
Maio marca os 40 anos do lançamento de uma história em quadrinhos monumental: Watchmen (1986-1987), escrita por Alan Moore, desenhada por Dave Gibbons e colorida por John Higgins — todos ingleses a serviço da editora DC, dos Estados Unidos.
Originalmente, a HQ foi publicada como uma minissérie em 12 partes. No Brasil, saiu primeiro pela editora Abril, depois pela Via Lettera, e desde 2009 está no catálogo da Panini, que já relançou a obra em diversos formatos. O mais recente é o da coleção DC de Bolso, que tem um preço mais acessível, mas reduz o tamanho das páginas e, consequentemente, comprime a arte e o texto. Vale a pena procurar a chamada edição definitiva, em capa dura, nos sebos virtuais ou nos grupos de venda de gibis que existem no Facebook e no WhatsApp.
Ao lado de Batman: O Cavaleiro das Trevas, que também comemora o 40º aniversário em 2026, Watchmen reconstruiu o mundo dos super-heróis ao desconstruí-los. A partir dali, as histórias passaram a ser mais realistas, investindo em política e psicologia. Os personagens tornaram-se violentos na ação e cinzentos na moral.
As duas obras têm pontos em comum: se passam em uma realidade alternativa dos Estados Unidos, apresentam heróis envelhecidos, amargurados e dúbios, mostram a imprensa como sensacionalista e manipuladora e refletem o medo de a Guerra Fria travada entre os EUA e a URSS evoluir para o apocalipse nuclear.
Mas Watchmen é muito, muito mais complexa. Não à toa, rompeu fronteiras: recebeu o troféu da categoria Outros Formatos no Hugo, um prêmio da ficção científica literária que, em 35 anos, nunca havia laureado uma HQ, e foi o único gibi presente em uma lista da revista Time com os cem melhores romances publicados entre 1923 e 2010.

A trama imagina como seriam os super-heróis se eles realmente existissem. Alan Moore acrescentou às aventuras do gênero discussões políticas, dramas existenciais, conceitos da física nuclear e análises sobre as consequências do vigilantismo. Moore também adicionou complexidade à própria forma narrativa, alternando bastante o presente e o passado, empregando metáforas visuais e adotando a técnica literária chamada de mise en abyme, ou seja, a da história dentro da história. Watchmen tem uma porção de recursos metalinguísticos, como o gibi Contos do Cargueiro Negro, fichas policiais, laudos médicos, uma série de TV e trechos de uma autobiografia. São narrativas complementares e interligadas que espelham os temas principais, as angústias dos personagens e até o destino do mundo.
É por isso que muita gente sempre achou Watchmen infilmável, mas o diretor Zack Snyder resolveu encarar o desafio e em 2009 lançou Watchmen: O Filme, que condensa 460 páginas em duas horas e 40 minutos e que atualmente pode ser visto no Mercado Play ou alugado em Amazon Prime Video, Apple TV, Google Play e YouTube.

Embora opere uma mudança significativa no final, o filme é bem reverente aos quadrinhos. Reproduz cenas e diálogos quase integralmente e consegue resumir 40 anos de história na estilosa sequência dos créditos de abertura, que é embalada por um clássico de Bob Dylan, The Times They Are a-Changin'. As cenas mostram eventos fictícios e também inserem os personagens em momentos históricos, como o lendário beijo de um marinheiro na Times Square, em Nova York, no fim da Segunda Guerra Mundial, o assassinato do presidente Kennedy e a chegada do homem à Lua.
A trama se passa em 1985, em uma realidade em que os EUA venceram a Guerra do Vietnã e o presidente Nixon já está no seu quinto mandato na Casa Branca. O mundo vive à beira de um conflito nuclear, e os heróis foram forçados a se aposentar depois que voltaram sua violência contra o povo, na falta de vilões tradicionais. Só continuam em ação o Comediante (papel de Jeffrey Dean Morgan), uma espécie de Capitão América barra-pesada, e o Dr. Manhattan (personagem de Billy Crudup), o único com superpoderes, um super-homem a serviço do governo.

