
Grande vencedor do Festival de Brasília do ano passado, o filme gaúcho Futuro Futuro (2025), de Davi Pretto, estreia nesta quinta-feira (23) nos cinemas brasileiros. Em Porto Alegre, as exibições serão na Cinemateca Capitólio, às 19h, e na Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, com sessões às 19h15min na quinta e na sexta (24), ambas seguidas de debate com o diretor, equipe e convidados, e às 16h45min no sábado (25), no domingo (26), na terça (28) e na quarta (29).
Produzido pela Vulcana Cinema e rodado em Porto Alegre, Futuro Futuro é o quarto filme de Pretto, realizador de Castanha (2014), Rifle (2016) e Continente (2024). Sua primeira exibição ocorreu em julho, no 59º Festival de Karlovy Vary, na República Tcheca, a quinta competição mais antiga da Europa (começou em 1946, mas ocorria ano sim, ano não entre 1959 e 1993).
Em Brasília, o título recebeu os troféus Candango de melhor longa-metragem, melhor roteiro (assinado pelo próprio diretor) e melhor montagem (de Bruno Carboni). Também recebeu uma menção honrosa, para o ator Zé Maria Pescador, visto antes em O Clube dos Canibais (2018) e na minissérie Maria e o Cangaço (2025).
O filme é uma ficção científica de baixo orçamento que se passa no futuro distópico de uma metrópole brasileira. Zé Maria Pescador interpreta K, um homem de 40 anos que perdeu a memória e é acolhido por um clickworker sessentão e solitário (papel de João Carlos Castanha) na região mais empobrecida de uma cidade constantemente castigada pela chuva. Ao experimentar um dispositivo de inteligência artificial altamente viciante durante um curso voltado a pessoas afetadas pela síndrome chamada de neurodeflação súbita, o protagonista inicia uma estranha jornada em busca de compreender sua identidade e encontrar um lugar no mundo.
O elenco inclui Carlota Joaquina, Clara Choveaux e Higor Campagnaro. Atriz de Continente e do oscarizado Ainda Estou Aqui (2024), Olivia Torres faz uma participação especial, emprestando sua voz ao filme.
"Nós não lembramos mais", diz Davi Pretto

Por e-mail, Davi Pretto, diretor e roteirista do filme Futuro Futuro, concedeu a seguinte entrevista:
Como surgiu a ideia de Futuro Futuro? Quando tu começou a escrever o filme e como veio a ideia do título escolhido?
A ideia surge de ver minhas angústias existenciais colocadas em perspectiva em um mundo em estado permanente de crise. Ou melhor, múltiplas crises. É como se àquela pergunta que todos nós fazemos de "qual meu lugar no mundo?" tivesse que ser refeita para "como encontrar meu lugar no mundo se o mundo parece estar acabando?". É uma angústia existencial dupla que acho que muita gente se identifica, tanto a nível individual quanto de um estado de mundo em colapso que parece não termos mais controle. Esse embrião foi lá por 2017. Na época, frequentei um curso sobre ficção científica e filosofia especulativa na APPH (Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades), em Porto Alegre. Era um espaço de muita troca e aprendizado, e o filme deve muito às pessoas que estavam lá. Bom, e o título do filme é uma provocação pra pensarmos se todos teremos acesso ao mesmo futuro ou se estamos falando diferentes futuros... O (Gilles) Deleuze (filósofo francês) dizia que todo livro de filosofia deveria ser uma espécie de ficção científica. O que o filme faz é o inverso, pensa a ficção científica como uma espécie de filosofia.
Pode falar sobre a escolha do ator Zé Maria Pescador para fazer o papel do personagem principal?
