
O título original do novo filme de Steven Spielberg é Disclosure Day, cuja tradução pode ser Dia da Revelação. No Brasil, a Universal Pictures resolveu batizar como Dia D, o que faz sentido, mas também cria um ruído, ainda mais conhecendo a carreira do diretor.
Dia D pode soar como mais um filme de Spielberg sobre o desembarque das tropas aliadas na Normandia, durante a Segunda Guerra Mundial, como O Resgate do Soldado Ryan (1998), pelo qual ele conquistou o Oscar de melhor diretor. E a Segunda Guerra, não custa lembrar, é um dos temas recorrentes do cineasta. Foi cenário de mais cinco títulos: 1941 (1979), Os Caçadores da Arca Perdida (1981), Império do Sol (1987), Indiana Jones e a Última Cruzada (1989) e A Lista de Schindler (1993), oscarizado em sete categorias, incluindo melhor filme e melhor direção.
Mas Dia D, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (11), é sobre outro tema recorrente do Spielberg: a vida extraterrestre.

Um dos primeiros filmes caseiros do diretor, feito quando ele tinha 16 anos, se chama Firelight e retrata uma invasão alienígena aos subúrbios dos EUA pelos olhos de uma família desfeita — que é outro tema recorrente de Spielberg, mas essa é uma outra história.
Em 1977, ele lançou Contatos Imediatos do Terceiro Grau, que pode ser alugado em Amazon Prime Video, Google Play e YouTube. Na trama, Richard Dreyfuss interpreta um eletricista pacato e pai de família que enxerga objetos voadores não identificados, os OVNIs, pairando sobre a Terra como vaga-lumes. Aquelas luzes deixam o protagonista obcecado: são naves espaciais? Quem são os seres extraterrestres? O que querem por aqui? Paralelamente, o governo dos EUA e cientistas internacionais investigam uma série de fenômenos inexplicáveis e recebem misteriosos sinais musicais que indicam a chegada iminente de uma grande espaçonave.
Contatos Imediatos do Terceiro Grau custou US$ 19 milhões, o que era uma fortuna naquela época, mas teve um enorme retorno financeiro: arrecadou US$ 307 milhões nas bilheterias. Spielberg concorreu pela primeira vez ao Oscar de melhor direção, e o filme teve outras sete indicações, ganhando na categoria de fotografia.

Cinco anos depois, Spielberg fez um conto de fadas sobre nosso contato com a vida alienígena: E.T.: O Extraterrestre (1982), que também pode ser alugado em Amazon Prime Video, Google Play e YouTube. O filme narra a história da amizade entre o menino Elliot (vivido por Henry Thomas) e uma criatura de outro planeta que se perde nas florestas da Carolina do Norte.
Criado pelo artista italiano de efeitos especiais Carlo Rambaldi (1925-2012), o pequeno personagem de cabeça grande e rosto enrugado é capaz de curar com um toque de seu dedo luminoso e se descobre encantado por doces. Com a ajuda de seus irmãos, Elliot passa a proteger o alien e tentar fazer com que ele volte para seu planeta natal. Mas nessa jornada a turma se vê perseguida por forças do governo.
Este filme tem um um dos momentos mais mágicos da história do cinema: a cena do voo da bicicleta à frente da lua cheia, que se converteu no emblema da Amblin Entertainment, a produtora de Spielberg. E.T. foi indicado ao Oscar em nove categorias, incluindo melhor filme e direção, e ganhou em quatro: efeitos visuais, efeitos sonoros, som e música original — composta pelo lendário John Williams, que aos 94 anos segue na ativa: é dele a trilha de Dia D.
Orçado em US$ 10 milhões, E.T. foi o primeiro filme a superar a marca de US$ 700 milhões nas bilheterias e permaneceu na liderança do ranking mundial durante 10 anos, até ser ultrapassado por outro filme de Spielberg, Jurassic Park (1993). É um desses raros clássicos para todas as idades. Cativa seja pelo lado aventureiro, seja pela mensagem sobre amizade e tolerância com o diferente, seja pela magia dos efeitos, seja pelo caráter nostálgico que, com o passar do tempo, adquiriu junto aos mais velhos.
O próprio Spielberg, em uma entrevista de 2002, disse que E.T. é um filme muito mais atemporal do que ele achava. Nessa mesma conversa, o diretor acrescentou:
— E fala muito da minha vida. O menino no meio de sua família, com os pais recém-divorciados. Esse garoto solitário que busca a amizade, uma relação afetiva intensa que poderia compensar a ausência do pai. Elliot é o garoto que eu sempre quis ser. Como diretor, pude inventar um herói que é mais valente do que eu fui durante a minha infância.

