
Quantos filmes estão disponíveis na Netflix? Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), a plataforma de streaming tem cerca de 4 mil títulos no seu catálogo.
Mas quantos desses valem mesmo o seu clique: mil, centenas, dezenas?
Bem, não faltam maravilhas no menu, como Lawrence da Arábia (1962), Era Uma Vez no Oeste (1968), Scarface (1983), Pulp Fiction (1994), Fogo Contra Fogo (1995), Central do Brasil (1999), O Tigre e o Dragão (2000), A Viagem de Chihiro (2001), Edifício Master (2002), As Branquelas (2004), Parasita (2019), Nada de Novo no Front (2022), RRR: Revolta, Rebelião e Revolução (2022) e Dias Perfeitos (2023).
Mas a ideia desta lista aqui é chamar a sua atenção para filmes que talvez não sejam tão conhecidos. Títulos que podem ter ficado fora do seu radar por causa de um ou mais destes motivos: não são clássicos, não são produções de Hollywood, não contam com nomes famosos no elenco ou na direção, não foram sucesso de bilheteria nos cinemas ou fenômeno de audiência na própria Netflix e não concorreram ao Oscar. São 30 tesouros escondidos na plataforma de streaming.
A ordem dos filmes é apenas cronológica. Clique nos links se quiser saber mais. E te convido a responder na caixa de comentários: quantos você já viu?
1) A Família Rodante (2004)

De Pablo Trapero. A comédia dramática é baseada em experiências autobiográficas do diretor argentino e tem como personagens 12 pessoas de uma família que viaja pela Argentina a bordo de um velho trailer. A pivô da grande aventura é a matriarca Emilia (Graciana Chironi), convidada para ser madrinha em um casamento na sua cidade natal, na fronteira com o Brasil. A estrada e a convivência serão cheias de tropeços, até o fim do caminho, onde há, na verdade, um recomeço: outra família dá a partida em sua história.
2) Casa Grande (2014)

De Fellipe Barbosa. Pelo olhar de um adolescente de 17 anos (Thales Cavalcanti, cativante), acompanhamos a derrocada de uma família burguesa do Rio de Janeiro (Marcello Novaes tem belo desempenho como o pai). No meio do caminho, o diretor aborda a desigualdade social e a política de cotas, a hipocrisia das elites e sua relação com os empregados domésticos (o título faz referência explícita ao livro Casa Grande & Senzala, lançado em 1933 pelo sociólogo Gilberto Freyre), o machismo estrutural e os anseios sexuais da faixa etária.
3) O Patrão: Radiografia de um Crime (2014)

De Sebastián Schindel. Baseado em história real, o filme ambientado em Buenos Aires traz Joaquín Furriel no papel do humilde e analfabeto Hermógenes, que assassinou Latuada (Luis Ziembrowski), dono do açougue onde trabalhava. Enquanto o advogado Di Giovanni (Guillermo Pfening) vai se inteirando do caso que pegou apenas para uma troca de favores com a assessora do juiz, conhecemos o cotidiano degradante de Hermógenes. De quebra, aprendemos sobre os legítimos podres do comércio de carnes, com seus truques sujos para repassar mercadoria estragada.
4) Rastros de um Sequestro (2017)

De Jang Hang-jun. Quanto menos você souber, melhor. O que dá para dizer sem ser estraga-prazeres é que começa com a mudança de uma família — pai, mãe e dois filhos de 20 e poucos anos — para uma casa nova. Jin-seok (Kang Ha-neul), o caçula, é quem nos guia (e juntos tomaremos um susto que tão cedo não esqueceremos). Em uma noite chuvosa, ele vê seu irmão, Yoo-seok (Kim Mu-yeol), ser sequestrado. Dias depois, Yoo-seok reaparece. Mas há algo de estranho no seu comportamento. Se parece que já contei muito, não se preocupe. Muita água ainda vai rolar neste filme que remete a Parasita (2019) em uma série de aspectos, como a fotografia e a ambientação, o tom trágico na transição dos gêneros e o peso avassalador das escolhas erradas.
5) Veronica (2017)

