
No clima da Copa do Mundo de 2026, que começa em 11 de junho, a Netflix vem destacando histórias e personagens marcantes do principal campeonato de futebol. Em abril, lançou o documentário em três partes Ronaldinho Gaúcho. No dia 13 de maio, estreou outra produção documental, A Greve da Seleção da França, sobre o vexame dos chamados Bleus no Mundial de 2010, na África do Sul. Nesta quinta-feira (28), a plataforma adicionou ao menu Dibu Martínez: O Garoto que Parava o Tempo, que mescla animações, imagens de arquivo e entrevistas para contar a história do goleiro que foi herói da Argentina na conquista de 2022, no Catar.
Nesta sexta-feira (29), é a vez de Brasil 70: A Saga do Tri, minissérie em cinco episódios que apresenta uma versão ficcional da vitoriosa campanha da Seleção Brasileira em 1970, no México, reconstituindo a preparação, os bastidores, os jogos e os gols (clique aqui para ler entrevista com os atores que interpretam Pelé e Zagallo).
Em 5 de junho, chega México 1986, filme estrelado por Diego Luna sobre as articulações políticas e a operação caótica do segundo torneio no país da América Central. E em 7 de junho, o doc Tetra: Acreditar de Novo, que inclui imagens inéditas feitas pelos próprios jogadores do time treinado por Carlos Alberto Parreira em 1994, nos Estados Unidos.
Brasil 70: A Saga do Tri foi criada por Rafael Dornellas e Naná Xavier e é uma coprodução entre a Netflix e a O2 Filmes. A direção geral é assinada por Paulo Morelli e seu filho, Pedro Morelli, com episódios dirigidos também por Quico Meirelles.
Três personagens reais têm protagonismo. Rodrigo Santoro empresta carisma, destemor e, depois, ressentimento a João Saldanha (1917-1990), o gaúcho de Alegrete que treinou e classificou a Seleção Brasileira nas Eliminatórias, com seis vitórias em seis jogos, 23 gols a favor e apenas dois contra, mas acabou demitido a menos de três meses do início da Copa. Pesou o contexto político, que pauta muitas das ações na série.

Aqueles eram os tempos dos chamados anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, o período de maior repressão e perseguição aos opositores. Saldanha era, literalmente, esquerdista de carteirinha — foi militante e dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) —, portanto, já não gozava da simpatia do gaúcho de Bagé que então mandava no país, Emílio Garrastazu Médici (1905-1985). A gota d'água foi quando Médici pediu a convocação do centroavante Dario, o Dadá Maravilha. O técnico recusou e, em uma entrevista coletiva, provocou:
— Nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala a Seleção.
Saldanha não deixou de ir para o México, mas como comentarista das transmissões narradas por Eusébio Teixeira, um locutor fictício encarnado por Marcelo Adnet. Na tribuna de imprensa, o ex-treinador vive alfinetando seu substituto, Mário Jorge Lobo Zagallo (1931-2024). Interpretado por Bruno Mazzeo, Zagallo é um tipo curioso, um exemplo da ambiguidade humana.

Por um lado, Zagallo é um homem da ciência, no sentido de estudar e implementar esquemas táticos que permitiram acomodar no mesmo time cinco camisas 10: Pelé, Gérson, Tostão, Rivellino e Jairzinho. Por outro, é um sujeito supersticioso, notoriamente apegado ao número 13, e religioso, devoto fervoroso de Santo Antônio e de Nossa Senhora Aparecida.
O terceiro personagem principal é simplesmente Edson Arantes do Nascimento, o Pelé (1940-2022). Quem interpreta o Rei do Futebol é um ator estreante, Lucas Agrícola, 35 anos, que chegou a disputar campeonatos na várzea de sua cidade natal, Santa Bárbara D'Oeste (SP). Aliás, o elenco mescla atores que sabem jogar bola, como Ravel Andrade (o Tostão), Gui Ferraz (o Jairzinho) e Hugo Haddad (o goleiro Félix); artistas que tentaram fazer carreira nos gramados, como Daniel Blanco (o Rivellino) e Caio Cabral (o lateral-direito Carlos Alberto Torres); e ex-jogadores profissionais, caso de Filippe Soutto (o Gérson), 35 anos, que foi volante e meia do Atlético-MG, do Náutico, do Vitória, do Ituano e do Botafogo-SP.