Spielberg demorou mais de 20 anos para voltar a filmar extraterrestres, e desta vez a história não foi nada bonitinha, como em E.T., nem a chegada dos alienígenas é encarada como uma experiência grandiosa de conexão, como em Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Em Guerra dos Mundos (2005), que está no menu do Paramount Plus e também pode ser alugado em Amazon Prime Video, Google Play e YouTube, os extraterrestres são uma terrível ameaça à humanidade.
Quando o diretor Roland Emmerich lançou Independence Day, em 1996, os EUA se consideravam imbatíveis. Para derrotar o ataque vindo do espaço, bastaram quatro homens que personificavam quatro marcas do país: a força do indivíduo sobre o coletivo (o próprio presidente estadunidense, papel de Bill Pullman), o poderio militar (o piloto interpretado por Will Smith), o desenvolvimento tecnológico (o gênio da informática encarnado por Jeff Goldblum) e a crença na segunda chance (o caminhoneiro alcoólatra vivido por Randy Quaid).
Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os EUA passaram a viver a cultura do medo. Foi à luz desse temível mundo novo que Spielberg retomou em Guerra dos Mundos o clássico escrito em 1898 por H.G. Wells que descreve uma invasão marciana e atualizou a alegoria dos alienígenas aos olhos dos estadunidenses: se na época da Guerra Fria podiam simbolizar o comunismo, no começo do século 21 podiam representar o terrorismo.
Decalcada das páginas iniciais do livro, a narração do ator Morgan Freeman abre o filme contando como os humanos se sentiam soberanos na Terra — assim como os estadunidenses antes que membros do Al-Qaeda sequestrassem aqueles aviões. Também como na obra original, o ataque é visto sob a perspectiva de um sujeito comum: o estivador Ray (papel de Tom Cruise), um pai divorciado.
O protagonista está recebendo os filhos para passarem o fim de semana quando gigantescas máquinas de destruição irrompem do solo, pessoas são desintegradas por raios e o pânico domina a multidão. Atônitos e cobertos pela poeira, como os sobreviventes do World Trade Center, os moradores fogem, abandonando suas casas decoradas com bandeirinhas dos EUA à porta. Mais adiante, cartazes de desaparecidos vão aludir às vítimas do 11 de Setembro, e um personagem vai encarnar a paranoia da insegurança. A filha pequena de Ray, vivida por Dakota Fanning, pergunta com todas as letras:
— São os terroristas?
Em Guerra dos Mundos, Spielberg exibe toda sua maestria para gerar cenas que impactam, angustiam e apavoram. Esse objetivo tem como aliados o uso sensacional dos efeitos visuais e a ausência da figura heroica: Ray está tão assustado quanto seus filhos. O filme foi um dos mais caros na trajetória do diretor, com orçamento de US$ 132 milhões, mas se tornou a quarta maior bilheteria daquela temporada, com US$ 603 milhões arrecadados.

Passaram-se mais 20 anos para Steven Spielberg voltar a falar sobre extraterrestres. Segundo o próprio diretor, Dia D tem uma diferença fundamental em relação a Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T. e Guerra dos Mundos. Em entrevistas, ele disse que não encara totalmente como ficção científica este novo filme, que foi escrito por David Koepp — seu parceiro em outros quatro longas, incluindo Guerra dos Mundos — a partir de uma história de Spielberg.
Conforme Spielberg, Dia D não surge apenas da imaginação, mas também das discussões e descobertas que vêm ganhando espaço no mundo real. Agora em maio, por exemplo, os EUA divulgaram um pacote de arquivos sobre OVNIs. O cineasta considera que agora há evidências circunstanciais suficientes de visitas de ETs à Terra para ele se sentir apto a afirmar:
— Minha crença mudou. Este não vai ser meu último filme de ficção científica. Mas é, sim, a minha conclusão final de que não estamos sozinhos.
Qual é a trama de "Dia D"?