De Paco Plaza. Na Madri do início dos anos 1990, adolescente (Sandra Escacena) sobrecarregada de tarefas domésticas porque a mãe trabalha em um restaurante — é ela quem de fato cuida dos três irmãos mais novos, as gêmeas Irene e Lucia e o caçula Antoñito — compra um tabuleiro ouija para tentar contatar o pai falecido. Mas o episódio acaba desencadeando uma espiral de desgraça e danação. Embora não economize em cenas assustadoras e jogue com as percepções do público — existe a ameaça sobrenatural? Ou são pesadelos? Ou Veronica está em surto psicótico? —, o diretor evita soluções fáceis e ainda consegue entabular uma dolorosa reflexão sobre a sempre complicada transição da adolescência para o mundo adulto.
6) Calibre (2018)

De Matt Palmer. Dois amigos de longa data partem para uma viagem de caça no interior da Escócia. Vaughn (Jack Lowden), o afável protagonista, está para ser pai e aparenta só estar fazendo esse programa em nome da amizade. Marcus (Martin McCann) é festeiro e impulsivo: na primeira noite, já arranja confusão ao paquerar uma garota local no bar frequentado pela comunidade. Parece que veremos uma daquelas histórias em que a presença de um ou mais forasteiros gera uma turbulência na dinâmica de uma cidadezinha, mas o diretor e roteirista tem mais a nos oferecer. Na floresta onde se embrenharam para atirar em veados, Vaughn e Marcus entram em uma areia movediça do campo moral.
7) Sementes Podres (2018)

De Kheiron. Esta comédia dramática é escrita, dirigida e protagonizada pelo artista franco-iraniano Kheiron. Seu papel é o do trapaceiro Wael, que vive aplicando golpes na companhia de Monique (a sempre charmosa Catherine Deneuve). Quando um desses golpes dá errado, Wael acaba incumbido de ser o mentor de adolescentes à beira de serem expulsos da escola. Entre risos e lágrimas, todos aprendem algo sobre si próprios.
8) Atlantique (2019)

De Mati Diop. Ambientado no Senegal, mistura gêneros como romance e terror para contar a história de Ada (Mame Bineta Sane), jovem prometida ao rico Omar (Babacar Sylla), mas apaixonada pelo pobre Souleiman (Ibrahima Traoré), operário que sonha em migrar para a Europa. O mar é um personagem tão importante quanto a forte protagonista de Atlantique. Suas ondas podem prenunciar o infortúnio ou trazer a esperança; sua imensidão simboliza o tamanho de um amor ou a extensão de um sistema opressor para com as mulheres; sua cor inspira a fotografia, com azuis e verdes predominando; seus sons acalmam, hipnotizam, seduzem.
9) The Perfection (2019)

De Richard Shepard. Charlotte (Allison Williams), uma jovem que era um prodígio do violoncelo, teve de abandonar a música quando sua mãe adoeceu. Anos depois, ela resolve procurar seu antigo mentor (Steven Weber), que agora tem uma nova pupila (Logan Browning). A partir daí, o filme toma rumos inesperados, por vezes bizarros e violentos. Formalmente, The Perfection também fascina: o diretor aperta a tecla rewind para mostrar que as coisas não aconteceram do jeito que tínhamos entendido. Com o perdão do lugar-comum, em alguns momentos isso é de cair o queixo.
10) Viver Duas Vezes (2019)

De Maria Ripoll. Na trama desta comédia dramática, Emilio (Oscar Martínez, em mais uma atuação memorável) embarca com sua filha e sua neta em uma louca jornada pela Espanha para encontrar a sua paixão da juventude antes que ele sucumba ao Alzheimer. Já vi duas vezes o filme. E chorei nas duas vezes.
11) 18 Presentes (2020)

De Franco Amato. Grávida e com câncer terminal, futura mãe (Vittoria Puccini) deixa 18 presentes emocionantes para a filha que vai nascer. Um para cada aniversário, até que fique adulta (na pele de Benedetta Porcaroli). A sinopse do filme italiano baseado em uma história real promete um dramalhão. Mas, assim como um terror que evita os sustos fáceis, 18 Presentes consegue se desviar da pieguice. Ainda assim, oferece cenas de se lavar chorando, como a da cozinha e a da piscina.
12) O Discípulo (2020)

De Chaitanya Tamhane. Ganhador do prêmio de roteiro no Festival de Veneza, O Discípulo é sobre o processo de autoaperfeiçoamento de um jovem cantor de ragas, elemento central e transcendental na música clássica indiana. O protagonista encarnado por Aditya Modak renunciou ao trabalho e postergou a vida amorosa para seguir as lições do pai já falecido e de uma mítica maestrina, Maai. Mas o que fazer quando nossos sonhos esbarram em nossas limitações? A técnica pode compensar a falta de talento? Ao herdar ou assumir aspirações paternas e maternas, não estamos nos condenando a comparações e sufocando vocações?
13) O que Ficou para Trás (2020)

