
Ao fecharmos os primeiros cinco meses do ano, resolvi atualizar a minha lista dos melhores filmes de 2026.
A regra é clara: só valem títulos que estrearam comercialmente no Brasil, no cinema ou no streaming, a partir de 1º de janeiro. Por isso, aparecem obras lançadas originalmente em 2025 no Exterior ou que foram exibidas pela primeira vez em festivais do ano passado.
E o critério foi o afetivo: entraram os 20 filmes que realmente me conquistaram, independentemente dos prêmios recebidos, do sucesso de bilheteria, das polêmicas provocadas ou da aclamação por outros críticos.
A ordem é puramente alfabética. Clique nos links se quiser saber mais.
1) 53 Domingos (2026)

De Cesc Gay. Esta comédia dramática adapta uma peça do próprio cineasta espanhol sobre três irmãos que falham sucessivamente nas tentativas de se reunir para decidir o destino do pai, que tem 86 anos e mora sozinho, mas já começou a apresentar sinais de senilidade. Julián (Javier Cámara) é um ator que atravessa uma crise profissional: seus últimos testes têm sido só para comerciais de TV. Por isso, é menosprezado por Víctor (Javier Gutiérrez), o mano que é rico, mas por causa da esposa — o caçula caçoa do mais velho, dizendo que ele trabalha de chofer do sogro. E Natalia (Carmen Machi) é a irmã certinha que busca promover a diplomacia no seio familiar.
Os diálogos, os gestos e os olhares revelam atritos e mágoas, sem a explosão cômica ou dramática que se poderia imaginar. É um acerto de 53 Domingos: não aposta em uma trama mirabolante ou em viradas desconcertantes, mas nas coisas comezinhas, no cotidiano com o qual muitas famílias devem se identificar, como as relações calcadas no escárnio, na inveja ou na mentira e o jogo de empurra-empurra das responsabilidades. (Netflix)
2) Aqui Não Entra Luz (2025)

De Karol Maia. Filha de uma trabalhadora doméstica, a diretora realizou um documentário íntimo que nasceu do seu interesse em entender como a arquitetura do quarto de empregada dialogava com a da senzala, conforme declarou em entrevistas. Ela queria compreender as dimensões físicas e também a simbólica da relação entre esses espaços. Então, Karol Maia viajou pelos quatro Estados que mais receberam mão de obra escravizada no Brasil: Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nesses lugares, entrevistou mulheres que compartilham histórias de patrões tirânicos, privações, abusos trabalhistas, racismo, assédio sexual e outros quetais.
Os relatos são duros e denunciantes, mas como apontou o crítico Bruno Carmelo, do site Meio Amargo, "as protagonistas nunca se convertem em vítimas, tampouco heroínas ou mártires da causa. São cidadãs inseridas numa lógica onde tais comportamentos são tacitamente tolerados". Aqui Não Entra Luz é simultaneamente delicado e contundente. A cineasta permite-se o silêncio, exercita a escuta (incluindo a do som dos afazeres), dedica tempo ao tempo de cada personagem, aproveita sua proximidade para conduzir conversas com franqueza e naturalidade em que também há vez para alegrias e conquistas. Mas este não é apenas um filme sobre pessoas: é sobre a história do país, sobre todo um sistema patriarcal, racista e classista que foi legado pelo período da escravidão. (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
3) Ato Noturno (2025)

De Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Rodado em Porto Alegre, este suspense erótico remete ao cinema de Brian De Palma. Em Ato Noturno, um ator e um político vivem um caso em sigilo enquanto buscam ascender em suas carreiras. Matias (papel de Gabriel Faryas), que recém estreou um espetáculo teatral no qual divide cenas com seu colega de apartamento, Fábio (Henrique Barreira), persegue a chance de estrelar uma grande série que vai ser gravada em Porto Alegre. Rafael (encarnado por Cirillo Luna), apoiado por empresários e escudado pelo chefe de segurança, Camilo (Ivo Müller), é candidato a prefeito e vem subindo nas pesquisas eleitorais.
Matias e Rafael precisam ser discretos, mas há um elemento extra e explosivo de tensão: o tesão pelo sexo em lugares públicos de Porto Alegre. Pode ser no Parque da Redenção, por exemplo, ou em um morro da cidade. As cenas combinam sedução e ameaça. (Para aluguel em Apple TV, Google Play e YouTube)
4) Blue Moon: Música e Solidão (2025)