Além de ser muito parecido fisicamente, Agrícola deu conta do recado na caracterização psicológica: nas cenas, enxergamos Pelé sentindo o peso de ser Pelé. Ele já havia sido bicampeão mundial, já havia marcado seu milésimo gol e enfrentava demônios interiores (o trauma pelas lesões sofridas nas Copas de 1962 e 1966) e cobranças externas — ora para se posicionar politicamente, ora para cumprir seu papel de garoto-propaganda, ora para ser, claro, o craque que resolveria tudo dentro de campo.
Os conflitos e as conciliações entre esses três protagonistas e deles com os coadjuvantes dão sustentação dramática à minissérie, que só pisa na bola quando muda o foco para alguns personagens fictícios. A subtrama do casal de torcedores Rosa (vivida por Lara Tremouroux) e Leo (Felipe Frazão) é totalmente dispensável. Rouba tempo no desenvolvimento de tipos mais interessantes, como Paulo Cézar Caju, o 12º jogador da Seleção Brasileira, encarnado por Maicon Rodrigues.

Mas Brasil 70 marca um golaço quando se dedica a recriar os gols da Seleção e as jogadas famosas de Pelé nos gramados mexicanos, incluindo o antológico chute de antes do meio-campo contra a Tchecoslováquia e o lendário drible da vaca no goleiro Mazurkiewicz, do Uruguai.
O futebol é um esporte muito difícil de ser retratado em uma ficção audiovisual. Raramente os filmes e as séries conseguem mimetizar seu dinamismo, sua beleza e seu drama. Como os jogadores de mentirinha não têm intimidade com a bola, os diretores exageram no artificialismo. Os lances de jogo ficam monótonos, fajutos ou até confusos.
A escalação do elenco da minissérie resolveu metade do problema. A outra foi solucionada com criatividade e esmero técnico.

O cenário principal para as partidas foi o Estádio Niterói, em Carapicuíba (SP), transformado nos míticos Jalisco, de Guadalajara, e Azteca, da Cidade do México, graças às equipes de direção de arte e de efeitos visuais — recursos de computação gráfica multiplicaram as arquibancadas, por exemplo.
Para filmar as jogadas, primeiro houve muito ensaio e muita repetição: tudo foi coreografado para proporcionar uma reprodução fidedigna. Depois de assistir à minissérie, será irresistível a vontade de comparar com lances originais, como o histórico gol de Carlos Alberto na final contra a Itália, que contou com a participação de oito jogadores do Brasil.
A minissérie, contudo, não se limita a copiar. As jogadas são vistas de diferentes ângulos, graças ao emprego de drones, de câmera na mão e de um carrinho desenvolvido pela produção da série com motores de motocicletas que podia atingir 40 km/h. Assim, as cenas têm fluidez e velocidade; os atores, acompanhados muito de perto, garantem dramaticidade e emoção, que são sublinhadas pela trilha sonora (sobretudo na decisão da Copa); e o espectador se sente dentro do jogo ou mesmo dentro da cabeça coroada de Pelé.
Entrevista com Lucas Agrícola e Bruno Mazzeo