De Remi Weekes. O diretor e roteirista inglês Remi Weekes fez um filme de casa mal-assombrada, de fantasmas e de sustos, mas usa esses elementos clássicos para retratar um drama real e atual. É o dos refugiados, vindos de países em guerra ou onde sofrem perseguição política, religiosa, étnica etc. Em O que Ficou para Trás, eles são encarnados pelos personagens de Sope Dirisu e Wunmi Mosaku, que escaparam do Sudão do Sul para experienciar o terror num subúrbio da Inglaterra.
14) Laço Materno (2020)

De Tatsushi Omori. Tem uma tristeza avassaladora e impregnante este filme japonês sobre a a via-crúcis vivida por Shuhei (interpretado por Sho Gunji na infância e por Daiken Okudaira na adolescência), um menino que mora com a mãe, Akiko (Masami Nagasawa, em desempenho ao mesmo tempo cativante e revoltante). Já nas cenas iniciais de Laço Materno, percebemos a toxicidade daquela relação. Sim, Akiko é capaz de lamber o joelho esfolado do filho, mas logo fica claro que ela só tem olhos para o próprio prazer. O diretor aperta e machuca o coração do espectador sem precisar usar necessariamente as mãos — a violência é sobretudo psicológica. O laço materno é como a corda no pescoço do enforcado.
15) As Mortes de Dick Johnson (2020)

De Kirsten Johnson. Documentarista estadunidense, a filha do octogenário viúvo Dick Johnson resolveu homenageá-lo em vida, antes que a morte levasse seu corpo ou, no mínimo, sua memória ficasse gravemente comprometida pelo Alzheimer. Neste filme bonito e estranho sobre um pai que, mais cedo ou mais tarde, vai morrer, a diretora fez também uma homenagem ao cinema, capaz de eternizar as coisas e as pessoas, e capaz também de matar sem matar. Você entenderá ao assistir a As Mortes de Dick Johnson documentário feito com muito amor e, surpreendentemente, humor.
16) Mosul (2020)

De Matthew Michael Carnahan. É um filme de guerra hollywoodiano incomum. O conflito contra o Estado Islâmico, no Oriente Médio, é visto pela perspectiva dos iraquianos. Visto e falado: recrutados sobretudo na Ásia e na África, os atores de Mosul travam combates e diálogos exclusivamente no idioma árabe. Em uma dessas conversas, até se critica o modus operandi das forças militares dos EUA, interessadas na destruição dos alvos, mas não na reconstrução de um país.
17) Ninguém Sabe que Estou Aqui (2020)

De Gaspar Antillo. O ator Jorge Garcia, o Hurley da série Lost, interpreta Memo, sujeito que é praticamente um ermitão, isolado em algum lugar ao sul do Chile frio e desprovido de luxos. Arredio, mal se comunica com o tio Braulio (Luis Gnecco), a quem auxilia no manejo e na tosquia do rebanho ovino. Memo leva vida dupla. Às escondidas, embrenha-se na floresta, levando seus fones de ouvido e uma capa coberta por lantejoulas. As mesmas mãos que se sujam com o sangue das ovelhas revelam unhas pintadas de azul. Por quê? Descubra assistindo a Ninguém Sabe que Estou Aqui.
18) Você nem Imagina (2020)

De Alice Wu. Chinesa que mora em uma cidadezinha nos EUA, Ellie Chu (Leah Lewis) é apaixonada por Aster Flores (Alexxis Lemire), uma garota que namora, mas meio que por inércia, o cara mais popular do colégio. Inteligente e habilidosa com as palavras, Ellie é contratada por um colega, Paul Munsky (Daniel Diemer), para escrever uma carta de amor justamente para Aster. Apesar da sinopse sugerir o contrário, esta comédia dramática adolescente foge dos lugares-comuns do gênero.
19) Identidade (2021)

De Rebecca Hall. Baseado em romance de Nella Larsen, o filme é ambientado na Nova York dos anos 1920. Lá, se reencontram Irene (Tessa Thompson), que se identifica como negra e está casada com um médico negro (que sonha em se mudar para o Brasil, um país onde, segundo ele, não há racismo), e Clare (Ruth Negga), que se passa por branca e tem um marido rico e preconceituoso. Amparada pela belíssima fotografia em preto e branco e por uma melancólica trilha sonora, a atriz e diretora Rebecca Hall conduz a trama de Identidade com uma delicadeza que não esconde as turbulências.
20) A Noite do Fogo (2021)