A morte brutal e misteriosa do Comediante acende um alerta em um vigilante que segue na ativa, mas de forma clandestina: Rorschach (encarnado por Jackie Earle Haley), uma versão pobre e totalmente sociopata do Batman. Ele acredita que existe um plano para matar os antigos heróis, então resolve procurar seus ex-colegas: o Dr. Manhattan e sua esposa, Laurie, a Espectral (interpretada por Malin Akerman); Dan Dreiberg, o Coruja (personagem de Patrick Wilson), que vive a crise da meia-idade; e Adrian Veidt, o Ozymandias (papel de Matthew Goode), hoje um megaempresário brilhante e egocêntrico. As investigações vão trazer à tona traumas do passado e uma conspiração que ameaça o futuro da humanidade.
Apesar de manter a essência da história original e de homenagear o visual dos quadrinhos, Watchmen: O Filme é fraco. Zack Snyder tem mão muito pesada para lidar com a sofisticação narrativa de Alan Moore. Snyder matou a alma da HQ ao transformar o labirinto de Moore em uma linha reta, talvez pensando no grande público. Não deu certo: orçado em cerca de US$ 140 milhões, o título foi um fracasso comercial, arrecadando US$ 185 milhões nas bilheterias.

Mas o pior não é essa simplificação. Watchmen: O Filme falha miseravelmente porque o diretor não entendeu os quadrinhos. Alan Moore vê os super-heróis como sujeitos radicalmente humanos, cheios de problemas psicológicos e com moral duvidosa e ética questionável. Zack Snyder vê os super-heróis como deuses. Daí, enche o filme com cenas de pancadaria que fogem completamente do tom do gibi.
Snyder abusa na estilização, tenta transformar qualquer cena em um momento épico — geralmente embalado por um clássico do cancioneiro estadunidense — e pinta a violência como uma coisa "elegante". Só que o diretor confunde charme com cafonice. Seu Watchmen talvez fosse menos longo se não tivesse tantas cenas em câmera lenta.
Minissérie "Watchmen" ganhou 11 Emmys

Dez anos depois do filme, em 2019, enfim Watchmen ganhou uma adaptação à altura. Não à toa, a série homônima disponível na HBO Max conquistou 11 prêmios Emmy, incluindo as categorias de melhor minissérie, melhor atriz (Regina King) e melhor ator coadjuvante (Yahya Abdul-Mateen II).
Com nove episódios, Watchmen foi desenvolvida por Damon Lindelof, um dos criadores do seriado Lost (2004-2010). Nos extras do DVD, ele definiu a minissérie como "uma fanfic muito, muito cara". Era uma piada para a plateia de uma convenção de cultura pop em Nova York, mas toda piada tem um fundo de verdade.
A minissérie é mesmo uma ficção feita por um fã (a exemplo de três quadrinhos que são, digamos, "fanfics oficiais", publicadas pela DC: Antes de Watchmen, O Relógio do Juízo Final e Rorschach): Lindelof parte dos eventos e dos personagens do gibi para contar uma nova história, na qual espelha situações e espalha referências.
Se a HQ perguntava como seria o mundo se os super-heróis existissem de verdade, a minissérie pergunta: como estaria o mundo 30 e poucos anos depois de tudo aquilo que foi mostrado nos quadrinhos?
Sim, a leitura prévia vai enriquecer a experiência audiovisual. Será mais fácil e divertido captar as citações, como a chuva de lulas e o nome de um senador aspirante à Casa Branca. E algumas cenas vão ter um significado ou um impacto maior, como a espantosa e cruel dramatização sobre a origem de um dos super-heróis. Mas Lindelof não deixa a porta aberta apenas para quem conhece a HQ: elabora uma trama central nova e contemporânea.

