
O governo federal, em parceria com o Ministério da Cultura, lançou no dia 30 de maio o Tela Brasil, um serviço de streaming público e totalmente gratuito. A plataforma se dedica à produção nacional de filmes e séries e quer ser um espaço digital para a memória do audivisual brasileiro.
Por enquanto, o Tela Brasil só pode ser acessado na versão web, no site telabrasil.cultura.gov.br. Até o final de junho, devem entrar no ar os aplicativos para Android e iOS. Atenção: para entrar, é preciso usar a a senha da sua conta gov.br.
Nesta largada, a plataforma tem mais de 500 títulos disponíveis, que incluem tesouros da chanchada, como Carnaval Atlântida (1952), de José Carlos Burle, e O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga, curtas-metragens clássicos, como Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado, todos presentes na lista dos 100 filmes brasileiros essenciais elaborada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).
Há também sucessos de bilheteria, como Carandiru (2003), de Héctor Babenco, e Olga (2004), de Jayme Monjardim, além de quatro indicados ao Oscar: as ficções O Quatrilho (1995), de Fábio Barreto, e O que É Isso, Companheiro? (1997), de Bruno Barreto, e os documentários Lixo Extraordinário (2010), de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, e O Sal da Terra (2014), de Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders.
Eu fiz uma peneira e separei 10 longas que considero imperdíveis. A ordem é apenas cronológica. Clique nos links se quiser saber mais.
1) O Cangaceiro (1953)

De Lima Barreto. Produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz e com diálogos escritos pela romancista Rachel de Queiroz, foi um dos primeiros filmes brasileiros a circular com força fora do país - na França, onde recebeu prêmios no Festival de Cannes, ficou cinco anos em cartaz. A trama segue o bando do Capitão Galdino, encarnado por Milton Ribeiro, que sequestra a professora Olívia (Marisa Prado) em pleno sertão. A discórdia se instaura quando ele e outro cangaceiro, Teodoro (papel do ator gaúcho Alberto Ruschel), se apaixonam pela mulher cativa. Este clássico aproxima o cangaço do imaginário do faroeste, mas encontra identidade própria no uso, por exemplo, da paisagem e da música regional (vide o chachado Mulher Rendeira, interpretado pela também atriz Vanja Orico).
2) Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)

De Glauber Rocha. Um dos filmes mais importantes do Cinema Novo, acompanha Manuel e Rosa, vividos por Geraldo Del Rey e Yoná Magalhães, depois que o camponês mata o patrão e foge pelo sertão nordestino. A travessia aproxima o casal de figuras como o beato Sebastião e o cangaceiro Corisco, em uma história sobre a opressão dos coronéis, o fanatismo religioso e a revolta popular. Como escreveu o crítico Daniel Feix, "a inspiração na literatura de cordel foi o caminho para explorar o lado místico daquelas relações sociais. Acabou sendo fundamental para dar transcendência ao filme e dotá-lo de uma eterna e inabalável atualidade". Outro crítico, André Setaro, apontou a modernidade da narrativa: "Deus e o Diabo na Terra do Sol instaura um novo paradoxo estético ao conjugar várias influências", que vão da tragédia grega ao faroeste, de Eisenstein a Kurosawa e Buñuel.
3) São Paulo Sociedade Anônima (1965)

De Luiz Sérgio Person. Gaúcho de Alegrete, o ator Walmor Chagas interpreta Carlos, um jovem de classe média que tem carreira ascendente na emergente indústria automobilística nacional. O vácuo existencial leva o protagonista a abandonar o emprego, o filho pequeno e a esposa (Eva Wilma). São Paulo Sociedade Anônima continua atual tanto por sua linguagem narrativa e sua estética quanto pelo retrato da desumanização do trabalho e da alienação urbana.
4) A Hora da Estrela (1985)

De Suzana Amaral. Adaptação do romance homônimo de Clarice Lispector, o filme revelou para o mundo uma das maiores atrizes brasileiras, a paraibana Marcélia Cartaxo, que tinha 21 anos. No papel de Macabéa, jovem nordestina que enfrenta precariedades e a solidão em São Paulo, ela ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim.
5) Terra Estrangeira (1995)

De Walter Salles e Daniela Thomas. Filmado em preto e branco, traz Paco (Fernando Alves Pinto) e Alex (Fernanda Torres) como brasileiros à deriva depois do confisco da poupança no governo Collor. Ele cruza o Atlântico, ela tenta sobreviver em uma Lisboa igualmente áspera, e a promessa de recomeço logo se confunde com contrabando, perda e desamparo.
6) Gêmeas (1999)

De Andrucha Waddington. Adaptação de uma história de Nelson Rodrigues, tem Fernanda Torres em dose dupla como Iara e Marilena, irmãs idênticas que confundem desejo e rivalidade. A relação entre as duas começa como jogo de espelhos e se torna ameaça quando ambas se envolvem com o mesmo homem. O filme troca a farsa mais evidente de Nelson por uma atmosfera de thriller, em que a duplicidade ganha contornos cada vez mais sombrios.
7) Quase Dois Irmãos (2004)

De Lúcia Murat. Estrelado por Caco Ciocler e o gaúcho de Santa Maria Flávio Bauraqui, Quase Dois Irmãos mostra os bastidores do surgimento do Comando Vermelho (à época ainda sob o nome de Falange Vermelha) a partir da aproximação entre presos políticos dos tempos da ditadura militar e criminosos comuns das favelas cariocas no Presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro.
8) Cinema, Aspirina e Urubus (2005)

De Marcelo Gomes. O hoje pulsante cinema pernambucano é representado por um dos filmes que marcaram a sua ascensão. A trama de Cinema, Aspirina e Urubus se passa em 1942 e acompanha o convívio entre um mascate alemão fugido da Segunda Guerra Mundial (papel de Peter Ketnath) e um retirante (personagem de João Miguel) que deseja driblar a fome e a miséria seguindo em direção ao Rio de Janeiro.
9) O Mercado de Notícias (2014)

De Jorge Furtado. O documentário discute o papel da imprensa e sua influência na democracia. Usando encenações teatrais e entrevistas com jornalistas renomados, como Janio de Freitas, Luiz Nassif, Mino Carta e Geneton Moraes Neto, o diretor gaúcho espelha nos dias de hoje a atualidade de questões éticas da profissão observadas por um dramaturgo inglês no século 17, Ben Jonson, autor da peça The Staple of News (traduzida como O Mercado de Notícias).
10) Central: O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil (2017)

De Tatiana Sager e Renato Dornelles. O documentário entra no antigo Presídio Central de Porto Alegre, que já foi considerado o pior do Brasil. Com depoimentos de presos, familiares, agentes penitenciários e autoridades, Central confronta o discurso oficial com imagens de uma estrutura degradada e de uma rotina marcada pela superlotação. A única forma de manter cerca de 4,5 mil detentos onde a capacidade é para 1.905 é deixá-los de fora das minúsculas celas. Ficam soltos nas galerias, administradas por eles mesmos sob o controle de seis diferentes facções.
* Colaborou João Vítor Debiasi
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