De Tatiana Huezo. A cineasta observa o cotidiano de um povoado do México violentado pelo narcotráfico pelos olhos de três meninas: Ana (vivida por Ana Cristina Ordóñez González na infância e por Marya Membreño na adolescência), Maria (Blanca Itzel Pérez/Giselle Barrera Sánchez) e Paula (Camila Gaal/Alejandra Camacho). O perigo e a morte estão sempre nas redondezas, o silêncio e a fuga são aliados vitais, o medo dita os passos — sobretudo os das mães e os das filhas, como enfatiza o título brasileiro do romance em que A Noite do Fogo se baseia: Reze pelas Mulheres Roubadas.
21) Passageiro Acidental (2021)

De Joe Penna. Se você curte filmes que nos jogam contra a parede e perguntam "o que você faria?", convido a tomar assento no voo dirigido por este brasileiro radicado nos EUA. Em Passageiro Acidental, Toni Collette, Daniel Dae Kim e Anna Kendrick interpretam três astronautas que descobrem um intruso em meio a uma viagem de dois anos rumo a Marte. Trata-se de um problema muito sério: não há oxigênio para quatro pessoas a bordo.
22) O Tigre Branco (2021)

De Ramin Bahrani. Este filme ambientado na Índia foi indicado ao Oscar, mas apenas na categoria de melhor roteiro adaptado (baseado no romance homônimo de Aravind Adiga), então vou abrir uma exceção nas regras. O Tigre Branco retrata o o abismo profundo entre os ricos e os pobres — e o sistema de castas indiano torna ainda mais cruel e desesperadora a desigualdade social. Na trama, o jovem Balram (em uma interpretação extraordinária de Adarsh Gourav) vê uma rara chance de ascensão e a agarra com todos os dentes. E sem pudores.
23) Boa Sorte, Leo Grande (2022)

De Sophie Hyde. Nancy (papel de Emma Thompson) é uma viúva de 55 anos que decide, uma vez na vida, ter a experiência do bom sexo. Para isso, ela contrata um profissional, Leo Grande (Daryl McCormack), com quem se encontra em um hotel de Londres. A atriz inglesa considera o filme revolucionário: "Vamos falar a verdade, o prazer feminino nunca esteve no topo da lista de afazeres nos sistemas presentes". A diretora acrescenta: "Carregamos muita vergonha nos nossos corpos. Fomos ensinados assim. Isso influencia nossas ideias de sexualidade e de sexo e limita nossa interação com outras pessoas". Boa Sorte, Leo Grande equilibra com muita delicadeza romance, comédia, sensualidade e amargura.
24) O Desconhecido (2022)

De Thomas M. Wright. Estrelado pelos ótimos Joel Edgerton e Sean Harris, este policial é baseado em uma história real ocorrida na Austrália, mas não vou falar sobre a trama. Não é que o filme seja uma montanha-russa repleta de reviravoltas. Antes pelo contrário: O Desconhecido é como um quebra-cabeças do qual a gente consegue intuir qual vai ser o quadro final, mas que é montado com muita paciência pelo diretor. Com paciência e com engenhosidade: Wright embaralha um pouco a cronologia dos fatos, mistura imagem e som de maneira não muito convencional, corta de um personagem para outro sem avisar. A ideia é construir um suspense atmosférico e hipnotizante.
25) Propriedade (2022)

De Daniel Bandeira. Em Recife, a rica estilista Teresa (Malu Galli, em ótima atuação, calcada no olhar e no físico) ainda se recupera de um episódio de violência urbana. Seu marido propõe passar uns dias na fazenda da família, para onde vão a bordo de um carro novo, todo blindado. Chegando lá, o casal depara com uma revolta dos empregados, que trabalham sob condições análogas à escravidão e agora correm o risco de serem despejados. O único refúgio para a protagonista de Propriedade é o interior do veículo, onde o vidro separa dois mundos.
26) Jogo Justo (2023)