Eu havia visto Zé Maria em O Clube dos Canibais, longa do Guto Parente, e fiquei muito impressionado na época. Fizemos algumas video chamadas, ele fez uma cena como K onde trouxe algo único e tive certeza que era ele. Outros nomes do elenco como Clara Choveaux, Higor Campagnaro e Carlota Joaquina também vieram dessa minha admiração ao vê-los em outros filmes brasileiros de que gosto muito. A cidade do filme é uma cidade sem nome, um não lugar. E acho que isso vem dessa constelação de atores de diferentes cidades e sotaques, inclusive alguns radicados em Porto Alegre como Robson Duarte e Li Pereira. É um grande elenco de muitos talentos que admiro. Tem também Alex Pantera, Gabriela Greco e muitos outros, além do meu reencontro com Castanha e Silvia Duarte, com quem trabalhei em meus filmes anteriores. E uma participação afetiva muito especial da Olivia Torres.

Quais foram os cenários de Porto Alegre que serviram de locação?
No filme, a cidade é dividida em duas, e isso infelizmente não é muito fictício se olharmos para Porto Alegre. Há um lado do abandono governamental e outra que é uma cidade emulada, intransponível e proibida. Onde o K desperta sem memória é a parte do abandono e foi filmada nos arredores da Grande Cruzeiro, em especial na comunidade Malvina. O curso que K frequenta foi filmado no coletivo Preta Velha em uma escola estadual abandonada e que foi ocupada e se tornou um centro de transformação social graças a um coletivo de mulheres negras daquela comunidade. São lugares repletos de histórias de luta e que nos acolheram muito. Por outro lado, a cidade rica que K sonha foi feita parcialmente no complexo industrial da Fecomércio, super parceira do projeto, onde inventamos nosso bairro privativo fictício pois nenhum bairro privativo de luxo real de Porto Alegre permitiu que filmássemos lá.
De que maneira as enchentes em Porto Alegre afetaram a produção do filme e impactaram na própria história?
A enchente entrou no roteiro já em 2023, pois eu estava na fase final de escrita justamente durante a enchente de setembro daquele ano. A experiência de viver em uma cidade colapsada pelas águas mexeu muito comigo ao estar escrevendo uma história sobre crise climática. Mas obviamente eu não esperava que aquilo fosse se repetir seis meses depois e numa proporção absurdamente maior. O que aconteceu foi que estávamos filmando em maio de 2024 um filme em que uma enchente na história e uma enchente aconteceu na vida real. Foram três semanas de filmagem debaixo de chuva até o dia 3 de maio, quando o centro de Porto Alegre foi evacuado, onde justamente filmávamos naquele dia. As filmagens foram interrompidas e só voltamos a filmar em julho para completar as três diárias que faltavam. Locações como a Fecomércio que ainda filmaríamos foram destruídas pelas águas e ficamos sem alternativas, pois o orçamento também foi muito afetado. Isso me fez investigar mais ainda as imagens de IA, e o bairro rico se tornou em grande parte feito por imagens artificiais. Então, o impacto na história não foi de inserir a enchente, pois ela já estava no roteiro, mas sim criar uma sensação ao espectador que traduzisse essa experiência inominável, esse luto coletivo, essa imensa ferida aberta, que todos vivemos no Rio Grande do Sul naquele maio de 2024. Essa catástrofe que não é só climática, mas também política e da sociedade como um todo.

O nome do protagonista é K., o que, somado a circunstâncias da trama, remete a Franz Kafka e os personagens do escritor. Por coincidência, Futuro Futuro estreou no Festival de Karlovy-Vary, na República Tcheca. Você pode falar sobre as conexões do filme com o universo kafkiano?