Fiel ao espírito politizado do quadrinho, Lindelof e seu time de roteiristas refletem sobre um tema incandescente: o recrudescimento dos grupos supremacistas brancos e dos episódios de violência contra negros nos Estados Unidos, que esquentaram ainda mais o caldeirão das tensões raciais naquele país.
A minissérie começa com a reconstituição de um capítulo tão traumatizante quanto esquecido e escondido da história do racismo nos EUA: a chacina da chamada Wall Street Negra, na cidade de Tulsa, no Oklahoma, em 1921 (referenciada no filme Assassinos da Lua das Flores, lançado em 2023 por Martin Scorsese). O rico distrito de Greenwood foi destruído por uma multidão branca, incluindo membros da Ku Klux Klan, e mais de 300 negros morreram. Sob o silêncio de políticos e da imprensa, o terrível recado dado à comunidade negra foi praticamente apagado dos registros locais, estaduais e nacionais. Somente em 1996 o Massacre de Tulsa virou alvo de uma investigação formal no Oklahoma.

Filho de uma mãe judia e de um pai com ascendência escandinava, Lindelof sabia que não era dele a história a ser contada. Então, ele se cercou de gente com mais lugar de fala, como o diretor Stephen Williams e os roteiristas Cord Jefferson (ganhador do Oscar de roteiro adaptado por Ficção Americana, em 2024), Christal Henry e Stacy Osei-Kuffour, todos negros, a exemplo de quatro dos principais nomes do elenco: Regina King, Yahya Abdul-Mateen II, Louis Gossett Jr. e Jovan Adepo. Eram pessoas que, nas suas palavras, pudessem lhe dizer "Não faça assim, faça desse outro jeito".
De 1921, vamos para os dias de hoje, uma realidade alternativa em que o Vietnã está anexado, como o 51º Estado, e o presidente é, há 30 anos, o ator Robert Redford, que tem uma política de reparação com os negros. A polícia usa máscara, o que torna tênue a linha que separa as forças da lei, os vigilantes e os criminosos. A prática também retoma o debate da HQ de Alan Moore sobre por que uma pessoa esconde o rosto do mundo e que tipo de comportamento pode ser desencadeado por isso.
A protagonista interpretada pela atriz Regina King, ganhadora do Oscar de melhor coadjuvante por Se a Rua Beale Falasse (2018), é Angela Abar. Com 40 e poucos anos, casada e com três filhos, ela aposentou a farda policial, mas segue protegendo Tulsa sob o disfarce da Sister Night. Nem ela nem seus colegas uniformizados, como Looking Glass (papel de Tim Blake Nelson), Red Scare e Pirata, existiam nos quadrinhos. Também é criação de Damon Lindelof a ameaça que enfrentam: a Sétima Kavalaria, um movimento aos moldes da Ku Klux Klan que prepara um grande ataque. A diferença em relação à organização racista da vida real é que, em vez do capuz branco e pontudo, seus integrantes vestem a máscara de Rorschach, um dos mais populares e controversos "heróis" da HQ Watchmen. Lindelof percebeu o que muitos leitores não viram ou fingem que não viram: o personagem é um extremista, um reacionário.

Ao redor de Sister Night, gravitam os outros núcleos narrativos. Will Reeves (Louis Gossett Jr., Oscar de ator coadjuvante por A Força do Destino) é um misterioso homem em cadeira de rodas cujo passado está ligado ao massacre de 1921. Dado como morto, o bilionário inteligentíssimo, arrogante e maquiavélico Adrian Veidt (Jeremy Irons, Oscar de melhor ator por O Reverso da Fortuna), outrora o herói Ozymandias, está recluso em um castelo encravado em uma paisagem idílica, acompanhado somente por seus criados. Laurie Blake (Jean Smart, tetracampeã do Emmy de atriz em comédia pela série Hacks), que antes era a Espectral, agora é uma investigadora do FBI enviada a Tulsa após um crime chocante. Lady Trieu (Hong Chau, indicada ao Oscar de coadjuvante por A Baleia), outra personagem nova, é uma excêntrica e absurdamente rica cientista, dona de uma indústria de saúde e tecnologia que tem acintoso interesse em adquirir um terreno no Oklahoma.
Sobre todos, paira a sombra do Dr. Manhattan — Jon para os íntimos. Uma espécie de deus azul, ele se cansou da humanidade e se exilou em Marte, para onde as pessoas mandam recados, gravados em cabines telefônicas (este é um mundo sem celular), como se fossem preces aos céus.

