
Pilar da família e da sociedade italiana, a mãe também tem protagonismo no cinema daquele país, vide o clássico Belíssima (1951), de Luchino Visconti, ou o recente Mia Madre (2015), de Nanni Moretti. Dentro dessa tradição, o diretor Franco Amato realizou 18 Presentes (18 Regali, 2020), filme disponível na Netflix que é perfeito para quem gosta de se lavar chorando. Fica a dica para o Dia das Mães, neste domingo (10).
Baseado na história real de Elisa Girotto, o filme provoca comentários do tipo "Tô chorando até agora", "Amei... e morri chorando!" e "Desidratada!". A sinopse promete um dramalhão: grávida e com câncer terminal, mulher deixa 18 presentes emocionantes para a filha que vai nascer, um para cada aniversário, até que ela fique adulta.
Mas assim como um filme de terror que evita os sustos fáceis, 18 Presentes consegue se desviar da pieguice. O diretor embaralha um pouco a narrativa, investe na carpintaria cinematográfica, faz com que as imagens falem mais alto do que possíveis declarações embebidas no sentimentalismo barato. Suas escolhas estéticas, contudo, não sufocam a força de seu drama inspirador.
18 Presentes pede que o espectador abrace o realismo mágico. Aliás, o cenário é de sonho: uma cidadezinha na Itália, Maserada sul Piave, onde, a julgar pelas tomadas aéreas, cada quadra corresponde a uma única casa, ornada em cima pelo característico telhado ocre e embaixo por um generoso jardim. Em um desses sobrados, mora Elisa (personagem de Vittoria Puccini), envolvida com o marido, o treinador de futebol Alessio (papel de Edoardo Leo), nos preparativos para o quarto do bebê que está para chegar. Será uma menina, o que ela descobre na mesma consulta médica em que recebe o diagnóstico de câncer.
O dia do nascimento de Anna é o mesmo da morte de Elisa. Por isso, à medida que cresce a menina passa a rejeitar os presentes desejados pela mãe. O que ela queria era sua presença.
No aniversário de 18 anos, agora interpretada por Benedetta Porcaroli, do terror Imaculada (2024) e da série O Leopardo (2025), uma revoltada Anna acaba sofrendo um acidente. Em um passe de mágica, a garota é salva por Elisa.

A mãe não reconhece a filha que está por vir, mas Anna ganha a oportunidade de, em segredo, conviver com Elisa. É uma jornada de estranhamento e de intimidade. E de aprendizado mútuo: a mãe vai entender que talvez uma bateria seja um presente mais atraente do que um piano para uma menina, a filha vai compreender que o amor materno pode perdurar no território da memória, cimentado por palavras encontradas em cadernos, por lembranças compartilhadas pelo pai e, ora, pelos 18 regali do título original.
No caminho, Franco Amato nos oferta pelo menos duas cenas belíssimas e comoventes. Em uma delas, Elisa ensina Anna a preparar uma receita caseira de biscoito de maçã. As duas cozinham abraçadas, em um momento de extrema cumplicidade.
A segunda cena remete a outra característica materna, a proteção, mas de modo inverso: Anna, que pratica saltos ornamentais, ajuda Elisa, que não sabe nadar, a se ambientar em uma piscina. Debaixo d'água, a mãe convida a própria filha a ouvir a si mesmo dentro da barriga. No filme, a piscina é como se fosse um útero, no qual a jovem mergulha profundamente em busca de algo inalcançável, a menos que ela se permita respirar a saudade, a herança e o amor deixados pela mãe.
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