
Comédia é um gênero difícil de indicar.
Uns gostam de pastelão, outros preferem sofisticação, e o estado de espírito do espectador também pesa na hora de assistir a uma série de humor, assim como a companhia influencia — risadas alheias têm o poder da multiplicação.
Mas vou me arriscar: na lista abaixo, estão 10 seriados que provocaram algumas das mais gostosas gargalhadas da minha vida. Quando estou precisando rir, é só rever algum episódio.
Todos estão disponíveis nas plataformas de streaming, e a ordem é apenas alfabética. Clique nos links se quiser saber mais.
1) The Big Bang Theory (2007-2019)

A comédia criada por Chuck Lorre e Bill Prady fez um tremendo sucesso de público e ganhou um total de 10 Emmys, sendo quatro para Jim Parsons, como melhor ator no papel de Sheldon Cooper (personagem que acabou gerando um spinoff, O Jovem Sheldon). Sheldon divide o apartamento com Leonard Hofstadter (Johnny Galecki), seu colega no Instituto de Tecnologia da Califórnia.
Ambos são nerds de carteirinha, como o engenheiro aeroespacial Howard Wolowitz (Simon Helberg) e o astrofísico Rajesh Koothrappali (Kunal Nayyar), e convivem com a vizinha Penny (Kaley Cuoco), uma garçonete e aspirante a atriz incapaz de diferenciar Star Trek de Star Wars, mas que sabe muito mais da vida prática e da vida social do que a turma de amigos. (HBO Max, 12 temporadas, 279 episódios)
2) Brooklyn Nine-Nine (2013-2021)

Tira sarro de uma das classes trabalhadoras mais retratadas pelos dramas da TV e do streaming, a dos policiais. Criada por Dan Goor e Michael Schur, a série retrata o cotidiano da 99ª Delegacia de Nova York, no Brooklyn. O alto índice de crimes solucionados leva a crer que Jake Peralta (encarnado por Andy Samberg) seja um detetive genial e um profissional exemplar, mas não é bem assim. Imaturo e irreverente, ele entra em choque com o novo comandante, o metódico e disciplinador Ray Holt (papel do saudoso Andre Braugher, que morreu em 2023), que se orgulha de ser o primeiro capitão negro e gay da polícia nova-iorquina.
A galeria de coadjuvantes inclui o sargento Terry (interpretado por Terry Crews), que contrasta musculatura e doçura; a detetive Amy Santiago (Melissa Fumero), nerd, CDF e desesperada pela aprovação de Holt; a intimidante Rosa Diaz (Stephanie Beatriz), que provavelmente não dá um único sorriso ao longo de toda a série; Gina Linetti (Chelsea Peretti), uma secretária debochada, excêntrica e narcisista; e os veteranos Hitchcock (Dirk Blocker) e Scully (Joel McKinnon Miller), ambos preguiçosos e incompetentes. (Netflix, 8 temporadas, 153 episódios)
3) O Estúdio (2025-)

Grande campeã do Emmy de 2025, esta sátira sobre Hollywood acompanha as desventuras de Matt Remick (papel de Seth Rogen, que dirige a série com Evan Goldberg). Trata-se de um produtor cinematográfico que, logo no primeiro capítulo, é alçado ao cargo de chefe do fictício Continental Studios. Ele ainda acredita na integridade artística em uma indústria cada vez mais superficial e ancorada em propriedade intelectual (leia-se: franquias, continuações, prólogos etc), mas acaba incumbido de desenvolver uma superprodução com o Jarrão do Kool Aid, a marca de suco em pó conhecida no Brasil como Ki-Suco.
As tramas de O Estúdio contam com um timaço de cineastas e estrelas fazendo participações especiais: de Martin Scorsese a Charlize Theron, de Ron Howard a Zöe Kravitz, de Sarah Polley a Zac Efron. O segundo episódio, feito em plano-sequência, é impagável. (Apple TV, 1 temporada até agora, 10 episódios)
4) A Grande Família (2001-2014)

