
Entraram nesta segunda-feira (1º) no menu da Netflix todos os filmes da saga Rocky — os cinco estrelados por Sylvester Stallone entre 1976 e 1990 e a retomada do personagem, já aposentado, em Rocky Balboa (2006) — e os três da franquia Creed (2015, 2018 e 2023), com Michael B. Jordan no papel do filho de Apollo Creed, o campeão dos pesos-pesados que o mais famoso boxeador do cinema desafiou na sua estreia.
Vencedor do Oscar nas categorias de melhor filme, direção (John G. Avildsen) e edição, Rocky, um Lutador (1976) é, sem sombra de dúvida, um dos melhores títulos sobre boxe — aliás, um dos grandes clássicos no âmbito esportivo. Mas será que tinha mesmo punhos para derrotar, no ringue do Oscar, os gigantescos Rede de Intrigas, de Sidney Lumet, Taxi Driver, de Martin Scorsese, e Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula?
— Naquela noite, tudo acabou — disse Scorsese no documentário 1975: O Ano do Colapso (2025), de Morgan Neville, disponível na Netflix.
O cineasta se referia à onda de criatividade e ousadia que sacudiu o cinema estadunidense a partir do final dos anos 1960. Como escreveu o crítico Roger Lerina, a chamada Nova Hollywood legou ao mundo um conjunto de obras inconformistas que, sobrevivendo ao contexto turbulento em que foram gestadas — uma época "pós-tudo e pré-nada", como definida por alguém no documentário —, permanece provocadoramente atual 50, 60 anos depois.
A consagração de Rocky parece ter antecipado uma guinada conservadora na cultura e na política dos EUA — três anos depois, o republicano Ronald Reagan derrotou o então presidente, o democrata Jimmy Carter, nas eleições para a Casa Branca.
A Academia de Hollywood preteriu filmes que espelhavam mazelas em nome de mais uma típica história de redenção, de segunda chance — tema mítico em um país que nasceu justamente de uma segunda chance, a dos pobres e degradados britânicos que partiram para a América no século 17.
Os eleitores do Oscar preferiram enaltecer um personagem que simboliza o individualismo e a obsessão nacional por ser um vencedor, um número 1, do que títulos que olhavam para uma sociedade em crise. Em 1975: O Ano do Colapso, o professor de Cinema Todd Boyd, titular da Cátedra Katherine e Frank Price para o Estudo de Raça e Cultura Popular e também conhecido como Notorious Ph.D., vai além, apontando o racismo subjacente na trama sobre a revanche de "um cara branco da classe trabalhadora que leva uma surra de um negro linguarudo".
Questões sociopolíticas à parte, quem nunca se imaginou, diante de um desafio, subindo os degraus de pedra do Museu de Arte da Filadélfia como Rocky Balboa, ao som da empolgante Gonna Fly Now? Composta por Bill Conti, Carol Connors e Ayn Robbins, essa canção valeu a Rocky uma das sete outras indicações ao Oscar. O filme também concorreu nas categorias de melhor ator (Sylvester Stallone), atriz (Talia Shire), roteiro original (escrito pelo próprio Stallone), ator coadjuvante (com dois indicados, Burgess Meredith e Burt Young) e som.

Os filmes subsequentes da franquia não chegaram nem perto do mesmo reconhecimento crítico. Pelo contrário: Rocky IV (1985), dirigido pelo próprio Sylvester Stallone, e Rocky V (1990), de John G. Avildsen, "ganharam" ou foram indicados a várias Framboesas de Ouro, o prêmio galhofeiro que revela seus escolhidos nas vésperas do Oscar.
Mas Rocky IV tem a seu favor a condição de campeão nas bilheterias. Lançado à época da Guerra Fria, soube capitalizar a rivalidade entre os Estados Unidos e a então União Soviética, transposta para os ringues no combate entre Rocky e Ivan Drago (encarnado por Dolph Lundgren). Faturou US$ 300 milhões, contra os US$ 276 milhões de Creed III (2023) e os US$ 270 milhões de Rocky III: O Desafio Supremo (1982), também assinado por Stallone.

A redenção do personagem aconteceu 16 anos depois de sua última aparição: Rocky Balboa (2006), escrito, dirigido e protagonizado por Stallone. Na trama, o boxeador está aposentado e toca a vida como dono de restaurante, batizado de Adrian's em homenagem a sua falecida esposa.
Quando um programa de TV simula um combate entre ele e o campeão dos pesos-pesados Mason Dixon (inspirado em Mike Tyson e encarnado por um pugilista de verdade, Antonio Tarver), Rocky tem a chance de voltar ao ringue e, de quebra, reconquistar o respeito do filho.

Stallone recebeu elogios, mas só voltou a ser lembrado pelo Oscar pela atuação em Creed: Nascido para Lutar (2015), de Ryan Coogler. Rocky, agora, é um treinador, cujo bom humor contrasta com a seriedade do Adonis Johnson interpretado por Michael B. Jordan.
O filme fez de Stallone, indicado ao Oscar de coadjuvante, o sétimo ator na história a disputar a estatueta pelo mesmo personagem e abriu em definitivo as portas de Hollywood para Jordan, que depois viveria o Killmonger de Pantera Negra (2018), lançado no mesmo ano de Creed II — título dirigido por Steven Caple Jr. em que os filhos de Apollo Creed e Ivan Drago revivem o duelo travado pelos pais na década de 1980.

Em 2023, Jordan estreou como diretor em Creed III, primeiro filme da cinessérie sem a presença de Sylvester Stallone. A história começa na Los Angeles de 2002, quando o adolescente Adonis empreende uma escapada noturna de sua casa para acompanhar um amigo de 18 anos, Damian Anderson, o Dame, então um prodígio do boxe egresso do Crenshaw, bairro notório por sua comunidade negra (foi lá que John Singleton filmou Os Donos da Rua, em 1991). Exímio observador dos pontos fracos do adversário, Dame ganha a luta e sai para comemorar com Adonis.
Algo dá errado, o que terá consequências nos dias de hoje, quando Adonis Creed (Michael B. Jordan), já aposentado do boxe, curte a vida em família, com a esposa, Bianca (Tessa Thompson), e a filha, Amara, e o sucesso como empresário — treinado pelo irônico Duke, o mexicano campeão Felix Chávez (encarnado pelo pugilista José Benavidez Jr.) se prepara para duelar contra Viktor Drago (Florian Munteanu). Um dia, ao sair da academia, Adonis depara com um estranho encostado em seu carrão. É Dame adulto (papel de Jonathan Majors), recém saído da prisão.
Bônus: Balboa versus LaMotta

Se depois de ver (ou rever) toda a saga Rocky/Creed você ainda tiver cabeça e estômago para mais boxe, a dica é conferir Ajuste de Contas (2013), de Peter Segal. Na trama, Sylvester Stallone e Robert de Niro interpretam dois sessentões que voltam ao ringue.
É como se fosse o duelo nunca visto entre Rocky Balboa e o Jake LaMotta do clássico Touro Indomável (1980), de Martin Scorsese. O filme está disponível para aluguel no Amazon Prime Video, no Google Play e no YouTube.
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