De Richard Linklater. Indicado ao Oscar de melhor ator, Ethan Hawke interpreta Lorenz Hart (1895-1943), um famoso letrista da Broadway, onde manteve uma parceria de 25 anos com o compositor Richard Rodgers (1902-1979). Juntos, eles criaram sucessos como a própria Blue Moon e My Funny Valentine.
Concorrente também na categoria de roteiro original, Blue Moon se passa na noite de 31 de março de 1943 e é quase todo ambientado dentro de um restaurante de Nova York, o Sardi's. É lá, junto ao bartender vivido por Bobby Cannavale, que Hart vai afogar as mágoas após assistir à estreia do novo musical do seu antigo parceiro, Oklahoma!, agora com um novo letrista, Oscar Hammerstein II (1895-1960). Por meio de diálogos imaginados que misturam ironia e melancolia, o protagonista exibe tanto o seu egocentrismo e a sua arrogância quanto sua solidão e suas inseguranças. (Para aluguel em Amazon Prime Video, Apple TV, Google Play e YouTube)
5) Cinco Tipos de Medo (2025)

De Bruno Bini. Foi o grande ganhador do Festival de Gramado em 2025, com quatro Kikitos: melhor filme, ator coadjuvante (o rapper Xamã), roteiro e montagem. Cinco Tipos de Medo tem cinco personagens principais: Marlene (Bella Campos) é uma enfermeira que ficou desempregada após a pandemia de covid-19. Sapinho (Xamã) chefia o tráfico de drogas no Jardim Novo Colorado. A policial Luciana (Bárbara Colen) é capitã do Bope. Ivan (Rui Ricardo Diaz) é um advogado que tem uma filha prematura ainda internada no hospital, e Murilo (João Vitor Silva), um jovem violinista Murilo.
O ponto de partida é um ataque a tiros à casa de Murilo. A partir daí, o diretor, roteirista e montador Bruno Bini faz pequenos recuos no tempo narrativo e revisita cenas para mostrar como as cinco trajetórias se conectam, se cruzam e se chocam, emparedando seus personagens com dilemas morais, refletindo sobre como a violência urbana contamina e ilustrando nossa busca por redenção em meio à dor. (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
6) A Cronologia da Água (2025)

De Kristen Stewart. No primeiro longa-metragem como diretora, a atriz californiana conta a história da escritora Lidia Yuknavitch, encarnada por Imogen Poots. A personagem e sua irmã mais velha sofriam abuso sexual do próprio pai na infância e na adolescência, sob a conivência embriagada da mãe. A protagonista encontra na natação uma forma de sobreviver e, quem sabe, de escapar do jugo paterno. Mas seus sonhos olímpicos são interrompidos quando ela se afunda no álcool e nas drogas.
A Cronologia da Água abre mão da linearidade e aposta em uma estrutura fragmentada para retratar os vaivéns da memória e lembrar que o tempo nunca dilui por completo um trauma: o passado está sempre à espreita, pronto para reabrir cicatrizes em momentos futuros. Imogen Poots se entrega ao papel, e toda a variedade de suas emoções é vista muito de perto: a cineasta investe bastante em closes do rosto da atriz. A filmagem com película de 16 milímetros empresta textura às imagens, ampliando o caráter tátil. (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
7) (Des)controle (2025)

De Rosane Svartman e Carol Minêm. Em poderosa atuação, Carolina Dieckmmann interpreta Katia Klein, autora de uma bem-sucedida série de livros infantojuvenis. A escritora atravessa uma turbulência. A editora pressiona pela entrega do novo volume, atrasado por causa de um bloqueio criativo. Em casa, o casamento com Zeca (Caco Ciocler) não vai bem. Aliás, enquanto ele pratica ioga em meio ao caos doméstico e quer fazer uma viagem romântica com a esposa, ela só pensa na lista de tarefas a cumprir, que inclui cuidar dos filhos adolescentes, providenciar o Bar Mitzvah do caçula e lidar com os pais, Levi (Daniel Filho) e Esther (Irene Ravache).
Katia sente a sobrecarga característica das mulheres que conciliam a vida familiar com a carreira profissional. Assim, seus 15 anos de sobriedade, um orgulho regado a muitas latas de Coca Zero, estão à beira de um abismo. Qualquer lugar pode se revelar uma cilada, qualquer coisa pode ser gatilho. Ao sucumbir à primeira tacinha de vinho, a protagonista de firma uma espécie de pacto com o diabo. Parece um dramalhão, mas (Des)controle não abusa do sentimentalismo e se permite momentos leves, até engraçados. (Telecine e sessões no Cinemark Ipiranga, às 12h, e no Cinemark Wallig, à 12h30min)
8) Devoradores de Estrelas (2026)

