
O Apple TV estreia nesta sexta-feira (5) os dois primeiros episódios de Cabo do Medo (Cape Fear, 2026), série estrelada por Javier Bardem, Amy Adams e Patrick Wilson que reimagina a história contada no romance The Executioners (1957), de John D. MacDonald, e nos filmes Círculo do Medo (1962), de J. Le Thompson, e Cabo do Medo (1991), de Martin Scorsese. Os outros oito capítulos serão lançados semanalmente, até o dia 31 de julho.
A série foi desenvolvida por Nick Antosca, um dos criadores da minissérie O Ato (2019), e o time de diretores inclui Morten Tyldum, indicado ao Oscar por O Jogo da Imitação (2014), Amanda Marsalis, dos seriados Ozark e The Pitt, Reed Morano, premiada no Emmy por O Conto da Aia, e Stephen Williams, de Watchmen.
Na nova adaptação de Cabo do Medo, o espanhol Javier Bardem, vencedor do Oscar de coadjuvante por Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), na pele do assassino profissional Anton Chigurh, encarna outro vilão antológico: Max Cady, personagem que em 1992 rendeu a Robert De Niro uma indicação da Academia de Hollywood na categoria de melhor ator. Como na trama original, Max, após passar muitos anos preso, ganha a liberdade e quer se vingar de quem deveria defendê-lo no tribunal de justiça, mas acabou trabalhando para sua condenação.

Como no filme de Scorsese, as tatuagens de cunho religioso no corpo de Max continuam sendo personagens à parte, e a trilha sonora assinada por Jeff Russo, a exemplo do que fez Elmer Bernstein em 1991, preserva a icônica música composta pelo lendário Bernard Herrmann para o clássico de 1962. O tema orquestral com quatro acordes descendentes de metais — como trombone e trompa — que se combinam a cordas lancinantes cria tensão, reflete a natureza cíclica da retaliação e confere uma unidade às três adaptações do romance de John D. MacDonald.
Mas há diferenças importantes na versão de Nick Antosca. Para começo de conversa, Max ganha um passado traumático e pode não ter cometido o crime brutal que provocou sua prisão. Interpretado por Patrick Wilson (o Ed Warren da franquia de terror Invocação do Mal), Tom Bowden não era seu advogado, mas o promotor do caso. Max tinha uma defensora, Anna, personagem de Amy Adams (dona de seis indicações ao Oscar) que acabou se casando com Tom. O número de filhos adolescentes dobrou: agora, o casal tem Natalie (papel de Lily Collias) e Zach (vivido por Joe Anders, cujos pais são o cineasta Sam Mendes e a atriz Kate Winslet).

As mudanças na trama e seu alongamento em 10 episódios abrem a possibilidade de a série Cabo do Medo surpreender o espectador já familiarizado com o enredo e permitiram a Antosca, nas suas palavras, atualizar a história para "uma época em que ninguém consegue concordar sobre o que é verdade". No novo Cabo do Medo, os personagens são moralmente mais ambíguos e vivem incertos sobre as ações uns dos outros. A desconfiança deixa de ser um saudável alarme interno para se transformar em uma explosão de paranoia.
Os cenários e a linguagem visual são fundamental para alicerçar essa proposta. O calor e a umidade das locações em Savannah, no Estado da Geórgia, tanto refletem o estado psicológico dos personagens como contribuem para a atmosfera opressiva. Os diretores de fotografia por vezes investem em movimentos de câmera desorientadores e costumeiramente trabalham de forma voyeurística, com enquadramentos distantes e linhas de visão obstruídas. A ideia é dar a sensação de que a família Bowden está sempre sendo observada.
Espelhos, por sua vez, podem refletir o perigo, como na cena em um banheiro na qual a figura de Max Cady se multiplica, cercando o garoto Zach. E vale acrescentar o emprego, aqui e ali, de imagens em negativo, como no processo analógico de revelação fotográfica, o que sugere a existência de verdades ocultas, segredos sombrios e desejos reprimidos.
Entrevista com criador e elenco de "Cabo do Medo"

Na segunda-feira (1º), em uma rodada de entrevistas na qual GZH foi o único veículo de imprensa brasileiro a participar, Antosca e os cinco atores falaram sobre a permanência de Cabo do Medo, as mudanças efetuadas na trama e características dos personagens. Confira:
"Clima de paranoia e pavor", diz Nick Antosca

