
A segunda temporada da série policial dinamarquesa O Homem das Castanhas, lançada na quinta-feira (7) pela Netflix, me deixou duplamente chocado.
O primeiro choque foi por causa de algo que acontece — mas pode ficar sossegado, aqui não haverá spoilers sobre os novos seis episódios.
Depois desse acontecimento, vem o segundo choque: em vez de ganhar força, a história começa a fraquejar. Seguimos até o final mais por inércia do que por um desejo genuíno e incontrolável de desvendar o novo mistério imposto aos detetives Naia Thulin (interpretada por Danica Curcic) e Mark Hess (vivido por Mikkel Boe Følsgaard).
O Homem das Castanhas adapta livros de noir nórdico do escritor dinamarquês Søren Sveistrup, o mesmo autor da série de TV The Killing (2007-2012), que depois ganhou uma versão nos EUA. Na primeira temporada, lançada em 2021 e dirigida por Kaspar Barfoed e Mikkel Serup, Thulin e Hess investigaram um caso que começou com o assassinato de uma jovem mãe. Seu corpo foi encontrado em um parque de Copenhague, sem uma das mãos. Próximo dela, havia um pequeno boneco feito de castanhas.

Com uma nova dupla de diretores — Milad Alami e Roni Ezra —, a segunda temporada não chega a ser uma continuação direta. Na verdade, O Homem das Castanhas: Pique-Esconde (Kastanjemanden: Taelle til en, Taelle til to, 2026) parece uma imitação da série original.
Novamente, a trama aborda lares desfeitos, traumas de família e violência doméstica. Novamente, retrata uma vingança metódica. Novamente, tem início no passado e na zona rural, onde ocorre a descoberta de um crime bárbaro.

Estamos em 1992 e acompanhamos o passeio de uma turma escolar por uma floresta. Ao depararem com ovos de passarinho no chão, o professor explica aos alunos sobre o parasitismo de ninhada do cuco. Depois, durante uma brincadeira de esconde-esconde, as crianças acham um cadáver em cima de galhos dispostos como um ninho.
No presente, Thulin e Hess, após um relacionamento amoroso mal resolvido, se veem obrigados a trabalhar juntos outra vez. Os policiais precisam investigar o nebuloso desaparecimento de uma mãe divorciada — como o espectador já sabe, a vítima foi seguida e sequestrada por uma pessoa que enviava por celular mensagens ameaçadoras. Essas mensagens recriam rimas usadas no esconde-esconde. E logo haverá um novo crime com o mesmo modus operandi.

Como na primeira temporada de O Homem das Castanhas, paralelamente se desenvolve o drama de outra mãe, a professora Marie (papel de Sofie Gråbøl). Sua filha mais velha, Emma, foi assassinada dois anos atrás, e o caso nunca foi solucionado.
Mais uma vez, a série nos convida a elucubrar sobre a conexão entre as três situações. Intuímos que em algum momento o crime de 1992 vai voltar à tona, mas quando, como e por quê? E quem, no tempo presente, está escondendo algo?

Os enigmas são intrigantes, mas a série subestima a inteligência e a experiência do espectador ao fazer seus personagens apostarem demais em uma pista que é evidentemente falsa. Por outro lado, esse desvio narrativo conduz a segunda temporada de O Homem das Castanhas a uma cena que pode nos deixar atônitos e até provocar choro.
É uma armadilha que a série cria para si própria: como prosseguir? Como ampliar ou pelo menos manter a tensão emocional? Será que a revelação da identidade do vilão e de sua motivação vai ter impacto semelhante?
A resolução causa tanto incredulidade quanto uma sensação de déjà vu.
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