Dia D (Disclosure Day, 2026) começa em um cenário estranho para esse tipo de filme: um ringue de luta livre. Mas logo surge na plateia, meio alheio àquilo tudo, um dos personagens principais, Daniel Kellner, um especialista em segurança cibernética interpretado pelo sempre carismático Josh O'Connor (ator inglês de Rivais e Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out).
Ele está ali para se encontrar com agentes de uma empresa chamada Wardex, que mantém como refém a sua namorada, Jane, vivida por Eve Hewson, atriz filha de Bono, o vocalista da banda U2. O chefão da Wardex, Noah Scanlon, é encarnado por Colin Firth, vencedor do Oscar de melhor ator por O Discurso do Rei (2011). Ele quer que Daniel devolva todos os arquivos de vídeo e documentos que roubou, além de um objeto denominado simplesmente de dispositivo.
Esse dispositivo não é o que o mestre do suspense Alfred Hitchcock (1899-1980) chamaria de MacGuffin, um objeto importante mas insignificante na trama. Só que convém não explicar o que se pode fazer com o artefato, porque isso seria cometer um baita spoiler.

O que dá para dizer sem estragar surpresas é que, obviamente, os documentos e objetos que Daniel tem em mãos revelam um segredo escondido a sete chaves por governos e militares, comprovando a existência de vida inteligente fora da Terra. É como diz a freira interpretada por Elizabeth Marvel, a Irmã Maura, a certa altura:
— Por que Deus criaria um universo tão vasto e guardaria só para nós?
Mas Scanlon faz um alerta: a História não tem botão de reiniciar. Se Daniel soltar as informações, não há volta. Por isso, o trabalho da Wardex, como bem resume um personagem coadjuvante vivido por Colman Domingo (indicado ao Oscar de melhor ator por Rustin e Sing Sing e possível candidato ao prêmio de coadjuvante em 2027 na pele do pai do protagonista na cinebiografia Michael), é sufocar, infantilizar e ridicularizar as vozes de quem diz ter visto discos voadores e seres alienígenas.
Scanlon é o vilão do filme, mas suas preocupações não deixam de ser legítimas: como a humanidade reagiria a essa descoberta? Estamos prontos para abandonar a ideia de que somos o centro do universo? O contato real com ETs provocaria medo, conflitos, talvez nossa sanha de dominar e de explorar comercialmente tudo o que for possível ou despertaria nossas melhores virtudes, como a busca por conhecimento, a empatia e a cooperação?

Também dá para dizer, já que Emily Blunt estampa os cartazes de Dia D, que obviamente a jornada de Daniel vai se cruzar com a da sua personagem: Margaret Fairchild, jornalista que comanda a previsão do tempo em um canal de TV de Kansas City. A inglesa que disputou o Oscar de coadjuvante por Oppenheimer (2023) está maravilhosa no papel de Maggie, combinando espanto, coragem, humor e ternura. Já é nome forte nas apostas para a categoria de melhor atriz na premiação da Academia de Hollywood do ano que vem.
Também dá para dizer que Dia D, sendo um filme de Spielberg, obviamente tem pelo menos uma cena de ação espetacular. Orquestrada em colaboração com o diretor de fotografia Janusz Kaminski (ganhador do Oscar por A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan), a montadora Sarah Broshar (que trabalha com o cineasta desde The Post: A Guerra Secreta e agora assumiu o posto de titular, após a aposentadoria de Michael Kahn), o designer de produção Adam Stockhausen (oscarizado por O Grande Hotel Budapeste), o compositor John Williams e as equipes de som, efeitos visuais e efeitos sonoros, a sequência do trem é capaz de causar inveja na franquia Missão: Impossível.
E também dá para dizer que, sendo um filme de Spielberg, Dia D tem aquele otimismo gostoso e reconfortante, aquela defesa apaixonada da conexão humana e da empatia, uma crença inabalável de que o futuro pode ser melhor. Eu não sei se a gente vai conseguir, se a gente está mesmo disposto a ouvir — palavra-chave neste filme — e a ajudar os outros. Mas é um mundo bom este em que Steven Spielberg, prestes a completar 80 anos, em dezembro, continua nos brindando com obras como Dia D, que honra grandes momentos do diretor ao misturar mistério, aventura, drama e ficção científica e ao provocar tensão, reflexão e muita emoção: chorei como se estivesse vendo E.T. pela primeira vez.
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