
Que o mundo não foi feito para os surdos, isso praticamente todo mundo sabe. O que a protagonista do filme Surda (Sorda, 2025) aprende é que os desafios podem surgir dentro da própria casa.
Dirigido pela espanhola Eva Libertad, Surda estreou nos cinemas brasileiros na quinta-feira (14). Em Porto Alegre, tem sessões no CineBancários, às 19h nesta terça (19) e na quarta (20) e às 17h a partir de quinta (21); no Cinesystem do Bourbon Country, às 13h45min desta segunda (18), de terça e de quarta; e na Sala Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, às 14h45min de terça e de quarta e às 15h a partir de quinta. Todas as exibições contam com legenda descritiva diretamente na tela, além de recursos de audiodescrição e Libras disponíveis pelo aplicativo Conecta.
O filme foi lançado no Festival de Berlim do ano passado, onde conquistou o troféu do público na mostra Panorama. No Goya, a premiação da Academia Espanhola de Cinema, Surda venceu três categorias: melhor diretora estreante, melhor atriz revelação (Miriam Garlo) e melhor ator coadjuvante (Álvaro Cervantes). Também ganhou os prêmios Platino de melhor filme de estreia e ator coadjuvante.
Miriam Garlo, 42 anos, tornou-se a primeira atriz surda premiada no Goya. Ela é irmã da diretora Eva Libertad, e o longa-metragem foi inspirado no curta homônimo que as duas fizeram em 2021, a partir de uma vontade da atriz de ter um filho. Para escrever o roteiro do longa, a cineasta e Clara Serrano Llorens entrevistaram mulheres surdas que se tornaram mães.
No novo filme, Garlo, que já não pensava mais em ser mãe, escolheu se distanciar da personagem. A atriz é uma mulher surda oralizada, que perdeu a audição aos oito anos de idade. Na ficção, Angela tornou-se surda antes de ser alfabetizada e de desenvolver a fala.
Na trama, Angela é casada com Hector, o personagem de Álvaro Cervantes, um homem ouvinte que é bastante amoroso e inclusivo. Além de ter aprendido a língua de sinais, em um almoço com amigos, por exemplo, ele pede que falem um por vez e olhando para a esposa, de modo que ela possa fazer a leitura labial e acompanhar a conversa.

O casal vive a expectativa pela chegada do primeiro filho, que pode ser menino ou menina — e que pode ser ouvinte ou não.
O que acontece a partir do nascimento do bebê cabe ao espectador descobrir. Mas dá para dizer que a jornada de Angela, sem jamais resvalar para o dramalhão, pode "encher nossos olhos d'água", como disse a jornalista Renata Boldrini no vídeo que publicou no Instagram.
O filme também ilustra como a sociedade é excludente e despreparada para lidar com as pessoas que têm deficiência auditiva. Falta capacidade ou, no mínimo, falta empatia.
E o que Surda faz é justamente convidar o espectador a se colocar no lugar do outro. Para fazer o público compreender a perspectiva e os sentimentos de Angela, Eva Libertad adota um efeito sonoro semelhante ao aplicado pelo diretor Darius Marder em O Som do Silêncio (2019) — mas no filme espanhol seu emprego é mais abrangente, mais duradouro e, quem sabe, mais transformador.
Sentimos a angústia e a revolta da protagonista. Dentro da sala de cinema, aprendemos o que é viver em um mundo profundamente silencioso ou perturbadoramente barulhento — quando Angela resolve tentar se adaptar a um aparelho auditivo, ruídos aos quais os ouvintes estão acostumados são como o som de um terremoto. Um mundo que te olha como incapaz e que não sabe se comunicar contigo. Um mundo que nunca foi feito para você.
Mas também aprendemos que há todo um mundo lindo e acolhedor que não enxergamos nem nos esforçamos em conhecer. Surda ensina sem ser didático, comove sem ser piegas e é um filme imperdível.
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