Por que recriar Cabo do Medo? O que você acha mais fascinante na história?
Existe um legado muito rico por trás desta história. Cabo do Medo é um pesadelo atemporal, e queríamos honrar as versões que nos precederam, mas também queríamos fazer algo novo. Para mim, uma adaptação deve ser como o pesadelo que você tem depois de assistir ao original, e você vai dormir absorvendo elementos viscerais e detalhes-chave que te impactaram, e então novas coisas surgem. Ela se torna algo próprio. Esta versão, eu acho, reflete a cultura em que foi feita, assim como as versões anteriores. Vivemos numa época em que ninguém consegue concordar sobre o que é verdade, então na série há uma atmosfera de paranoia, incerteza e pavor, e a ideia de que ameaças podem vir de qualquer lugar. Há também um mistério sobre as verdadeiras intenções de Max Cady. Tudo isso, para mim, pareceu muito contemporâneo e muito assustador. Espero que a série honre as versões anteriores, mas também tenha muitas surpresas, reviravoltas e elementos únicos.
Nos dois filmes, sabíamos que Max Cady era um vilão capaz de cometer atos horríveis. Mas na série o personagem é mais ambíguo, e Anna e Tom não têm certeza sobre as ações de Max. Você pode falar sobre o processo de criação da versão moderna do personagem?
Uma das primeiras coisas que eu queria fazer, e o que propusemos a Stephen e Marty (os cineastas Steven Spielberg e Martin Scorsese, produtores executivos da série), foi a ideia de que a vida dessa família e sua felicidade são totalmente construídas sobre o sofrimento de Max Cady. Ele não é uma figura incidental e esquecida do passado deles, como nas versões anteriores. Na série, tanto o marido quanto a esposa estiveram envolvidos no julgamento. Um era o promotor e a outra, a advogada de defesa, e eles se casaram por causa do julgamento e tiveram filhos por causa disso. Portanto, a condenação de Max e o seu sofrimento são a base da felicidade dos Bowden. Além disso, nesta versão Max Cady é solto da prisão não por que cumpriu sua pena, mas porque novas evidências vieram à tona. Assim, diferentemente das versões anteriores, onde não há dúvidas de que Max é culpado do crime pelo qual foi condenado, aqui nos perguntamos: ele tem razão para sua vingança? Seja lá o que ele faça a eles, podemos culpá-lo? E se você sofreu uma injustiça, o que é justificável fazer em resposta?
Você diz que é interessante pensar que Max talvez tenha sido condenado injustamente. Mas você não fez apenas isso: você também o transformou em uma espécie de vítima de algo muito traumático que aconteceu no passado. Por quê?
Construímos o personagem para provocar o público a fazer perguntas e questionar suas próprias simpatias, então é importante que vejamos a evolução da raiva de Max, na minha opinião, e eu queria que o público pudesse simpatizar com ele às vezes, ter medo dele em outras e ser seduzido por ele.
Martin Scorsese disse que Cabo do Medo (1991) era um filme sobre "punição para tudo aquilo que excite sexualmente o ser humano, a batalha moral básica da ética cristã". Na série, a sexualidade também é algo perigoso, os personagens se colocam em risco por causa de sexo?
Para Max Cady, tudo é uma arma. Ele encontrará uma maneira de explorar as vulnerabilidades das pessoas, não da mesma forma que nos filmes de 1991 ou 1962, mas encontrará maneiras de seduzir os membros da família, explorando seus pontos mais vulneráveis.

Além dos filmes de 1962 e de 1991, que obras influenciaram a série Cabo do Medo?
Só para dar alguns exemplos do que discutimos na sala dos roteiristas, temos o filme Caché (2005), de Michael Haneke. Há um filme chamado Borgman (2013), do diretor holandês Alex van Warmerdam, que eu adoro. As séries de TV Losing Alice (2020) e The Curse (2023-2024) também foram influências. Todas essas histórias são sobre vulnerabilidades, ameaça, paranoia e voyeurismo e foram bastante influentes em diferentes aspectos da narrativa, tanto na estética visual quanto na escrita do roteiro.
A série parece explorar mais o terror do que os filmes, certo?
Para mim, Cabo do Medo é a história da destruição de uma família que se sente segura. É uma fábula moderna sobre uma família americana privilegiada sendo aterrorizada por um monstro. E a ideia de que ele seria capaz de desmantelar lentamente a família, encontrar vulnerabilidades invisíveis sob a superfície, afastar psicologicamente as crianças e separar o marido e a esposa, para mim esse é o aspecto mais assustador da trama. Essa é uma das razões pelas quais era importante que a família fosse construída a partir do sofrimento dele, e também uma razão para fazer isso como uma série de TV em vez de um filme, porque há mais espaço narrativo para mostrar uma família sendo insidiosamente destruída. Acho que o Cabo do Medo de 1991 é frequentemente classificado como um thriller, mas eu sempre o vi como um filme de terror. É um pesadelo febril e intenso sobre um monstro que vem atrás de uma família, e quando você vê como Max Cady fica no final, queimado, ele é quase como Freddy Krueger.
"Max Cady é um predador paciente", diz Javier Bardem

