
Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, a Netflix lança nesta sexta-feira (29) Brasil 70: A Saga do Tri, minissérie em cinco episódios que reconstitui a preparação, os bastidores, os jogos e os gols da vitoriosa campanha da Seleção Brasileira no Mundial de 1970, realizado no México.
A série foi criada por Rafael Dornellas e Naná Xavier e é uma coprodução entre a Netflix e a O2 Filmes. A direção geral é assinada por Paulo Morelli e seu filho, Pedro Morelli, com episódios dirigidos também por Quico Meirelles.

Três personagens reais têm protagonismo. Rodrigo Santoro encarna João Saldanha (1917-1990), o gaúcho de Alegrete que treinou e classificou a Seleção nas Eliminatórias, mas acabou demitido a menos de três meses do início da Copa. Pesou o contexto político: eram os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, e Saldanha, comunista de carteirinha, entrou em atrito com o presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), que queria a convocação do centroavante Dario, o Dadá Maravilha.
— Nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala a Seleção — retrucou o treinador, que não deixou de ir para o México, mas como comentarista das transmissões narradas por Eusébio Teixeira, um locutor fictício vivido por Marcelo Adnet.

Bruno Mazzeo interpreta seu substituto, Mário Jorge Lobo Zagallo (1931-2024), um exemplo da ambiguidade humana. Por um lado, Zagallo é um homem da ciência, no sentido de estudar e implementar esquemas táticos que permitiram acomodar no mesmo time cinco camisas 10: Pelé, Gérson, Tostão, Rivellino e Jairzinho. Por outro, é um sujeito supersticioso, notoriamente apegado ao número 13, e religioso, devoto fervoroso de Santo Antônio e de Nossa Senhora Aparecida.
O terceiro personagem principal é simplesmente Edson Arantes do Nascimento, o Pelé (1940-2022). Quem interpreta o Rei do Futebol é um ator estreante, Lucas Agrícola, 35 anos, que chegou a disputar campeonatos na várzea de sua cidade natal, Santa Bárbara D'Oeste (SP).
Na segunda-feira (25), Agrícola e Mazzeo concederam entrevista. Confira (e clique aqui se quiser ler a crítica da série):
O personagem Pelé sente, na trama, o peso de ser Pelé. E para você, Lucas, como é o peso de ser o Pelé da ficção?
Lucas Agrícola: É um peso gigante contar a história desse cara que é um ícone mundial. Uma responsabilidade muito grande. Tem que ter muito estudo, muita dedicação, muito empenho para entregar à altura o que ele merece. Tive que estudar a pressão que o Pelé sentiu, toda a carga que ele carregou em 1970, sendo cobrado para se posicionar sobre assuntos como a ditadura militar e também a pressão que sofria dentro de campo. Ele já não queria jogar a Copa, porque tinha ficado traumatizado por causa das lesões nas duas Copas anteriores (em 1962, no Chile, e em 1966, na Inglaterra). E teve todo um trabalho de preparação física, que eu já tinha, porque jogava o campeonato amador na minha cidade, a famosa várzea, mas houve todo um cuidado para eu não me machucar, inclusive por passar 10, 12 horas com chuteira nos pés nos dias de gravação.
O Zagallo da minissérie não é o Zagallo que muita gente conhece, aquele que foi coordenador técnico da Seleção Brasileira na conquista do Tetra, em 1994, campeão da Copa América e da Copa das Confederações como treinador, em 1997, e comandante da equipe no Mundial de 1998. Como foi interpretar esse personagem que não é tão conhecido do grande público?
Bruno Mazzeo: Esse foi o grande desafio e ao mesmo tempo a maior delícia como ator. Quando a maioria de nós conheceu o Zagallo, ele já era consagrado, um cara muito seguro das suas ideias, ainda mais pela idade. Esse era o desafio: fazer o Zagallo com 40 anos, pouca experiência como técnico e nenhum título ainda, pegando a Seleção em cima da hora. E sem muitos registros em vídeo do Zagallo dessa época, a não ser numa entrevista antes de um jogo, uma entrevista no treino, coisa muito simples. Então, a gente ficou tentando imaginar como seria esse Zagallo, através de pesquisa, de leituras e de documentários que tinham jogadores falando sobre ele. Hoje em dia, os clubes e as seleções filmam o vestiário, a preleção, as coletivas, mas naquela época não havia esses recursos, então não sei como é que era o Zagallo, se ele falava gritando, se ele falava baixinho, se ele falava um por um... A gente teve de montar um quebra-cabeça para criar esse personagem.
Vocês podem falar sobre as gravações das cenas de treino e jogo?
Lucas Agrícola: É muito difícil gravar futebol. Muito difícil. Porque as jogadas não dependiam só de mim, né? Eu preciso que a bola chegue redonda para eu fazer as jogadas, o outro jogador precisa acertar para que eu possa acertar. E o adversário também precisa acertar. Era uma coreografia. às vezes, a bola chegava a mim por último, todo mundo acertava e eu não podia errar. Às vezes todo mundo acertava, mas as câmeras não pegavam. Imagina a luta!
Bruno Mazzeo: É a produção de futebol mais bem filmada que já teve, sério. Tinha drone, tinha carrinho que ia correndo atrás dos jogadores em várias velocidades, uma loucura. E tem que ter a cabeça no lugar para atuar e fazer os movimentos, porque é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, tem muita gente acompanhando tudo.
Lucas Agrícola: Exato. Aquela jogada contra a Tchecoslováquia em que o Gérson faz o lançamento lá do meio de campo e o Pelé domina no peito e faz o gol, eu lembro que nesse dia o set tinha muitos figurantes, tipo uns 800 na torcida. Todo mundo ficava em silêncio e esperando o lançamento do Gérson, aí eu olhava todo mundo esperando minha jogada, pô, imagina a pressão.
Bruno Mazzeo: Não é fácil ser Rei.

