
Quando morreu, aos 78 anos, em decorrência de um enfisema pulmonar, o cineasta estadunidense David Lynch (1946-2025) deixou incontáveis órfãos. Entre eles, o crítico e psicanalista Luiz Zanin Oricchio.
No Estadão, Zanin escreveu: "Definitivamente, Lynch confiava no poder evocativo dessa máquina de sonhar que é o cinema. Para curtir seus filmes é preciso deixar-se levar, sem querer de imediato enquadrá-los em categorias racionais. São viagens, no sentido literal e figurado do termo. (...) Quem vai ver um dos seus filmes está comprando um ingresso para o desconhecido. Ele sempre fez questão de manter o mistério. E não pense que o cineasta causa perplexidade apenas no público. A própria crítica às vezes se espanta com o que vê na tela e tenta compreender o que assistiu".
Se você nunca teve contato com sua visão artística sombria, surrealista e singularíssima, a dica é ver Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001), filme que no dia 16 de maio comemora 25 anos da sua primeira exibição. Foi no Festival de Cannes, na França, onde Lynch recebeu o prêmio de melhor diretor (dividido com Joel Coen, de O Homem que Não Estava Lá) no Festival de Cannes.

O longa-metragem competiu no Oscar da mesma categoria e disputou quatro Globos de Ouro: melhor filme/drama, direção, roteiro original e música (Angelo Badalamenti). Atualmente, está disponível no canal Cindie do Amazon Prime Video, com sete dias de teste grátis, e também pode ser alugado em Apple TV, Googla Play e YouTube.
Mulholland Drive, o nome original, faz referência à icônica via de Hollywood pela qual se entra no enigmático e instigante labirinto narrativo arquitetado por Lynch. De abordagem corrosiva sobre as engrenagens da indústria cinematográfica que devoram sonhadores ingênuos à densa imersão por postulados psicanalíticos em torno da questão de identidade e memória, Cidade dos Sonhos abre-se a múltiplas camadas de absorção diante do espectador.
Na trama, Naomi Watts interpreta Betty Elms, uma jovem aspirante a atriz que, ao vencer um concurso em sua pequena cidade, vai tentar a sorte em Hollywood, onde fica hospedada no apartamento de uma tia que viajou. Justo ali vai parar uma mulher, Rita (Laura Harring), que perdeu a memória após um acidente de carro.
Elas se tornam afetivamente íntimas e cúmplices na dupla missão: a loira quer estrelar um filme, a morena deseja saber quem de fato é. Em meio a essa jornada, as duas mulheres entram em um clube onde, antes da performance de uma cantora, o apresentador anuncia: "Silencio. No hay banda". Abre-se nesse instante uma espécie de portal que lança essas mulheres em um universo onírico. O que até então se tinha por "real" embaralha-se com projeções (ou memórias, ou sonhos, ou pesadelos) de uma mente perturbada.
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