lei de Zeus, que Christopher Nolan vem destacando quando fala sobre A Odisseia. A Lei de Zeus é a lei da hospitalidade, comparada por Nolan com a Regra de Ouro: trate os outros como você gostaria de ser tratado. Como diz o cineasta, no momento em que saímos de casa passamos a ficar à mercê de estranhos. Sem esse código moral, uma sociedade não funciona, uma civilização não prospera, tudo desmorona. É uma mensagem que vem bem a calhar no nosso mundo tão polarizado e tão machucado por guerras. Da mesma forma, quando o protagonista do filme diz que não devemos procurar por deuses em homens, porque vamos nos decepcionar, a frase soa como uma advertência a uma sociedade marcada pelo culto à personalidade.
Qual é a trama de "A Odisseia"?

A Odisseia de Christopher Nolan acompanha as tentativas de Odisseu, o rei de Ítaca, para voltar a sua terra depois da Guerra de Troia. Nessa jornada perigosa, que leva quase 20 anos, somando o tempo do conflito militar e o da viagem de retorno, o protagonista enfrenta criaturas míticas, como o ciclope Polifemo e as Sereias, a feiticeira Circe e a ira dos deuses do Olimpo.
Enquanto isso, Telêmaco, filho de Odisseu, parte em busca do pai desaparecido, e Penélope, sua esposa, é pressionada por outros homens a considerar seu marido morto devido à longa ausência e a casar outra vez, escolhendo um novo monarca para Ítaca.

O elenco é um time dos sonhos de Hollywood. Com muita dignidade, fisicalidade e também vulnerabilidade, Matt Damon interpreta Odisseu. Anne Hathaway encarna Penélope, que é o coração do filme — aliás, ela poderia ter mais cenas, em nome do engajamento emocional. Tom Holland faz o papel de Telêmaco, misturando ingenuidade e vigor.
Samantha Morton é Circe, e a atuação da atriz foi aplaudida durante as filmagens, conforme Nolan revelou na entrevista ao Los Angeles Times. Inclusive, ele disse que sua esposa, a produtora Emma Thomas, lembrou que a última vez que isso tinha acontecido em um set de filmagem do diretor foi com o saudoso Heath Ledger na pele do Coringa de O Cavaleiro das Trevas, em 2007. Bem, Morton realmente sabe aproveitar cada instante diante das câmeras, como ela mostrou recentemente em A Baleia (2022) e em Ela Disse (2022).

Helena de Troia e os ataques racistas
Há ainda Robert Pattinson, brilhando com a mescla de arrogância e covardia de Antínoo, um pretendente de Penélope; Zendaya como Atena, a deusa da sabedoria; John Leguizamo como o pastor de porcos Eumeu, que é uma espécie de pilar moral em Ítaca; Charlize Theron como a ninfa Calipso; Himesh Patel como Euríloco, o braço-direito do Odisseu; Jon Bernthal como Menelau, o rei de Esparta; e Lupita Nyong'o em papel duplo: ela faz a icônica Helena de Troia e também sua irmã gêmea, a rainha Clitemnestra.
A escalação de Lupita como Helena de Troia provocou ataques racistas nas redes sociais. Usando como máscara do preconceito uma suposta fidelidade a registros literários e a dados geográficos, um purismo histórico, digamos assim, muita gente reclamou que uma atriz negra não poderia representar a mulher conhecida como a mais bonita do mundo. Mas esse choro ignora a própria natureza mitológica da história, que, vale reforçar, tem entre os personagens o deus dos mares e a deusa da sabedoria, um ciclope e um monstro com seis cabeças, sereias e uma ninfa imortal.