Eu li que, para compor o personagem Max Cady, você usou uma referência animal, a pantera da Flórida. Pode falar sobre o processo de criação do seu personagem na série, tanto no aspecto corporal quanto em relação a sua bagagem emocional?
Existe uma certa ameaça, um componente animal no Max Cady que sempre esteve lá. Algo tão físico, mas que também precisa ser atraente. Precisa ser algo que prenda o olhar. E, ao mesmo tempo, quanto menos você espera, mais ele pode te atacar. Esse animal, a pantera da Flórida, é muito assim. E eu gosto da aparência dele. E nós, junto com a incrível equipe de maquiagem e cabelo, seguimos nessa direção e tentamos incorporar um pouco disso. Um predador paciente. Eu também pensei em uma galinha, mas achei que a pantera era mais adequada.
"Anna se torna sua própria inimiga", diz Amy Adams

Você pode falar sobre o dilema de Anna, que, como advogada, não consegue tratar o Max do mesmo modo que trata seus outros clientes?
Acho que ela realmente luta com a hipocrisia. Ela entende isso e sente muita culpa e vergonha a respeito, e também tem uma compreensão mais profunda do perigo que Max representa, não só para ela, mas para todos. Ela não confia em si mesma, então se encontra em uma situação muito delicada, onde seu espírito quer acolher Max como um cliente e como alguém que foi injustiçado, mas o entendimento de que ele tem culpa, embora ela não saiba exatamente como e de que, começa a afetá-la profundamente, e ela se torna sua própria pior inimiga, tanto quanto ele se torna o inimigo dela.
"Natalie continua marionete de Max", diz Lily Collias

No filme de 1991, Max Cady podia ser visto como um catalisador da sexualidade latente de Danielle, a filha adolescente dos Bowden. O que a Natalie tem de semelhante e de diferente em relação à personagem vivida pela Juliette Lewis no filme de Scorsese?
O que eu posso dizer é que a dinâmica entre a personagem e Max mudou. Mas ela ainda continua sendo, como na versão de 1991, uma espécie de marionete no jogo dele. Então, aquela ingenuidade, aquela juventude que realmente quer encarar as coisas de braços abertos, são usadas e sabotadas por Max, como no filme de 1991, mas de uma maneira diferente, que eu acho ainda mais perversa e, ao mesmo tempo, encantadora.
"Zach tem uma escuridão dentro de si", diz Joe Anders

Seu personagem, Zach, foi criado especialmente para a série. O fato de não haver uma encarnação prévia dele aumentou o seu desafio como ator ou foi algo positivo?
Achei isso muito positivo, porque tive a liberdade de criar qualquer personagem que eu visse no roteiro. E a pessoa que eu estava lendo era realmente interessante e incrivelmente complexa, e foi ótimo que eu não tivesse nenhuma ideia preexistente sobre ela. Então, foi muito divertido e gratificante poder criar alguém completamente do meu jeito. O Zach tem muita escuridão dentro de si, o que eu acho que às vezes foi bem difícil de conter durante um período de filmagem tão longo. Era bem estranho ir trabalhar na maioria dos dias e ter que fazer coisas que eu jamais imaginaria fazer. Ao longo de todos esses 10 episódios, eu estava interpretando esse cara que... Não quero revelar muito, mas a trajetória dele, acho que fica bem claro desde o início, não é ascendente. Tudo está em espiral desde o começo. Você tem essa linda imagem de uma família e aí o Zach e todo o seu caos estão em algum lugar ali do outro lado.
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