
De vez em quando, aparecem do nada na Netflix filmes que costumam figurar nas listas dos melhores de todos os tempos. Aconteceu na virada de 2025 para 2026 com Lawrence da Arábia (1962) e aconteceu agora com Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 1954).
Trata-se de um clássico multipremiado e bastante controverso.
Sindicato de Ladrões venceu o Oscar em oito categorias: melhor filme, direção (Elia Kazan), ator (Marlon Brando), atriz coadjuvante (Eva Marie Saint), roteiro (Budd Schulberg), fotografia em preto e branco (Boris Kaufman), edição (Gene Milford) e direção de arte (Richard Day). Tinha também uma indicação tripla ao troféu de ator coadjuvante: concorriam Lee J. Cobb, Karl Malden e Rod Steiger. Kazan recebeu o Leão de Prata no Festival de Veneza, e o título conquistou quatro Globos de Ouro: melhor filme de drama, direção, ator e fotografia em preto e branco.
Marlon Brando, que já havia disputado o Oscar por Uma Rua Chamada Pecado (1951), por Viva Zapata! (1952), ambos dirigidos por Kazan, e por Júlio César (1954), faz o protagonista da trama, o ex-boxeador Terry Malloy. É um sujeito rústico e alienado que trabalha nas docas de Nova York. O cais é controlado com mão de ferro pelo chefe do sindicato dos portuários, Johnny Friendly (papel de Lee J. Cobb).
Teddy sente-se culpado pelo assassinato de um trabalhador que ameaçava denunciar a corrupção e as atividades criminosas da máfia comandada por Friendly. Seu remorso aumenta quando se apaixona pela irmã da vítima, Edie Doyle (personagem de Eva Marie Saint). Sob a influência moral do padre Barry (Karl Malden), o protagonista passa a sofrer uma crise de consciência: fica dividido entre a lealdade ao sindicato e a obrigação moral de falar a verdade perante a Justiça.

"Sindicato de Ladrões tornou-se um clássico do cinema realista americano do pós-guerra" e é "uma tragédia grega moderna, onde o coro são os estivadores de um porto", escreveu o crítico Hiron Goidanich, o Goida, em Zero Hora no dia 11 de novembro de 1992. "O tema central do filme é o despertar de uma consciência. A saída da alienação, a busca da verdade, que torna as pessoas ao mesmo tempo perigosas e frágeis."
Vem daí uma das falas mais icônicas da história do cinema, quando Terry desabafa com seu irmão, Charley (Rod Steiger):
— Eu poderia ter sido um competidor. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou.

Mas a despeito das críticas positivas, dos prêmios conquistados e das interpretações memoráveis, Sindicato de Ladrões foi polêmico desde o berço. O filme é apontado por muitos como um elogio da delação, uma justificativa de Elia Kazan (1909-2003) para sua colaboração com a comissão de congressistas dos Estados Unidos empenhada em identificar os simpatizantes do comunismo em de Hollywood.
Essa comissão surgiu no contexto da política interna do país durante a Guerra Fria, a disputa entre EUA e União Soviética pela hegemonia mundial após a Segunda Guerra Mundial. Entre as vítimas do período, destaca-se o casal judeu Julius e Ethel Rosenberg. Acusados passar o segredo da bomba atômica aos soviéticos, eles foram executados em 1953 na câmara de gás.
Aqueles foram os tempos do macarthismo, a caça às bruxas liderada pelo senador Joseph McCarthy que destruiu carreiras, provocou inimizades para toda a vida e revelou a fragilidade do companheirismo entre artistas. No cinema, a época foi retratada em filmes como Testa-de-Ferro por Acaso (1976), de Martin Ritt, Culpado por Suspeita (1991), de Irwin Winkler, Cine Majestic (2001), de Frank Darabont, Boa Noite e Boa Sorte (2005), de George Clooney, e Trumbo: Lista Negra (2015), de Jay Roach. Em 1996, Nicholas Hytner filmou As Bruxas de Salem, versão de peça de Arthur Miller ambientada no fim do século 17 que faz uma parábola da caça aos comunistas.
Em 1952, Elia Kazan delatou oito ex-companheiros de militância comunista ao Comitê de Atividades Antiamericanas. Em Zero Hora do dia 21 de março de 1999, o professor e historiador Voltaire Schilling (1944-2022) escreveu sobre o diretor: "Ao perceber que seu nome se tornara um sinônimo de Judas, empenhou-se não só em justificar-se como fazer da delação uma virtude. Se John Ford, em 1935, pintara em O Delator o personagem Gypo Nolan, um militante irlandês que entregara seus camaradas aos ingleses, como um ser abjeto, Kazan agiu ao revés. Em 1954, com a ajuda de um outro delator, o roteirista Budd Schulberg, converteu o dedo-duro Terry Malloy num herói das lutas portuárias".
No mesmo texto, Schilling rememorou um encontro do cineasta com o dramaturgo Arthur Miller, que era seu amigo desde os tempos de teatro — em 1949, Kazan dirigiu a montagem original de um dos grandes sucessos de Miller, A Morte do Caixeiro-Viajante. Na conversa, Kazan, "frio, racional, confessou-lhe que decidira-se colaborar com o senador MacCarthy. Afinal, disse ele, não tinha mais nenhuma simpatia pelo comunismo e o chefão do estúdio da 20th Century Fox garantira-lhe que se o comitê não lhe limpasse a ficha, as portas estariam fechadas para ele".
A partir de depoimentos como o de Kazan, foi criada a chamada lista negra dos grandes estúdios. Um gênio de Hollywood, o inglês Charles Chaplin, por exemplo, teve seu visto revogado e exilou-se na Suíça. Já o roteirista Dalton Trumbo precisou escrever sob pseudônimo ou usar nomes de outros autores. Seu trabalho não creditado foi premiado duas vezes no Oscar: primeiro por A Princesa e o Plebeu (1953), depois por Arenas Sangrentas (1956).