Brasil 70: A Saga do Tri chega às vésperas de uma Copa do Mundo e com a Seleção Brasileira vivendo um momento de desconfiança, mais ou menos como aconteceu com o time de 1970, que havia trocado de treinador menos de três meses antes da estreia. Como foi relembrar esses tempos e aquela glória?
Bruno Mazzeo: Eu sou muito nostálgico, estou ficando velho, estou ficando saudosista demais. É um tempo que eu não pude viver, ver, mas eu gostaria muito de ter vivido essa Seleção de 70, a Seleção de 58, a de 62. Eu espero que essa série motive os nossos jogadores de hoje. Acho que eles têm que assistir, eles têm que entender como era com o futebol naquele tempo, sem essa grana toda, sem esse marketing todo, sem esse business todo. E, ao mesmo tempo, ver ali a paixão do povo brasileiro e dos próprios jogadores em busca daquele título. Acho que pode ser motivador pra eles, tomara.
Lucas Agrícola: Acho que é lição de casa para a Seleção Brasileira assistir à série. Se a série não motivar os jogadores, eu não sei o que vai motivar.
Qual foi o momento mais emocionante na gravação da série?
Lucas Agrícola: Posso citar dois? Um é o quase gol, o do drible da vaca do Pelé no goleiro do Uruguai (na semifinal). Foi um dia muito emocionante porque a jogada, no meu ponto de vista, ficou idêntica. E era uma jogada da qual a gente estava com muito medo. A gente tinha reservado uma diária grande para gravar esse lance, e matamos em cinco, seis, sete tentativas, todas as câmeras pegaram, graças a Deus, todo mundo gritou no set. O segundo momento é a cena do choro no ônibus, chegando ao estádio no dia da final, quando o Pelé estava muito emocionado.
Bruno Mazzeo: A minha cena mais emocionante foi a do chafariz, do encontro do Zagallo com o João Saldanha. Essa cena está linda. Porque é uma cena que os dois estão descompensados, o Saldanha está bêbado, o Zagallo está com a coisa da santinha quebrada. É a única cena que ele aparece descabelado, inclusive. Essa cena foi muito especial não só por ser o momento em que Saldanha e Zagallo de alguma maneira se conectam, mas também porque foi a última cena filmada, lá no México. Então, depois de três meses e meio de trabalho, você fechar, e com uma cena tão emblemática, é sempre uma sensação muito boa, apesar do vazio que vem depois.
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