
Segundo filme mais visto na Netflix nesta segunda-feira (22), Resistência (The Creator, 2023) é uma aventura de ficção científica que, por um lado, surpreende: não demoniza a inteligência artificial nem custou uma fortuna para imaginar um futuro distópico e preenchê-lo com cenas de ação. Por outro, o filme dirigido por Gareth Edwards e estrelado por John David Washington é uma colcha de retalhos que parece ter sido feita por IA, reciclando ideias alheias e costurando muito mal os elementos emocionais.
O modelo, embora não assumido, é Interestelar (2014), de Christopher Nolan, de onde Resistência importou também o compositor Hans Zimmer. Inspirações declaradas são, logicamente, mais antigas, pois dá certo charme ser "referencial": o cineasta citou Lua de Papel (1973), Apocalypse Now (1979), Blade Runner (1982), E.T. (1982), Akira (1988), Rain Man (1988) e Baraka (1992).
O filme foi lançado mundialmente no dia 26 de setembro de 2023, no Fantastic Fest, na cidade texana de Austin, nos EUA. Quem esteve por lá, como integrante do júri oficial, foi João Pedro Fleck, um dos diretores do Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o Fantaspoa. Fleck testemunhou em primeira mão o auê feito em torno de Resistência: "A produção levou para a sessão alguns robôs com inteligência artificial, tornando a experiência ainda mais imersiva e inesquecível", contou. Apesar do roteiro cheio de clichês e banalidades, diante do visual impressionante e do ritmo trepidante não faltaram espectadores embasbacados. Alguns chegaram a definir a melhor sci-fi dos últimos anos.
O irônico é que o longa-metragem escrito pelo britânico Edwards com o estadunidense Chris Weitz — repetindo a parceria de Rogue One: Uma História Star Wars (2016) — começa como se fosse uma produção maniqueísta dos tempos da Guerra Fria. Essa referência parece ser assumida: telejornais com o estilo narrativo e a textura de imagem daquela época apresentam a evolução da inteligência artificial. Robôs se tornaram "mais humanos do que os humanos", sendo empregados nas mais diferentes funções, desde fritar hambúrgueres a cuidar da segurança pública. Mas, como na franquia O Exterminador do Futuro (1984-2019), na qual a Skynet decidiu instaurar o holocausto nuclear, em Resistência uma IA detona, em Los Angeles, uma ogiva que incinera 1 milhão de pessoas.

A trama de fato começa em 2065, quando humanos seguem travando uma guerra contra a inteligência artificial. Se dos anos 1950 à década de 1980 assistíamos à tensão entre EUA e URSS, Resistência funde o trauma do 11 de Setembro com o medo da expansão política, tecnológica e comercial da China: temos um Ground Zero, como o que surgiu em Nova York após o atentado de 2001, e o inimigo está abrigado na chamada Nova Ásia.
O futuro retratado pelos diretores de fotografia Greig Fraser — ganhador do Oscar por Duna (2021) — e Oren Soffer, com design de produção de James Clyne, mescla cenários reais e computação gráfica. Em entrevistas, Gareth Edwards disse que não queria trabalhar exclusivamente em estúdio, com as telas verdes ao fundo para a posterior inserção digital de ambientes e objetos.

Também não havia orçamento para a construção de grandes sets — o custo informado é de US$ 80 milhões, pouco menos da metade do supracitado Duna, para ficarmos no terreno da ficção científica. Saiu mais barato viajar por oito países, que incluem locações como a cidade de Tóquio, praias da Tailândia e os vulcões do Himalaia. Os efeitos visuais, que receberam indicação ao Oscar, também emprestam veracidade ao filme: raras vezes a tecnologia pareceu tão orgânica.
Vide, por exemplo, as cenas em que o protagonista interpretado por John David Washington coloca suas próteses de braço e de perna. Esse personagem, chamado de Joshua (em português, Josué, cujo nome quer dizer "Deus é a salvação"), é um agente das forças especiais dos EUA que está infiltrado entre os sofisticados robôs da Nova Ásia, os simulantes. Lá, ele acabou se apaixonando — mas é um romance sem química nenhuma, bastante artificial, com o perdão do trocadilho — pela personagem encarnada por Gemma Chan, Maya (que pode significar, entre outras possibilidades, "mãe" ou "ilusão"). A missão de Joshua é localizar e matar Nimrata, o Criador do título em inglês. Trata-se de um misterioso arquiteto de IA que teria desenvolvido uma arma capaz de acabar com a guerra. Ou seja, derrotar a humanidade.

Normalmente, eu daria um alerta de spoilers para o que vem a seguir.
Mas é óbvio que os militares estadunidenses, como o general Andrews (papel de Ralph Inneson) e a coronel Howell (Allison Janney, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante por Eu, Tonya), não são santos. E é claro que encontraremos afeto, honra e outras virtudes entre os guerrilheiros da Nova Ásia, como Harun, vivido pelo japonês Ken Watanabe.
Cartazes de Resistência, por sua vez, entregam que Joshua terá a companhia de uma criança, Alphie (a estreante Madeleine Yuna Voyles), em uma jornada que remete à da série The Mandalorian (2019-). Qualquer espectador acostumado a filmes do gênero saberá somar dois mais dois para desvendar um suposto mistério e vislumbrar o desfecho da história.
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