Além de confrontar o padrão eurocêntrico de beleza, a escolha de Lupita Nyong'o para encarnar Helena de Troia ilustra o caráter atemporal dos mitos gregos: eles estão vivos até hoje porque podem ser reinterpretados a cada geração para refletir o mundo contemporâneo. E além de ser extremamente bonita, Lupita tem uma presença de cena majestosa. Pena que aparece tão pouco no filme: somando as duas personagens, a atriz oscarizada como melhor coadjuvante por 12 Anos de Escravidão (2013) não tem mais do que cinco minutos de cena.
Mas enfim: é em nome desse diálogo com a contemporaneidade que Christopher Nolan decidiu não adotar palavras arcaicas e tom solene na linguagem da sua Odisseia. Os atores falam um inglês coloquial e sem o sotaque britânico que caracteriza os filmes de época. Isso humaniza esses personagens míticos, torna os desejos e os dramas de Odisseu, Penélope e Telêmaco ainda mais próximos dos nossos.
E também foi para modernizar A Odisseia que Nolan convocou o rapper Travis Scott para o papel do bardo Demódoco. O diretor entende que há um paralelo claro entre a poesia épica oral da Grécia Antiga e a arte do rap. A participação de Scott é pequena, mas ajuda a criar um clima e serve aos propósitos do diretor.

Essa fusão entre o arcaico e o atual norteou o sueco Ludwig Göransson na trilha sonora. Para elaborar a música de A Odisseia, o compositor vencedor do Oscar por Pantera Negra (2018), Oppenheimer e Pecadores (2025) abriu mão de orquestras tradicionais e misturou sintetizadores com a sonoridade de 35 gongos de bronze, uma lira grega montada e encordoada especialmente para as gravações, tambores rústicos e o aulos, um instrumento de sopro. Há ainda os vocais de fundo do cantor inglês James Blake, que dão uma textura eletrônica e etérea.
Em alguns momentos a trilha de Göransson vai parecer onipresente, mas em outros a música é simplesmente arrebatadora. Nas cenas de tensão, por exemplo, pode causar taquicardia. Aliás, a percussão simula um coração batendo cada vez mais rápido.
As marcas de Nolan em "A Odisseia"

Se as escalações de Lupita Nyong'o e de Travis Scott provocaram queixas, a de Matt Damon no papel de Odisseu gerou uma boa piada. Como A Odisseia custou US$ 250 milhões, cinéfilos fizeram uma conta e descobriram que os estúdios de Hollywood já gastaram mais de US$ 600 milhões para trazer Matt Damon de volta para casa. A soma inclui três filmes com enredos semelhantes: O Resgate do Soldado Ryan (1998), de Steven Spielberg, Interestelar, do próprio Nolan, e Perdido em Marte (2015), de Ridley Scott. Nesses quatro títulos, o ator interpreta um personagem que está isolado, perdido ou preso em algum lugar, e que para ser salvo ou se salvar demanda uma série de desafios.
No caso de A Odisseia, um dos primeiros é o já citado encontro com o ciclope, onde a recusa de Christopher Nolan no emprego da computação gráfica é muito gratificante. O uso de um boneco mecânico colossal e de efeitos práticos deixa as cenas mais orgânicas e, por isso mesmo, assustadoras. Similarmente, o famoso Cavalo de Troia é absolutamente realista e visceral.
Por falar em marcas de Nolan, a trama de A Odisseia permite ao diretor explorar as suas obsessões temáticas, como a natureza maleável da memória e da identidade, a rivalidade entre os homens, a ética e a ambiguidade moral, a responsabilidade por escolhas extremas, a ambição e a culpa, o conflito entre percepção e realidade e a construção e a manipulação do tempo.
O cineasta também exercita seu estilo narrativo, com uma história que não é linear e que opera em diferentes linhas de tempo — habilmente costuradas pela editora Jennifer Lame, premiada no Oscar por Oppenheimer. Odisseu, por exemplo, é visto ora na Guerra de Troia, ora no seu passado em Ítaca, ora nas aventuras do seu regresso, ora na ilha de Caliipso, onde luta para recuperar a sua memória. Esse exercício, contudo, também pode contribuir para um distanciamento emocional: de certo modo, o espectador acaba usando mais o cérebro do que o coração.