De Phil Lord e Christopher Miller. A adaptação do romance de Andy Weir traz Ryan Gosling no papel de Ryland Grace, sujeito que acorda de um coma dentro de uma nave espacial. Cabeludo, barbudo, inerte e desmemoriado, aos poucos ele descobre ser o único sobrevivente de uma missão crucial para salvar a Terra de uma ameaça cósmica que está consumindo a energia do Sol. A narrativa, então, passa a alternar o presente e o passado enquanto o personagem vai montando um quebra-cabeça formado por fragmentos de sua memória.
As duas horas e meia de duração não cansam graças às idas e vindas no tempo e à mistura equilibrada de ficção científica, aventura, suspense, drama e até — ou principalmente — comédia. Gosling empresta seu carisma a diálogos bem-humorados que incluem referências ao clássico Rocky (1976) e embalam a formação de uma bela e pétrea amizade que supera diferenças — há uma mensagem otimista em Devoradores de Estrelas, um convite à aproximação com o outro. Mas é Sandra Hüller quem rouba a cena ao cantar Sign of the Times (2017), de Harry Styles, em um karaokê. (Estreia no dia 18/6 no MGM+, que tem sete dias de teste grátis via Amazon Prime Video)
9) O Drama (2026)

De Kristoffer Borgli. Na trama, Zendaya interpreta Emma, e Robert Pattinson faz o papel de Charlie. Quando o filme começa, eles estão na semana dos últimos preparativos para o casamento. Cada um está escrevendo e compartilhando com os amigos o que vai dizer na cerimônia. Charlie, por exemplo, afirma adorar como Emma transforma os dramas dele em comédia.
Parece que estamos diante de uma comédia romântica como qualquer outra, mas a certa altura Emma inverte a mão: transforma uma comédia em drama ao responder qual foi a pior coisa que já fez na vida. E então faz surgir um elefante enorme no meio da sala — tanto a dos personagens de O Drama como a dos espectadores. (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
10) O Estrangeiro (2025)

De François Ozon. O prolífico cineasta francês adapta o clássico publicado por Albert Camus em 1942. O personagem principal é Mersault (interpretado por Benjamin Voisin), um francês de 30 anos que vive na Argélia colonial. Apesar da morte recente da mãe e do romance com Marie (Rebecca Marder), ele é incapaz de demonstrar qualquer sentimento. Nem mesmo o envolvimento no assassinato de um jovem árabe é capaz de tirá-lo de sua apatia em relação à vida.
Ao escrever sobre O Estrangeiro, a colunista Cláudia Laitano encheu o filme de elogios: "Do ponto de vista de quem adora o livro, são muitos os acertos de Ozon: a elegante fotografia em preto-e-branco, o magnético casal de protagonistas, a onipresença do sol como parte essencial da narrativa, o uso moderado de offs, os silêncios eloquentes e, mais importante do que tudo, a maneira como o diretor foi respeitoso com a obra sem deixar de acenar para as ideias e a sensibilidade contemporâneas. É um equilíbrio complicado. Uma intervenção exagerada pode ser um desastre, tanto para os cinéfilos quanto para os leitores, mas evitar qualquer tipo de reinterpretação pode deixar o filme (e o livro) com cara de peça de museu". (Sessões na Sala Norberto Lubisco nesta terça, 2/6, e na quarta, 3/6, às 15h)
11) Extermínio: O Templo dos Ossos (2026)