Na segunda-feira (25), o ator estreante Lucas Agrícola, que interpreta Pelé, e Bruno Mazzeo, que encarna Zagallo, concederam entrevista sobre a minissérie da Netflix Brasil 70: A Saga do Tri. Confira:
O personagem Pelé sente, na trama, o peso de ser Pelé. E para você, Lucas, como é o peso de ser o Pelé da ficção?
Lucas Agrícola: É um peso gigante contar a história desse cara que é um ícone mundial. Uma responsabilidade muito grande. Tem que ter muito estudo, muita dedicação, muito empenho para entregar à altura o que ele merece. Tive que estudar a pressão que o Pelé sentiu, toda a carga que ele carregou em 1970, sendo cobrado para se posicionar sobre assuntos como a ditadura militar e também a pressão que sofria dentro de campo. Ele já não queria jogar a Copa, porque tinha ficado traumatizado por causa das lesões nas duas Copas anteriores (em 1962, no Chile, e em 1966, na Inglaterra). E teve todo um trabalho de preparação física, que eu já tinha, porque jogava o campeonato amador na minha cidade, a famosa várzea, mas houve todo um cuidado para eu não me machucar, inclusive por passar 10, 12 horas com chuteira nos pés nos dias de gravação.
O Zagallo da minissérie não é o Zagallo que muita gente conhece, aquele que foi coordenador técnico da Seleção Brasileira na conquista do Tetra, em 1994, campeão da Copa América e da Copa das Confederações como treinador, em 1997, e comandante da equipe no Mundial de 1998. Como foi interpretar esse personagem que não é tão conhecido do grande público?
Bruno Mazzeo: Esse foi o grande desafio e ao mesmo tempo a maior delícia como ator. Quando a maioria de nós conheceu o Zagallo, ele já era consagrado, um cara muito seguro das suas ideias, ainda mais pela idade. Esse era o desafio: fazer o Zagallo com 40 anos, pouca experiência como técnico e nenhum título ainda, pegando a Seleção em cima da hora. E sem muitos registros em vídeo do Zagallo dessa época, a não ser numa entrevista antes de um jogo, uma entrevista no treino, coisa muito simples. Então, a gente ficou tentando imaginar como seria esse Zagallo, através de pesquisa, de leituras e de documentários que tinham jogadores falando sobre ele. Hoje em dia, os clubes e as seleções filmam o vestiário, a preleção, as coletivas, mas naquela época não havia esses recursos, então não sei como é que era o Zagallo, se ele falava gritando, se ele falava baixinho, se ele falava um por um... A gente teve de montar um quebra-cabeça para criar esse personagem.
Vocês podem falar sobre as gravações das cenas de treino e jogo?
Lucas Agrícola: É muito difícil gravar futebol. Muito difícil. Porque as jogadas não dependiam só de mim, né? Eu preciso que a bola chegue redonda para eu fazer as jogadas, o outro jogador precisa acertar para que eu possa acertar. E o adversário também precisa acertar. Era uma coreografia. às vezes, a bola chegava a mim por último, todo mundo acertava e eu não podia errar. Às vezes todo mundo acertava, mas as câmeras não pegavam. Imagina a luta!
Bruno Mazzeo: É a produção de futebol mais bem filmada que já teve, sério. Tinha drone, tinha carrinho que ia correndo atrás dos jogadores em várias velocidades, uma loucura. E tem que ter a cabeça no lugar para atuar e fazer os movimentos, porque é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, tem muita gente acompanhando tudo.
Lucas Agrícola: Exato. Aquela jogada contra a Tchecoslováquia em que o Gérson faz o lançamento lá do meio de campo e o Pelé domina no peito e faz o gol, eu lembro que nesse dia o set tinha muitos figurantes, tipo uns 800 na torcida. Todo mundo ficava em silêncio e esperando o lançamento do Gérson, aí eu olhava todo mundo esperando minha jogada, pô, imagina a pressão.
Bruno Mazzeo: Não é fácil ser Rei.
Brasil 70: A Saga do Tri chega às vésperas de uma Copa do Mundo e com a Seleção Brasileira vivendo um momento de desconfiança, mais ou menos como aconteceu com o time de 1970, que havia trocado de treinador menos de três meses antes da estreia. Como foi relembrar esses tempos e aquela glória?
Bruno Mazzeo: Eu sou muito nostálgico, estou ficando velho, estou ficando saudosista demais. É um tempo que eu não pude viver, ver, mas eu gostaria muito de ter vivido essa Seleção de 70, a Seleção de 58, a de 62. Eu espero que essa série motive os nossos jogadores de hoje. Acho que eles têm que assistir, eles têm que entender como era com o futebol naquele tempo, sem essa grana toda, sem esse marketing todo, sem esse business todo. E, ao mesmo tempo, ver ali a paixão do povo brasileiro e dos próprios jogadores em busca daquele título. Acho que pode ser motivador pra eles, tomara.
Lucas Agrícola: Acho que é lição de casa para a Seleção Brasileira assistir à série. Se a série não motivar os jogadores, eu não sei o que vai motivar.
Qual foi o momento mais emocionante na gravação da série?
Lucas Agrícola: Posso citar dois? Um é o quase gol, o do drible da vaca do Pelé no goleiro do Uruguai (na semifinal). Foi um dia muito emocionante porque a jogada, no meu ponto de vista, ficou idêntica. E era uma jogada da qual a gente estava com muito medo. A gente tinha reservado uma diária grande para gravar esse lance, e matamos em cinco, seis, sete tentativas, todas as câmeras pegaram, graças a Deus, todo mundo gritou no set. O segundo momento é a cena do choro no ônibus, chegando ao estádio no dia da final, quando o Pelé estava muito emocionado.
Bruno Mazzeo: A minha cena mais emocionante foi a do chafariz, do encontro do Zagallo com o João Saldanha. Essa cena está linda. Porque é uma cena que os dois estão descompensados, o Saldanha está bêbado, o Zagallo está com a coisa da santinha quebrada. É a única cena que ele aparece descabelado, inclusive. Essa cena foi muito especial não só por ser o momento em que Saldanha e Zagallo de alguma maneira se conectam, mas também porque foi a última cena filmada, lá no México. Então, depois de três meses e meio de trabalho, você fechar, e com uma cena tão emblemática, é sempre uma sensação muito boa, apesar do vazio que vem depois.
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