De Chloe Dhomont. Estrelado por Phoebe Dynevor e Alden Ehrenreich, o filme faz um retrato tenso e aflitivo do conflito entre o empoderamento feminino e a fragilidade masculina nos ambientes de trabalho. Em Jogo Justo, os dois atores interpretam os apaixonados Luke e Emily, que precisam manter às escondidas o romance e o noivado: as regras da empresa de investimentos onde trabalham não permitem que empregados se envolvam amorosamente. Quando fica vago um cargo de analista sênior, Emily ouve um rumor de que Luke será promovido, os dois chegam a comemorar e fazer planos, mas é ela que acaba escolhida pelo chefe, Campbell (Eddie Marsan, deliciosamente cínico e implacável).
27) As Três Filhas (2023)

De Azazel Jacobs. A trama de As Três Filhas se passa quase toda dentro de um apartamento em Nova York. Lá, três irmãs distantes e com personalidades contrastantes reúnem-se para cuidar do pai, Vincent, que está perdendo a batalha para o câncer e já é uma figura fantasmagórica: nunca o vemos nem ouvimos, e a câmera jamais entra no quarto do moribundo. Uma das filhas também não consegue cruzar a porta: justamente Rachel (Natasha Lyonne), a futura dona do apartamento, que sofre diante da morte iminente. Seu alívio é fumar maconha, o que gera reprimenda da irmã mais velha, a autoritária e ríspida Katie (Carrie Coon). A terceira irmã, Christina (Elizabeth Olsen), é a mais emotiva e a mais solar, procurando servir como ponte entre as outras duas — a propósito, repare que as três personagens raramente são vistas juntas na mesma cena, tradução visual de sua desunião e de suas desavenças.
28) Um Fiasco de Férias (2024)

De Rethabile Ramaphakela. Esta comédia sul-africana à la Férias Frustradas foi uma grata surpresa. Rimos muito lá em casa dos imprevistos, das confusões e das piadas de humor físico, mas também curtimos a mensagem sobre união familiar e sobre o que é importante na vida. A trama acompanha Joseph Ngema (interpretado por Kenneth Nkosi), um pai workaholic que, para tentar se reconectar com os filhos, que vivem com sua ex-esposa, planeja uma viagem de férias, na companhia de sua atual mulher. Obviamente, as coisas rapidamente saem do controle. Em vez de um exótico paraíso em Zanzibar, o que ele oferece é uma excursão improvisada para Durban, onde precisa lidar com as obrigações profissionais.
29) A Natureza das Coisas Invisíveis (2025)

De Rafaela Camelo. Glória (Laura Brandão) é uma garota de 10 anos que passa as férias de verão no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira, em Brasília. Lá, ela conhece Sofia (papel de Serena), menina que chamou a ambulância por causa do acidente doméstico de sua bisavó, que tem Alzheimer em estado avançado e agora está internada. Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Diante da iminência da morte da matriarca, as duas famílias viajam juntas para passar os últimos dias dela em um refúgio verde no interior de Goiás. A Natureza das Coisas Invisíveis defende o afeto, a delicadeza, a reconexão com o telúrico e o valor da espiritualidade.
30) 53 Domingos (2026)

De Cesc Gay. Esta comédia dramática espanhola é sobre três irmãos que falham sucessivamente nas tentativas de se reunir para decidir o destino do pai, que tem 86 anos e mora sozinho, mas já começou a apresentar sinais de senilidade. Julián (Javier Cámara) é um ator que atravessa uma crise profissional: seus últimos testes têm sido só para comerciais de TV. Por isso, é menosprezado por Víctor (Javier Gutiérrez), o irmão que é rico, mas por causa da esposa. E Natalia (Carmen Machi) é a irmã certinha que busca promover a diplomacia no seio familiar. Diálogos, gestos e olhares revelam atritos e mágoas, sem, no entanto, a explosão cômica ou dramática que se poderia imaginar. É um acerto de 53 Domingos: não aposta em trama mirabolante ou viradas desconcertantes, mas nas coisas comezinhas, no cotidiano com o qual muitas famílias devem se identificar.
Bônus: Bo Burnham: Inside (2021)

De Bo Burnham. É um filme? É um especial de comédia? É um musical? É um monólogo? É um registro documental sobre a vida durante a pandemia? É um relato inovador sobre uma crise existencial? É uma reflexão sobre como as redes sociais podem aproximar e estimular o conhecimento, mas também fomentar o ódio e valorizar a futilidade? Parafraseando uma das canções do comediante estadunidense, que filmou e editou tudo sozinho em sua casa, durante o isolamento imposto pela covid-19, Inside é um pouco de tudo o tempo todo. Legou pelo menos um clássico: White Woman's Instagram.
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