De Nia daCosta. É a continuação direta de Extermínio: A Evolução (2025), que, por sua vez, é a sequência oficial de Extermínio (2002). Após ser salvo dos zumbis pelo grupo liderado por Jimmy Crystal, o menino Spike (Alfie Williams) descobre que o personagem não é um dos mocinhos da história, mas outro vilão deliciosamente interpretado por Jack O'Connell (o vampiro Remmick de Pecadores). Trata-se de um satanista que diz ser filho do Diabo e que criou uma espécie de religião para exercer o poder e cometer barbaridades.
Se Jimmy Crystal, em nome de seu "deus", prega a brutalidade sangrenta e exige sacrifícios humanos, o médico Ian Kelson (Ralph Fiennes, em atuação magnetizante) é um ateu que usa os conhecimentos científicos para dar um senso de ordem no caos. Mais do que isso: tenta estabelecer uma ponte com os infectados, quem sabe um diálogo. Graças a seus dardos tranquilizantes, o personagem permite-se aproximar do zumbi Alfa encarnado por Chi Lewis-Parry em Extermínio: O Templo dos Ossos. Se Jimmy é o ódio e a punição, Kelson é a esperança e a fraternidade. (HBO Max)
12) Marty Supreme (2025)

De Josh Safdie. Perdeu as nove categorias que disputava no Oscar, mas e daí? Esta alucinada comédia dramática se passa nos anos 1950, mas a trilha sonora inclui bandas dos 1980, como New Order e Tears for Fears. A trama é livremente inspirada na trajetória de Marty Reisman (1930-2012), um campeão do tênis de mesa. O charme natural de Timothée Chalamet provoca um contraste bem-vindo com os traços psicológicos de seu desprezível personagem, chamado de Marty Mauser em Marty Supreme: ele é egoísta, narcisista, ambicioso, inescrupuloso, inconsequente, trapaceiro. Não tem pudores para mentir, roubar, trair ou proferir piadas sobre a tragédia nos campos de concentração nazistas — "Eu sou judeu, posso falar", defende-se.
Marty trabalha como vendedor de sapatos na loja do seu tio Murray, em Nova York, enquanto também compete como jogador de pingue-pongue. O sonho do protagonista é o sonho americano: tornar-se o número 1 — porque a alternativa é ser um fracasso na vida. Para tanto, vale tudo. Josh Safdie pilota com maestria uma montanha-russa caótica e cheia de acidentes, desvios e becos sem saída. (Amazon Prime Video)
13) Obsessão (2025)

De Curry Barker. O filme sobre a paixão de Bear (personagem de Michael Johnston) por Nikki (Inde Navarrette, em atuação espantosa), sua colega de trabalho em uma loja de instrumentos musicais, é o fenômeno de bilheteria deste ano: orçado em US$ 750 mil, Obsessão já arrecadou US$ 150 milhões, ou seja, rendeu 200 vezes o que custou.
Passei mal ao assistir, porque a atmosfera é sufocante, ainda que aqui e ali haja alívio cômico. As cenas de violência são comedidas na quantidade, mas não na intensidade: o choque jamais se torna anestesiante pela repetição. Há pelo menos um susto capaz de fazer pular na poltrona. E a trama parte de um alerta clássico do gênero — "tenha cuidado com o que você deseja" — para realçar o horror de um drama muito real e presente: os relacionamentos tóxicos. (Em cartaz nos cinemas, com cópias dubladas e legendadas)
14) O Riso e a Faca (2025)

De Pedro Pinho. O título é inspirado na canção homônima (1970) do baiano Tom Zé. Seus versos sobre a dualidade humana são inclusive cantados pelos personagens durante viagem de carro. Interpretado por Sérgio Coragem, o protagonista é um engenheiro ambiental enviado por uma ONG de Portugal para Guiné-Bissau, na África Ocidental. Sua missão é avaliar o impacto da construção de uma rodovia entre o deserto e a floresta, uma obra vital para interesses de empresários portugueses, mas talvez prejudicial para a comunidade local. Lá, ele depara com dinâmicas neocoloniais e também se envolve com Diára, papel da atriz de Cabo Verde Cleo Diára, e Gui, um brasileiro não binário vivido por Jonathan Guilherme.
Com três horas e meia de duração, O Riso e a Faca talvez seja realmente mais longo do que o necessário, mas é um filme imersivo que, pelas mãos de personagens instigantes, nos transporta para um outro mundo que fica a um oceano de distância, mas no qual, como brasileiros e como cidadãos do século 21, vamos reconhecer muitos cenários e muitas questões. A dica é se deixar levar e se permitir ao transe que algumas cenas podem provocar. (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
15) Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria (2025)