Reinvenção, por Cláudio Paiva, da série homônima exibida entre 1972 e 1975, A Grande Família virou um dos maiores exemplos de sucesso e longevidade do século 21: foram 14 temporadas. A comédia é sobre uma família de classe média, os Silva, moradora de um subúrbio na zona norte do Rio.
Há histórias antológicas, como Um Tapinha Não Dói (2002), em que Lineu (Marco Nanini) comeu biscoitos estranhos, teve crise de riso e dançou durante o jantar — era maconha. Os roteiristas tinham a habilidade e a sensibilidade de revezar o foco sobre os personagens, apostando em tramas que ressaltavam a característica principal de cada membro da família e dos agregados, como a personalidade certinha de Lineu, a essência mãezona de Nenê (Marieta Severo) e a malandragem de Agostinho (Pedro Cardoso), o genro. (Globoplay, 14 temporadas, 485 episódios)
5) Machos Alfa (2022- )

A série espanhola criada e dirigida pelos irmãos Alberto Caballero e Laura Caballero tira sarro da masculinidade frágil e da masculinidade tóxica, que não raro se combinam. A história começa em uma aula de um curso de desconstrução do machismo. Os personagens principais são quatro amigos quarentões: Santi (Gorka Otxoa), o pai divorciado de uma adolescente; Luís (Fele Martínez), policial metropolitano que tem dois filhos pequenos e vive em crise com a esposa por causa da falta de sexo; Pedro (Fernando Gil), um alto executivo de uma emissora de TV demitido por causa de um programa com cunho machista e namorado de uma influenciadora digital; e Raúl (Raúl Tejón), um sócio de restaurante que é infiel, hipócrita e inseguro no namoro com uma advogada.
Machos Alfa equilibra o humor escrachado com a crítica social ao patriarcado e a sua coleção de preconceitos (às vezes praticados por quem mais se acha "cabeça aberta"), não descuida das personagens femininas e evita o conto de fadas: alguns homens vão realmente aprender a lidar com a transformação da sociedade e das relações de gênero, outros vão querer continuar aferrados a seus privilégios. Ah, vale avisar que tem cenas calientes — definitivamente, não dá para ver com as crianças! (Netflix, 5 temporadas até agora, 42 episódios)
6) Modern Family (2009-2020)

Pentacampeã no Emmy de melhor comédia, de 2010 a 2014, a série de Christopher Lloyd e Steven Levitan gira em torno de uma família que vive se metendo em apuros, geralmente porque os personagens não dizem o que pensam — se bem que alguns na verdade falam demais!
Jay (Ed O'Neill), o patriarca, casou-se com a colombiana sexy Gloria (Sofia Vergara), bem mais jovem do que ele e mãe de Manny (Rico Rodriguez), que tem gostos refinados e atitudes maduras demais para sua idade. Jay também é pai de Mitchell (Jesse Tyler Ferguson), que adota uma bebê vietnamita com o companheiro Cameron (Eric Stonestreet), e de Claire (Julie Bowen), casada com Phil Dunphy (Ty Burrell) e mãe de três filhos, Haley (Sarah Hyland), Alex (Ariel Winter) e Luke (Nolan Gould). Papel que valeu a Burrell dois Emmys e mais seis indicações, Phil é o típico pai descolado e um modelo quando o tema é educação infantil — na opinião dele. O filho deu tiros com uma arma de chumbinho na irmã? Atire nele de volta. (Disney+, 11 temporadas, 250 episódios)
7) Os Normais (2001-2003)

Aparentemente, Rui (personagem de Luiz Fernando Guimarães) e Vani (encarnada por Fernanda Torres) formam um típico casal de classe média, na faixa dos 30 anos, tido como "normal". Mas a dupla é cheia de manias, preconceitos, paranoias, superstições e falhas de caráter — o que, francamente, é normal, né?
O casal de roteiristas Fernanda Young (1970-2019) e Alexandre Machado criou tramas que exploram situações cotidianas, desde implicâncias bobas com os hábitos do parceiro a fofocas pouco edificantes. Os atores vestiram a camisa de seus personagens sem nenhum pudor, o que rende hilários diálogos improvisados e cenas que beiram a vergonha alheia, como bem apontou o repórter Carlos Redel no aniversário de 20 anos de Os Normais. Também quebram a quarta parede: se viram para a câmera e despejam conselhos estranhos, frases motivacionais e pensamentos bizarros, tornando o público cúmplice de suas maluquices. (Globoplay, 3 temporadas, 71 episódios)
8) The Office (2005-2013)

