
O sexto Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2026) não exige muito conhecimento sobre as cinco comédias anteriores, mas para entender as piadas convém que o espectador seja uma enciclopédia de Hollywood: as cenas do filme que estreou nos cinemas nesta quinta-feira (4) parodiam franquias de terror como Pânico, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Premonição, Halloween, Sorria!, M3GAN e Terrifier; vencedores recentes do Oscar, como A Substância, Uma Batalha Após a Outra, A Hora do Mal e Pecadores; títulos de ação (Bailarina: Do Universo John Wick), longas de animação (Guerreiras do K-Pop), séries da Netflix (Wandinha) e até cinebiografias musicais (Michael).
Entender a piada, contudo, não garante a gargalhada. Falta sempre alguma coisa, seja capricho na escrita do texto, sejam atores com mais talento, seja uma conexão maior entre as cenas — tudo parece uma sucessão de esquetes quase desvinculados um do outro. Podem funcionar isoladamente se vistos no Instagram ou no TikTok, mas em uma sala de cinema o filme é uma colcha de retalhos puída e desbotada.
Na sessão em que assisti a Todo Mundo em Pânico 6, a bagaceirice da sequência de abertura com Teyana Taylor, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por Uma Batalha Após a Outra (2025), e a primeira zoação de Pecadores (2025) até fizeram surgir a esperança de que a plateia entraria em uma risonha comunhão. Mas o que veio depois foi um silêncio absolutamente constrangedor para um filme supostamente cômico. Não rolou, embora aqui e ali dê para ver e ouvir lampejos de audácia, iconoclastia e genialidade.
Nascida em 2000 para satirizar as cinesséries de terror Pânico (surgida em 1996) e Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (de 1997), Todo Mundo em Pânico não inventou esse subgênero. Os irmãos Keenen Ivory Wayans (o diretor), Marlon Wayans e Shawn Wayans — que escreveram o filme com outros quatro roteiristas — seguiram um caminho trilhado antes pelo mestre Mel Brooks (O Jovem Frankenstein, Banzé no Oeste, S.O.S: Tem um Louco Solto no Espaço) e pela trindade Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker (Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!, Top Secret!, Corra que a Polícia Vem Aí).
Menos brilhante e mais vulgar do que seus antecessores, o Todo Mundo em Pânico original foi um sucesso de bilheteria — US$ 278 milhões, quase 15 vezes o seu custo —, gerando uma nova onda de paródias: Não É Mais um Besteirol Americano (2001), Uma Comédia Nada Romântica (2006), Deu a Louca em Hollywood (2007), Os Espartalhões (2008)...
Também virou franquia, com filmes lançados em 2001, 2003, 2006 e 2013. O longo hiato entre o quinto e o sexto título deve-se ao fracasso comercial de Todo Mundo em Pânico 5 (o único a não ultrapassar US$ 100 milhões em arrecadação), em grande parte explicado pela ausência do elenco principal, e a disputas financeiras e divergências criativas da família Wayans com os produtores da Miramax.

Todo Mundo em Pânico 6 traz a assinatura de quatro Wayans no roteiro e é dirigido por Michael Tiddes, que tem experiência na área — fez Inatividade Paranormal (2013) e Cinquenta Tons de Preto (2016). As atrizes Anna Faris e Regina Hall retomam os papéis de Cindy Campbell e Brenda Meeks, respectivamente. E Marlon Wayans e Shawn Wayans voltam a interpretar o irmão de Brenda, Shorty, um maconheiro inveterado, e o namorado dela, Ray, que falha miseravelmente em esconder sua homossexualidade.
O quarteto se reúne novamente porque, depois de muitos anos, o assassino mascarado Ghostface resolveu atacar outra vez. Agora, também está na mira a prole da turma, como Sara (Olivia Rose Keegan) e Waldinha (Savannah Lee Nassif), filhas de Cindy, e Brad (Gregg Wayans), filho de Brenda.
A presença de um elenco jovem permite aos cinquentões de Todo Mundo em Pânico 6 mirar sua metralhadora giratória para a Geração Z, com piadas que oscilam entre a ridicularização — como quando tira sarro dos partidários dos pronomes neutros ("elu", "delu") _ e o ressentimento. A nostalgia bate forte: parece uma reunião de velhos amigos que reciclam piadas típicas de um tio do pavê e rememoram os bons tempos — aliás, o filme dá pistas de que vem aí uma continuação de As Branquelas (2004), um verdadeiro clássico da família.

Em defesa dos Wayans, cumpre dizer que eles são realmente "democráticos em suas ofensas", como Marlon declarou em entrevista à Folha de S. Paulo. Ele tem um filho trans e é ativista dos direitos LGBTQIA+, mas isso não o impede de escrever humor homofóbico e transfóbico. Se o filme faz graça sobre brancos racistas, também faz sobre estereótipos negros. E se vibradores e plugs anais ganham protagonismo, também há piadas mais, digamos, sofisticadas, como aquelas que citam o oscarizado drama 12 Anos de Escravidão (2013) e o terror cult Corrente do Mal (2014).
Nada contra o humor politicamente incorreto, sexista ou mesmo de mau gosto — Borat, Charlie Harper e próprias Branquelas, por exemplo, são personagens com os quais sempre se pode contar quando estamos precisando gargalhar. Mas pior do que uma piada ruim é uma piada de que ninguém ri, e esse é um pecado imperdoável em qualquer comédia. Raramente Todo Mundo em Pânico deixa todo mundo em júbilo.
Se ainda assim você resolver encarar, vale avisar: tem cena pós-créditos. Não é espetacular, mas surpreende por satirizar o mais recente filme de um diretor muito admirado pelos críticos.
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