De Mary Bronstein. O filme mescla comédia amarga, toques de terror e clima sufocante. A claustrofobia se estabelece na primeira cena, um close no rosto da psicóloga Linda (Rose Byrne, indicada ao Oscar e premiada no Festival de Berlim e no Globo de Ouro), para que o público sinta na pele a rotina infernal de uma mulher e uma mãe que está sempre exausta, sempre frustrada, sempre à beira de um colapso. Ora ela precisa lidar com o tratamento do raro e complicado transtorno alimentar de sua filha; ora sente a ausência do marido, que fica muitos dias longe de casa por causa do trabalho; ora o problema é um enorme vazamento que fez desabar o teto do apartamento onde moram; ora se vê obrigada a procurar uma paciente que desapareceu.
Todos esses problemas vão se acumulando, mas Linda, mesmo sem muita ajuda do psiquiatra (Conan O'Brien) e sendo cobrada o tempo todo, precisa dar conta de tudo. Nem sempre, ou talvez quase nunca, ela vai conseguir, mas Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria nunca cai na pieguice. Há sempre um elemento de comédia, mesmo que bizarra ou mórbida. E Rose Byrne nunca resvala para o melodramático. Com o rosto sempre vigiado pela câmera, a atriz equilibra nervosismo, impulsividade, impaciência, vulnerabilidade. (Telecine)
16) Sirât (2025)

De Oliver Laxe. Representou a Espanha no Oscar internacional e também competiu na categoria de som. Sirât acompanha a busca de um pai, Luis (Sergi López), por sua filha, desaparecida há alguns meses. Acompanhado pelo filho caçula, Estebán, ele chega a uma rave — uma festa ao ar livre com música eletrônica — no sul do Marrocos. Os dois vão empreender uma jornada angustiante pelo deserto do Saara, em meio a um contexto de guerra e tendo ao lado um grupo de festeiros — aliás, o filme valoriza bastante o caráter catártico da dança e seu poder de autoconexão e conexão com os outros.
Para quem vai assistir ao filme no streaming, há três requisitos básicos. O primeiro é não saber mais nada sobre a trama. O segundo é tentar simular a experiência imersiva de uma sala de cinema: apague as luzes, desligue o celular, se concentre. O terceiro é estar preparado para uma obra bastante sensorial e chocante. Fiquei profundamente abalado, mas acho que Sirât vai além do choque. Fala sobre a barbárie e o niilismo do mundo contemporâneo, mas também sobre como, de alguma forma, a humanidade segue criando vínculos; sobre como a gente precisa de uns dos outros, sobretudo nas horas ruins. Existe um horizonte. Tem de existir um horizonte. (Telecine)
17) Socorro! (2026)

De Sam Raimi. O filme é uma espécie de mistura entre dois reality shows: O Aprendiz e No Limite. É tanto uma história de busca pelo sucesso no mundo corporativo quanto uma história de luta pela sobrevivência em uma ilha deserta. Rachel McAdams interpreta Linda Liddle, uma executiva dedicadíssima ao trabalho, mas socialmente desajeitada, o que, em um ambiente machista e tóxico, a transforma em alvo de exclusão e de humilhações. Linda anseia por uma promoção há muito tempo prometida, mas o novo CEO da empresa, Bradley Preston (Dylan O'Brien), filho do falecido dono, concede o cargo a um playboy recém contratado, seu ex-colega de fraternidade universitária. Ela decide confrontá-lo e acaba convidada para uma desastrada viagem de negócios a Bangkok.
Ao filmar esse conflito de classes e esse jogo de sobrevivência, o diretor exagera tanto no terror, na violência e no grotesco que tudo se torna muito engraçado. Mas isso, claro, vai depender do seu estado de espírito e da companhia ao assistir a Socorro!. Na sessão de cinema, cenas como a do javali e a da "castração" provocaram gargalhadas, mesmo que talvez para sublimar o medo. (Disney+)
18) A Sombra do Meu Pai (2025)