Ao longo dos anos, Kazan abordou o assunto. Certa vez, confirmou que Sindicato de Ladrões era a sua resposta ao mundo, uma metáfora para dizer que dedurar uma organização corrupta era a atitude correta a se tomar. Mas em 1971, ao conceder uma entrevista, ele admitiu sentir ambivalência e certo desconforto, reconhecendo que "obviamente há algo de repugnante em entregar o nome de outras pessoas".
No filme Os Visitantes (1972), o cineasta novamente contou uma história semelhante: na trama, um veterano da Guerra do Vietnã leva uma vida tranquila com a família até receber a inesperada visita dos companheiros de farda que denunciou por terem estuprado e assassinado uma garota vietnamita. Na sua autobiografia oficial, publicada em 1988, Kazan disse que os nomes fornecidos já eram de conhecimento do comitê e argumentou que, como filho de imigrantes gregos, queria provar seu patriotismo aos Estados Unidos.
Em 1999, a entrega de um Oscar honorário a Elia Kazan, que também dirigiu Vidas Amargas (1955) e Clamor do Sexo (1961), causou revolta. Para o roteirista Bernard Gordon, que na época do macarthismo se viu obrigado a fugir para a Espanha, Kazan, por ter cartaz em Hollywood — antes da delação, já havia vencido o Oscar de direção por A Luz É para Todos (1947) e concorrido por Uma Rua Chamada Pecado —, poderia ter rompido com o processo macarthista se tivesse se recusado a testemunhar.
— Um crime prescreve ao término de alguns anos. Mas Kazan não cometeu um crime, mas um pecado, e o pecado do delator é muito grave em muitas religiões — afirmou Gordon.
Vale lembrar do poema A Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), onde o nono círculo do Inferno, como contou o colunista Roger Lerina em texto publicado nesta quarta-feira (3) em GZH, é o local mais profundo e terrível, destinado ao que o poeta considerava o pior dos pecados: a traição.
No dia da premiação da Academia de Hollywood, centenas de manifestantes reuniram-se do lado de fora do Dorothy Chandler Pavilion com faixas e cartazes chamando Elia Kazan de "traidor" e "dedo-duro". Quando o homenageado subiu ao palco para receber o Oscar das mãos de Martin Scorsese e Robert De Niro, atores como Meryl Streep, Warren Beatty e Kurt Russell aplaudiram de pé, mas Ed Harris, Nick Nolte e Amy Madigan, por exemplo, permaneceram rigorosamente sentados e não bateram palmas. No seu brevíssimo discurso, Kazan agradeceu à Academia pela "coragem e generosidade".
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