
Recém exibido na competição do Festival de Cannes, de onde saiu com as mãos vazias, o novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar estreia nos cinemas de Porto Alegre nesta quinta-feira (28). Na mesma data, às 19h15min, Natal Amargo (Amarga Navidad, 2026) terá uma exibição especial na Sala Paulo Amorim. É a Sessão Almanaque21, com comentários do crítico Rodrigo de Oliveira, editor da revista homônima, e Mônica Kanitz, curadora da Cinemateca Paulo Amorim, que fica na Casa de Cultura Mario Quintana.
— Sempre esperamos muito por filmes que passaram pelo Festival de Cannes, e me parece um luxo que já tenhamos o novo do Almodóvar para conferir nos cinemas brasileiros — diz Rodrigo. — Em Natal Amargo, ele abraça a metalinguagem e tem performances consistentes de Leonardo Sbaraglia e, especialmente, de Bárbara Lennie (atriz de As Linhas Tortas de Deus). A boa mistura entre o drama e o senso de humor característico do diretor é outro ponto alto do filme. E, como de hábito na sua carreira, duas das melhores cenas são momentos musicais.
Natal Amargo é o 24º longa-metragem de Almodóvar, 76 anos, que também tem no currículo os curtas A Voz Humana (2020) e Estranha Forma de Vida (2023). Os filmes do cineasta já foram premiados em todos os principais eventos do calendário mundial do cinema.
Tudo Sobre Minha Mãe (1999) ganhou o Oscar de melhor filme internacional, o Globo de Ouro e o Bafta, além do troféu de melhor direção no Festival de Cannes, e por Fale com Ela (2002) Almodóvar venceu a categoria de roteiro original na premiação da Academia de Hollywood.
Em Cannes, o diretor também foi laureado pelo roteiro de Volver (2006). No Festival de Berlim, A Lei do Desejo (1987) conquistou o Teddy, dedicado a produções com temática LGBTQIA+. Em Veneza, Almodóvar recebeu a Osella de Ouro pelo script de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) e o Leão de Ouro por O Quarto ao Lado (2024).

Baseado em conto do livro O Último Sonho (2024), escrito pelo próprio Almodóvar, Natal Amargo é mais um filme que tem um cineasta como protagonista, a exemplo do já citado A Lei do Desejo, de Má Educação (2004), de Abraços Partidos (2009) e de Dor e Glória (2019). O maior parentesco é com esse último título.
Em Dor e Glória, Antonio Banderas interpreta um alter ego de Almodóvar, Salvador Mallo, um diretor de cinema sessentão que sofre com dores crônicas, bloqueio criativo e memórias da infância. É um exercício de autoficção como Natal Amargo, em que há dois cineastas, ambos lidando com suas dores e as dores dos outros e com os limites éticos da criação artística.
Embalados pelas cordas nervosas da música composta por Alberto Iglesias, os créditos de abertura indicam o emprego da estrutura de mise en abyme, ou seja, a do filme dentro de um filme. Quem está digitando os caracteres, descobriremos mais adiante, é outro alter ego de Almodóvar, Raúl Duran, personagem encarnado pelo ator argentino Leonardo Sbaraglia.

Raúl já fez seus melhores filmes, e agora parece viver só do seu prestígio. Depois de cinco anos sem filmar, está escrevendo um roteiro que espelha seus próprios dilemas criativos: ele pode transformar pessoas do seu convívio — como o jovem companheiro Santi (papel de Quim Gutiérrez) e sua assistente de longa data, Mónica (Aitana Sánchez-Gijón) — e situações reais em personagens e histórias ficcionais?
— Estará tudo misturado com a ficção. Ninguém vai reconhecer — Raúl diz a certa altura.
— Ele vai reconhecer — retruca sua interlocutora.
A ficção que Raúl está escrevendo se passa em 2004 e tem como personagem principal Elsa Rosado (vivida por Bárbara Lennie, em atuação magnetizante). Ela já foi uma cineasta cult — muito adorada, mas por pouca gente —, e agora trabalha na publicidade, que lhe traz retorno financeiro. Foi assim que conheceu o namorado, o bombeiro Bonifácio (Patrick Casado).
Elsa é vítima de enxaquecas terríveis, e durante uma crise violenta a única saída é refugiar-se em uma casa de praia em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, para onde vai com uma amiga, Patricia (Victoria Luengo). Lá, ela também começa a escrever um roteiro para voltar a fazer um filme.

Pedro Almodóvar narra em paralelo as histórias de Elsa e de Raúl. À medida que o filme avança, as tramas vão se espelhando e se mesclando, o que permite ao diretor espanhol trabalhar com alguns de seus temas mais frequentes: o luto e o processo criativo. O embaralhamento metalinguístico entre a "realidade" e a ficção também suscita o que pode ser visto como um desnudamento autocrítico de Almodóvar, que expõe dúvidas, inseguranças e erros.
A crítica Mônica Kanitz comenta:
— A arte sempre imitou a vida na obra de Pedro Almodóvar. Agora, em mais um roteiro engenhoso, o diretor mostra como isso acontece de fato. Natal Amargo pode não ser um Almodóvar "premium", mas a proposta de fazer um filme dentro de um filme para abordar os dilemas do protagonista acaba servindo para o próprio diretor analisar sua trajetória e se transformar num artista cheio de questionamentos. E isso é um deleite para o seu público fiel.
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