De Akinola Davies Jr. Este drama semiautobiográfico valeu a Davies Jr. o prêmio Bafta de melhor estreia de diretor, roteirista ou produtor britânico, a menção especial da Caméra d'Or no Festival de Cannes, o troféu da crítica na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Gotham de cineasta revelação e melhor ator (Sope Dirisu).
Na trama, dois meninos (interpretados pelos irmãos Chibuike Marvellous Egbo e Godwin Egbo) que vivem com a mãe na zona rural da Nigéria se reconectam com Folarin (o personagem de Dirisu), seu pai distante, que aparece repentinamente. Os três partem para Lagos, a agitada capital, onde Folarin tenta receber um salário devido. O trajeto dos três pela cidade grande é tanto um ensaio sobre a paternidade e a masculinidade quando um passeio pela memória do país africano em meio à crise das eleições presidenciais de 1993. O diretor consegue equilibrar a narrativa familiar com o retrato político, e suas cenas combinam lirismo visual com momentos de contundência. (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
19) Surda (2025)

De Eva Libertad. Surda oralizada premiada com o Goya de atriz revelação, Miriam Garlo encarna Angela, uma mulher que se tornou surda antes de desenvolver a fala. Ela é casada com Hector (Álvaro Cervantes), um homem ouvinte que é bastante amoroso e inclusivo. Além de ter aprendido a língua de sinais, em um almoço com amigos, por exemplo, ele pede que falem um por vez e olhando para a esposa, de modo que ela possa fazer a leitura labial e acompanhar a conversa. O casal vive a expectativa pela chegada do primeiro filho, que pode ser menino ou menina. E que pode ser ouvinte ou não.
A jornada de Angela ilustra como a sociedade é excludente e despreparada para lidar com as pessoas que têm deficiência auditiva. Falta capacidade ou, no mínimo, falta empatia. E o que Surda faz é justamente convidar o espectador a se colocar no lugar do outro. Para fazer o público compreender a perspectiva e os sentimentos de Angela, a diretora adota um efeito sonoro semelhante ao de O Som do Silêncio (2019) — mas no filme espanhol seu emprego é mais abrangente, mais duradouro e, quem sabe, mais transformador. (Sessões na Sala Norberto Lubisco nesta terça, 2/6, e na quarta, 3/6, às 17h15min, com legenda descritiva, recursos de audiodescrição e Libras disponíveis pelo aplicativo Conecta)
20) A Voz de Hind Rajab (2025)

De Kaouther Ben Hania. Cortam como faca os pedidos de socorro feitos ao telefone por uma menina palestina de cinco anos que se torna a única sobrevivente da saraivada de tiros disparada pelo exército israelense contra o carro de uma família que fugia da Faixa de Gaza. "Venham me buscar." "Me salvem." "Eu estou morrendo."
A cineasta tunisiana reconstitui essa história devastadora e de burocracia kafkiana em A Voz de Hind Rajab, que mereceu o Grande Prêmio do Júri e 22 minutos de aplauso no Festival de Veneza e disputou o Oscar internacional. A trama se passa dentro das salas de atendimento de emergência da organização humanitária Sociedade do Crescente Vermelho Palestino. A ação se concentra nos telefonemas dos voluntários (interpretados por atores como Motaz Malhees e Saja Kilani) com a menina Hind Rajab (que só é vista em fotos ou ouvida nas ligações gravadas), seus familiares, paramédicos e autoridades palestinas. A concatenação entre a ficcionalização e o documental amplia o impacto emocional. (Canal Filmelier+ do Amazon Prime Video)
Bônus: Kill Bill: The Whole Bloody Affair (2025)

De Quentin Tarantino. Não poderia deixar de destacar o lançamento nos cinemas brasileiros da reedição especial, com uma sequência inédita em estilo anime e um curta-metragem após os créditos de encerramento, de Kill Bill: Vol. 1 (2003) e Kill Bill: Vol. 2 (2004), filmes que sempre foram considerados como um só por seu diretor e roteirista. Foi uma experiência sensacional rever na tela grande a saga de vingança da Noiva, personagem que imortalizou a atriz Uma Thurman entre os fãs do gênero de ação. (Para aluguel em Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play)
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