Um dos primeiros livros que me marcaram quando era muito jovem foi A Metamorfose que ganhei da minha mãe. O Processo foi também uma grande referência, inclusive o filme do Orson Welles. Kafka sabia traduzir uma profunda angústia humana perante aos labirintos do mundo que nos governa. A jornada do K no Futuro Futuro tem muito disso. E não só dele, mas também de quem ele encontra. O festival e o público de Karlovy Vary reconheceram isso no filme. Foi uma estreia muito especial. Tenho a sensação de que a ilusão de que temos algum controle sobre nossas vidas nos levou para a tragédia individual e coletiva. Nós acreditamos que mudamos o mundo postando nas redes sociais, votando periodicamente e depois cruzando os braços, se indignando a conta-gotas, mas (Slavoj) Zizek (filósofo esloveno) fez uma metáfora com a qual concordo: parece que somos torcedores em frente a uma partida de futebol na televisão, acreditando que nossos gritos podem definir o placar do jogo jogado por 22 milionários. Creio que precisamos urgentemente olhar de frente para nossa passividade e irrelevância perante às múltiplas crises que nossa espécie criou.
Você pode falar sobre como criou a neurodeflação súbita e sobre como essa doença fictícia se conecta com os avanços da inteligência artificial e com o vício da sociedade no consumo das redes sociais?
A gente está vivendo uma epidemia de doenças mentais. As redes sociais, a pandemia de covid, essa falsa realidade dos algoritmos, o fluxo infinito de informação... E uma catástrofe como a enchente de 2024 também tem impactos profundos na saúde mental coletiva. Há anos escuto pessoas se lamentando que sua memória não é mais a mesma. Nós não lembramos mais. A inteligência artificial é um novo degrau nisso. Desde a invenção da fotografia, nós entendíamos que as imagens eram uma representação da realidade. Nossa própria ideia de realidade era formada pelas imagens que assimilávamos. Assimilávamos o que aconteceu do outro lado do mundo porque havia uma foto como prova. Hoje, com a IA, vemos imagens artificiais que não têm necessariamente uma conexão com o real. Se antes nós olhávamos as imagens na internet para identificar qual era falsa, hoje fazemos o contrário, buscamos qual imagem é verdadeira. Isso significa que nós não compartilhamos mais uma mesma realidade. Vivemos separados em diferentes realidades criadas especialmente para cada um de nós pelos algoritmos, tudo repleto de imagens falsas. O filme pensa o que vem depois disso. Essa é a "neurodeflação súbita", a perda da capacidade de imaginar imagens mentais e a súbita amnésia completa. Não lembramos do passado, não sabemos como navegar no presente e não conseguimos imaginar futuros. Muito já se falou sobre as consequências dos usos nas redes, mas muito pouco mudou. Creio que com a IA vai acontecer a mesma coisa. É intrigante como nós aceitamos rapidamente uma tecnologia que surge para mediar nossa existência, para interpretar, prever e resumir o mundo para nós, inclusive criar em nosso lugar. É como se o mundo tivesse chegado numa velocidade de informação impossível para assimilarmos e justamente por isso a IA surge como uma promessa para mediar essa situação para nós. Nós negamos que essa tecnologia tenha um viés ideológico de quem as criou. Sabemos que essa tecnologia pode estar errada, mas confiamos no que ela nos diz. A gente nega isso tudo. É um lugar de submissão e de passividade nossa. No fim das contas, será que essa tecnologia está a nosso serviço ou nós estamos a serviço dela?

Futuro Futuro é uma distopia, um filme filiado a um tipo de produção bastante comum em Hollywood, mas há diferenças importantes, como a falta de cenas de ação e uma trama que parece mais cifrada. Gostaria que tu falasse sobre como acha que será a recepção do espectador.