Um dos poderes do Dr. Manhattan é chave para a fruição de Watchmen, tanto a obra original quanto a minissérie: a capacidade de experienciar passado, presente e futuro simultaneamente. Como no gibi, há idas e vindas no tempo, revisitamos cenários, acontecimentos e personagens, sementes plantadas lá atrás reverberam lá na frente, surgem simetrias e contrastes. Essa jornada contém sequências de ação, claro, e mistérios que só são resolvidos bem adiante. E é formidavelmente temperada pela trilha sonora, que inclui canções do grupo de jazz dos anos 1930 e 1940 The Ink Spots, a Lacrimosa de Mozart e o Danúbio Azul de Strauss, covers pungentes de Life on Mars (David Bowie) e Careless Whisper (George Michael), além das músicas compostas por Atticus Ross e Trent Reznor, como a sinistra How the West Was Really Won e a pulsante Nun with a Motherf*&*ing Gun.
Também como nos quadrinhos, aplica-se o mise en abyme: a American Hero Story, a série de TV dentro da série de TV, é como os Contos do Cargueiro Negro, a HQ dentro da HQ. Mas Damon Lindelof não vive só de emular Alan Moore. Sua fanfic muito, muito cara também se revela artisticamente ambiciosa e relevante. O mergulho na memória, ou melhor, a reinvenção de um personagem mais obscuro do gibi, o Justiça Encapuzada, permite à minissérie se debruçar sobre os mecanismos do racismo, sobre as máscaras sociais que os negros veem-se obrigados a vestir em nome da aceitação e sobre a hipocrisia de brancos que só encampam uma luta alheia até o ponto que lhes interessa.
Nesse mesmo mergulho, em que passado, presente e futuro se misturam nas cenas, Watchmen pergunta sobre quantos heróis negros estão escondidos sob a história "oficial" e afirma: os traumas da escravidão passam de geração a geração. A dor e a raiva não se curam escondidas — estabelecendo uma conexão com o Massacre de Tulsa e um diálogo com o movimento Black Lives Matter, o personagem Will ensina:
— Feridas precisam de ar.
Sem o nome de Alan Moore nos créditos

No mesmo evento em que apresentou a minissérie Watchmen, Damon Lindelof exaltou a genialidade de Alan Moore, mas não citou o seu nome. Provavelmente, fez isso em respeito à notória aversão do roteirista inglês a Hollywood.
Moore exige não aparecer nos créditos das adaptações de seus quadrinhos, como também aconteceu com a versão de Zack Snyder para Watchmen, os filmes Do Inferno (2001), A Liga Extraordinária (2003) e V de Vingança (2005) e o longa de animação Batman: A Piada Mortal (2016).
Uma raríssima obra audiovisual que traz o nome de Alan Moore é o filme The Show (2020), uma fantasia neo-noir britânica escrita pelo chamado Mago Barbudo e dirigida por Mitch Jenkins. Segundo a sinopse, a busca de um detetive por uma pessoa desaparecida o leva a Northampton — a cidade onde Moore nasceu e mora —, cheia de gângsteres praticantes de vodu. O elenco inclui Tom Burke, Siobhan Hewlett, Ellie Bamber e o próprio Alan Moore.
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