
Toda seleção de futebol tem o seu 7 a 1. O vexame francês não foi uma goleada como aquela sofrida pelo Brasil na semifinal da Copa do Mundo de 2014, contra a Alemanha, mas também deixou uma marca indelével na história esportiva do país.
O fiasco tampouco foi testemunhado por uma multidão de torcedores. Aliás, sequer aconteceu dentro de campo: seus cenários mais emblemáticos foram um vestiário, com as portas evidentemente fechadas, e um ônibus, com as cortinas vergonhosamente cerradas.
Essas portas e essas cortinas são abertas em um documentário recentemente lançado pela Netflix: A Greve da Seleção da França (Le Bus: Les Bleus en grève, 2026), que revisita a desastrosa e polêmica participação da equipe na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.
Rico em bastidores, o documentário foi dirigido por Christophe Astruc e Jérôme Fritel e conta com depoimentos de alguns dos principais personagens da história. Aparecem, por exemplo, o ex-treinador Raymond Domenech, hoje com 74 anos, e os ex-jogadores Patrice Evra, 45, William Gallas, 48, e Bacary Sagna, 43, além de François Manardo, que era o assessor de imprensa da seleção, Roselyne Bachelot-Narquin, então ministra da Saúde, da Juventude e dos Esportes, o jornalista Sébastien Tarrago e o ex-diretor do jornal L'Équipe, François Morinière.
Ganhadora da Copa em 1998, ao golear o Brasil por 3 a 0, a seleção francesa chegou à África do Sul sem Zidane, já aposentado, mas na condição de vice-campeã mundial, após perder nos pênaltis para a Itália a final de 2006. Mas sua classificação para o torneio de 2010 constituiu um dos maiores escândalos do futebol. Se já houvesse VAR (o árbitro assistente de vídeo, que estreou em 2018), certamente o gol que valeu a vaga na repescagem das Eliminatórias europeias teria sido anulado: na prorrogação contra a Irlanda, o atacante Thierry Henry domina claramente com a mão a bola antes de passar para Gallas empurrar para as redes.

Os resultados nos amistosos preparatórios, como uma derrota para a inane China, aumentaram a desconfiança sobre a França, que ainda trazia na bagagem a eliminação precoce na Eurocopa de 2008 (ficou em último no grupo que tinha Holanda, Itália e Romênia). E tudo piorou a partir do momento em que a delegação se instalou em Knysna, uma cidade na costa sul-africana.
Além de ser eliminada já na primeira fase, após empatar em 0 a 0 com o Uruguai e perder por 2 a 0 para o México e por 2 a 1 para a África do Sul, a seleção francesa protagonizou um festival de erros nas áreas de liderança e gestão de crise.

Técnico do time desde julho de 2004, Raymond Domenech pisou na bola logo de cara. Diante do pedido de Henry para deixar de ser o capitão, não respeitou a hierarquia do grupo: em vez de dar a braçadeira ao zagueiro Gallas, que era o vice-capitão, elegeu o lateral-esquerdo Evra.
Domenech, vale dizer, é um sujeito afeito a decisões esquisitas e controvertidas. Adepto da astrologia, ele disse que uma das primeiras coisas que fez ao assumir a seleção foi cortar quatro jogadores do signo de Escorpião. Ao ser convidado para o documentário da Netflix, deu acesso ao diário pessoal no qual fazia anotações ofensivas sobre seus comandados — chegou a chamar o suposto sucessor de Zidane, o meia Gourcuff, de "autista" e "idiota". Quando a grande crise no Mundial de 2010 estoura, afloram o seu ego inflado e seus gestos autoritários.
Foi no intervalo do jogo contra o México, em Polokwane, quando o placar ainda estava zerado. Domenech reclamou do posicionamento do atacante Nicolas Anelka, que vinha recuando muito. Houve uma discussão, e Anelka teria rebatido com um insulto que acabou reproduzido em uma manchete de capa do jornal esportivo francês L'Équipe: "Va te faire enculer, sale fils de pute!". Em bom português, "Vai tomar no cu, seu filho da puta!".

Anelka não voltou para o segundo tempo. Na verdade, nunca mais voltou a vestir a camisa da seleção francesa.
O documentário dá voz a versões contraditórias e a opiniões divergentes sobre o que aconteceu no vestiário e sobre suas consequências, que incluíram até uma manifestação do então presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a greve mencionada no título.
Revoltados com a expulsão de Anelka da delegação, os jogadores decidiram não treinar na tarde de 20 de junho, dois dias antes da partida decisiva contra a África do Sul. Apenas distribuíram autógrafos para os torcedores presentes. Indignado, o preparador físico Robert Duverne se desentendeu com Evra e quase partiu para a briga, sob as lentes da imprensa. Depois, os atletas entraram no ônibus para voltar ao hotel — mas demoraram muito tempo para sair do lugar, porque Domenech havia escondido a chave do veículo.

Na França, onde já haviam sido batizados como "impostores" por causa do futebol praticado, os jogadores passaram a ser vistos como "marmanjos mimados" e "traidores da pátria". Sagna, que é negro, enxerga teor racista nas críticas:
— Quando as coisas deram errado, para quem apontaram?
Na conquista da Copa de 1998, o lema Black-Blanc-Beur (Preto, Branco e Árabe) celebrou o multiculturalismo da seleção e do país. No fracasso de 2010, Marine Le Pen, líder da extrema-direita na França, diz que "clãs étnicos e religiosos criam uma espécie de apartheid dentro da própria equipe".
Entre os entrevistados do documentário, há quem garanta que Anelka nunca tenha dito aqueles palavrões, e o próprio Domenech desmente a manchete. Mas, na época, o treinador jamais negou a denúncia e recusou-se a descer do quarto de hotel para uma reunião com os jogadores na qual o atacante se desculparia.
Mas se Anelka queria se desculpar, é por que realmente xingou Domenech? Se o jogador não ofendeu o técnico, por que Evra, em uma tensa entrevista coletiva, acusou a presença de um traidor na equipe, alguém que levou à imprensa o que ocorreu no vestiário? E por que a ministra Roselyne, na África do Sul, acolheu os jogadores como se fosse uma mãe e depois, ao discursar em Paris, chamou-os de "bandidos imaturos"?

As contradições não depõem contra A Greve da Seleção da França, pelo contrário: ilustram como a chamada verdade é turva e escorregadia, como podem haver versões diferentes de um fato e como a opinião pública pesa na opinião pessoal.
Mas há uma lacuna gigantesca: falta a voz do próprio Anelka. Menos mal que também está disponível na Netflix o documentário Anelka: O Incompreendido (2020), de Franck Nataff, que reconstitui a turbulenta carreira do atacante que passou por PSG, Arsenal, Real Madrid, Manchester City, Fenerbahçe e Chelsea.
Assistir a A Greve da Seleção da França e depois a Anelka: O Incompreendido é um programa duplo irresistible e formidable.
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