São duas perguntas fundamentais. Primeiro, acho que a gente vive uma tirania das certezas imediatas. Somos forçados a nos posicionar sobre uma avalanche de informações a todo segundo: a favor ou contra, gostei ou não gostei. Sem tempo hábil para isso, nós reagimos por instinto, mais pelo que as coisas parecem ser do que pelo que as coisas realmente são. Eu acredito que precisamos da dúvida urgentemente, da ambiguidade, das perguntas. E é isso que o filme propõe, um espaço de reflexão através de uma narrativa imersiva e de estranhamento. Já me disseram que é um filme de horror existencial. Acho que é por aí. Segundo, quando pensamos em ficção científica, logo imaginamos carros voadores, cidades repletas de hologramas, robôs humanoides e narrativas de como salvar o mundo. Tudo isso vem de um imaginário que nos foi imposto, em especial pelos filmes e livros norte-americanos. Até o imaginário de fim de mundo nos foi induzido com narrativas de cidades congeladas, meteoros e tsunamis. É isso que o filme repensa. É preciso criarmos outro imaginário da ficção científica que reflita o nosso país, olhando para as distopias do agora. No nosso filme nenhum personagem tem celular, não se vê quase televisões ou telas, nao há carros voadores, nem robôs. Todas essas ausências são propositais. A gente espera que o público vá e esteja disposto a refletir. O filme dá espaço para que o espectador pense e duvide conosco.
Como diz o material de divulgação, Futuro Futuro "reflete sobre os perigos cognitivos e políticos dos avanços da inteligência artificial, tecnologia que tem mudado o mundo do trabalho, das relações sociais e alterado a nossa percepção do que é real e o que não é". O filme aborda o uso de IA e também usa IA. Neste momento em que se discute cada vez mais o emprego da inteligência artificial, inclusive no cinema, qual é a sua opinião e a sua posição?
Acredito que nós estamos vivendo o maior experimento social em massa em muito tempo. Também acredito que não podemos simplesmente replicar o debate da IA que está acontecendo nos EUA e na Europa, pois o Brasil nunca soube lidar com as consequências da escravidão. Como a IA se insere em um país tão precarizado, desigual e violento como o nosso? Dito isso, vale lembrar que a discussão da IA no audiovisual é recente, mas em outras áreas já existe há décadas. E todos os riscos da IA que hoje sabemos são graças ao trabalho de pessoas que se puseram a investigar essas plataformas e modelos, usando-as para entender como funcionam, o que geram e assim denunciar o que há por trás delas. O nosso filme não esconde esse gesto. A IA não é invisível no filme, não quer se diluir ou se camuflar. Existe uma oposição frontal das imagens IA com as que filmamos para que o espectador pense o que isso significa. É um gesto arriscado, mas necessário. Qualquer alternativa hoje para conter os avanços da IA não recai sobre decisões individuais em não usá-la. Estamos falando de uma tecnologia que atualmente sete em 10 brasileiros afirmam já usar diariamente. Há pesquisas indicando que 95% dos brasileiros já usam. E mesmo que a gente não queira usar, abrimos nossos celulares e computadores e há chatbots em diversas ferramentas. Modelos IAs já são usados por empresas que consumimos produtos e não temos conhecimento. Há ainda um medo crescente de quem não usa IA acabar ficando para trás no mercado de trabalho. É uma teia ampla e complexa. Pensar que a responsabilidade está no indivíduo é uma distração similar ao conceito da pegada individual de carbono, que pouca gente sabe mas foi criado como campanha de marketing de uma gigante empresa de petróleo para desviar o real debate climático. Data centers de bilhões de reais para treinar IAs são criados anualmente no Brasil com incentivo e apoio dos governos locais e federal num discurso de geração de emprego e aumento do PIB mesmo com o impacto ambiental absurdo que essas estruturas geram consumindo milhares de litros de água por dia para o resfriamento de seus microchips. Muitos desses data centers não divulgam para quais plataformas IA internacionais prestam serviço. É um sistema opaco. E lembrando que a IA segue sem regulação no Brasil, como em muitos países. É avassalador. Para criar alternativas frente a tudo isso, só através de organizações coletivas e dos movimentos sociais de forma ampla. Mas meu maior receio é que com o fluxo inassimilável de informação que já estamos imersos, esse debate vai ser esvaziado e aceitaremos respostas rasas, talvez mesmo até soluções propostas por IA.