Em entrevista concedida ao jornal The New York Times, Christopher Nolan disse que A Odisseia sempre esteve no fundo de sua mente, desde quando tinha cinco ou seis anos e assistiu, no colégio, a uma produção teatral de alunos mais velhos. Nolan disse que nunca esqueceu das sereias e do Cavalo de Troia, que provavelmente era uma engenhoca de papelão em cima de um carrinho. Nessa mesma conversa, o cineasta britânico falou que, ao escrever o roteiro do filme, percebeu como a história contada por Homero está presente em tudo o que ele fez antes.
É verdade. No livro Christopher Nolan: O Cineasta Icônico e sua Obra, recém publicado no Brasil pela editora gaúcha Belas Letras, de Caxias do Sul, o crítico inglês Ian Nathan comparou Odisseu com o protagonista de Oppenheimer: "Dois homens brilhantes lançados à deriva pelo massacre sangrento que arquitetaram para pôr fim a uma guerra. O cavalo de madeira não seria, afinal, uma arma de destruição em massa para arrasar uma cidade?".
O ator Matt Damon também viu similitudes do seu personagem em A Odisseia com o físico considerado o pai da bomba atômica: "Odisseu é o homem mais inteligente vivo, mas sua maior criação, o Cavalo de Troia, é um artifício desonesto. É uma violação direta das leis divinas da guerra e da hospitalidade, que os deuses consideravam sagradas. Ele venceu a guerra ao quebrar as regras do universo. Nesse sentido, sua trajetória guarda muitas semelhanças com a de Oppenheimer. É a história de um homem cuja genialidade inigualável dá origem a uma arma de devastação total, e que passa o resto da vida sendo perseguido pelas consequências de sua própria criação".
Podemos enxergar traços de A Odisseia em muitos filmes do Christopher Nolan. Assim como o protagonista de Oppenheimer, os mágicos de O Grande Truque são castigados por causa da hubris, o nome dado pelos gregos para definir um excesso de orgulho ou autoconfiança, uma arrogância extrema que desafia a natureza ou os deuses e que costuma resultar na ruína do indivíduo.
Em Interestelar, o astronauta Cooper empreende uma verdadeira odisseia por galáxias desconhecidas, lidando com uma série de obstáculos, como o buraco negro, a dilatação do tempo e forças gravitacionais que geram ondas gigantes em planetas inóspitos, enquanto tenta voltar para casa e reencontrar a filha.
Voltar para casa e reencontrar os filhos também é o objetivo do ladrão de sonhos de A Origem. Os perigos no subconsciente remetem à jornada de Odisseu, assim como a tentativa da esposa do protagonista de aprisioná-lo em um mundo irreal reflete a condição do personagem de A Odisseia na ilha da ninfa Calipso.
Cercados em uma praia da Normandia, na França, durante a Segunda Guerra Mundial, os personagens de Dunkirk igualmente estão desesperados para voltar para casa e, como em A Odisseia, o mar surge como o grande antagonista. Se os inimigos de Odisseu são criaturas míticas, os soldados alemães de Dunkirk não têm rosto: os nazistas são como uma força invisível e implacável. Os aviões atacam como se fossem predadores alados, e os torpedos parecem as investidas de monstros marinhos.
A trilogia do Batman é cheia de referências. Começam pelo exílio voluntário e as andanças por um mundo hostil antes de retornar a Gotham City (que é como se fosse o reino de Ítaca), onde Bruce Wayne encontra uma cidade dominada por mafiosos, policiais corruptos e criminosos (uma corja que pode ser comparada à dos pretendentes de Penélope). Como Odisseu, que se disfarça de mendigo, Bruce também adota uma camuflagem: finge ser um playboy bilionário e inconsequente enquanto secretamente age como Batman para expurgar o mal que tomou conta do seu lar. E a prisão no poço em O Cavaleiro das Trevas Ressurge equivale à ilha de Calipso: é lá que o herói precisa reencontrar suas forças, sua coragem, seu propósito e se reerguer.
Dá para encontrar paralelos mesmo em um filme como Amnésia, onde o mar perigoso é a própria mente do personagem principal. Em A Odisseia, Calipso faz uma alerta a Odisseu que se aplica ao protagonista de Amnésia: "Você quer se lembrar, mas e se as memórias destruírem a sua felicidade?".
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