Desenvolvida por Greg Daniels com base no homônimo seriado britânico de Ricky Gervais e Stephen Merchant, a versão estadunidense de The Office deixou como legado um dos maiores personagens das comédias: Michael Scott, o chefe sem noção encarnado por Steve Carell (seis vezes indicado ao Emmy). No escritório da fábrica de papel Dunder Mifflin, Michael sintetiza vários problemas do mundo corporativo, mas, ao fazer isso, acaba por lembrar como somos imperfeitos. Não raro, nossa reação a suas atitudes passa da vergonha alheia à mais sincera ternura.
Tanto melhor que ele está rodeado de outros tipos memoráveis, como o excêntrico Dwight (Rainn Wilson), o isentão Jim (John Krasinski), a insegura Pam (Jenna Fischer), a rígida Angela (Angela Kinsey), Stanley (Leslie David Baker), o rei da má vontade, e Toby (Paul Lieberstein), que, à frente do RH, é o alvo preferido do protagonista. (Amazon Prime Video, HBO Max e Netflix, 9 temporadas, 201 episódios)
9) Scrubs (2001-2010/2026-)

Confesso que ainda não vi o revival lançado em 2026, mas a série original mora no meu coração. Criada por Bill Lawrence e ambientada em um hospital-escola, Scrubs parece uma mistura de Plantão Médico com o humor ácido de Seinfeld, as fantasias de Ally McBeal e as lições de vida de Anos Incríveis.
A cada episódio, o médico residente J.D. Dorian (papel de Zach Braff) narra seus acertos e seus fracassos com um ingenuidade cativante. Seus amigos são Eliot (Sarah Chalke), uma loira estabanada, Turk (Donald Adeosun Faison), um cirurgião ególatra, e Carla (Judy Reyes), uma enfermeira ora durona, ora boazinha. Seu ídolo é o intempestivo e sarcástico doutor Cox (John C. McGinley). O vilão de nosso herói é o zelador (Neil Flynn) que adora intimidá-lo. (Disney+, 10 temporadas até agora, 191 episódios)
10) Seinfeld (1989-1998)

O seriado foi criado por Larry David e por Jerry Seinfeld, que interpreta uma versão fictícia de si mesmo: um comediante judeu e fã do Superman. Situado no Upper West Side de Manhattan, em Nova York, o apartamento do protagonista vive frequentado pelos amigos Cosmo Kramer (Michael Richards), que é o amalucado vizinho de porta, George Costanza (Jason Alexander), baixinho, gordinho, careca e deveras complexado, e Elaine Benes (Julia Louis-Dreyfus), que é a única que de fato trabalha. Também circulam por lá alguns parentes de Jerry, suas muitas namoradas e seu nêmesis, o carteiro Newman (Wayne Knight).
Por vezes genial na estrutura das histórias (vide o episódio do casamento na Índia, feito de trás para frente alguns anos antes do filme Amnésia, de Christopher Nolan), Seinfeld não se furtava de ir às raias do nonsense, nem de fazer citações à literatura, à ópera, ao cinema. Também era absolutamente politicamente incorreta. Não à toa, na sua despedida os personagens enfrentaram as consequências da falta de princípios éticos e morais. Se você nunca viu, recomendo começar pela quarta temporada, que tem sete episódios considerados clássicos: The Bubble Boy, The Contest, The Pick, The Outing, The Implant, The Junior Mint e The Handicap Spot. (Netflix, 9 temporadas, 180 episódios)
Bônus: Os Jovens Titãs em Ação! (2013-)

Se você tem um pezinho no mundo nerd (ou está atolado nele, como eu), esta série de animação faz uma ponte maravilhosa entre crianças e adultos. As primeiras vão se divertir com o visual (coloridíssimo), o ritmo (por vezes frenético) e o humor (escrachado) das aventuras vividas por uma equipe de super-heróis da DC: Robin, Estelar, Cyborg, Ravena e Mutano. Aos mais velhos, também há o apelo das piadas nonsense e das inúmeras referências a outros personagens dos quadrinhos (as aparições do Batman são hilárias).
Lá em casa, a Helena adora o Cyborg, um debochado de mão (biônica) cheia, a Aurora ama o Mutano, porque pode se transformar em qualquer animal, até nos que não existem, e eu sou fã do Robin _ sua chatice é comovedora. (HBO Max, 10 temporadas até agora, 447 episódios)
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