
Michael (2026), o filme sobre Michael Jackson (1958-2009) que estreou nos cinemas nesta quinta-feira (23), dá sequência à onda de cinebiografias musicais iniciada por Bohemian Rhapsody (2018).
O longa-metragem sobre Freddie Mercury (1946-1991), o vocalista da banda britânica Queen, foi um sucesso de bilheteria (arrecadou mais de US$ 900 milhões), conquistou quatro prêmios no Oscar — melhor ator (Rami Malek), edição, edição de som e mixagem de som — e abriu caminho para uma dezena de títulos sobre estrelas da música cantada em inglês.
O Brasil também surfa nessa praia. Somente em 2023, o país lançou quatro obras: Meu Nome É Gal, com Sophie Charlotte no papel de Gal Costa, Meu Sangue Ferve por Você, sobre Sidney Magal, Mamonas Assassinas: O Filme e Nosso Sonho, sobre a dupla Claudinho & Buchecha.
A seguir, fiz um ranking, do pior ao melhor, dos filmes produzidos em Hollywood nesses últimos nove anos (vale frisar: o ponto de partida é Bohemian Rhapsody). Houve um esquecimento voluntário: ao montar a lista, descobri que não vi Respect: A História de Aretha Franklin (2021), dirigido por Liesl Tommy, estrelado por Jennifer Hudson e disponível para aluguel em Apple TV, Google Play e YouTube. Clique nos links se quiser saber mais.
13º) Stardust (2020)

De Gabriel Range. Esta crônica sobre a primeira visita de David Bowie (1947-2016) aos Estados Unidos, em 1971, foi feita sem aval da família do Camaleão do Rock. Portanto, acabou virando uma cinebiografia musical que não tem músicas do biografado! Para piorar, o personagem interpretado por Johnny Flynn foi concebido como um artista inseguro e apático, sem sombra da personalidade forte e instigante de Bowie. E sua metamorfose em Ziggy Stardust, em tese o principal tema da trama, acontece abruptamente, não é construída com clareza narrativa. (Globoplay)
12º) I Wanna Dance with Somebody: A História de Whitney Houston (2022)

De Kasi Lemmons. É um dos maiores fracassos comerciais das cinebiografias musicais: custou US$ 45 milhões e arrecadou somente US$ 59 milhões. Também foi muito malhado pela crítica, que só poupou a atuação de Naomi Ackie na pele de Whitney Houston (1963-2012), desde os tempos de backing vocal em shows da sua mãe até sua morte, aos 48 anos, em um quarto de hotel. I Wanna Dance with Somebody retrata a glória de Whitney mas também os problemas com sua sexualidade, com drogas e no casamento com o cantor Bobby Brown (papel de Ashton Sanders). Apesar da longa duração (são 145 minutos), o filme é raso na maior parte do tempo. É como se fosse uma colcha de retalhos produzida com base na Wikipédia. (Netflix)
11º) The Dirt: Confissões do Mötley Crüe (2019)

De Jeff Tremaine. Conta a história de sucesso e excesso da banda de glam metal formada em 1981, em Los Angeles. Daniel Webber interpreta o vocalista do Mötley Crüe, Vince Neil, Douglas Booth encarna o baixista Nikki Sixx, Iwan Rheon faz o papel do guitarrista Mick Mars, e Colson Baker dá vida ao baterista Tommy Lee. É um filme fraquinho e, apesar das cenas com drogas e conteúdo sexual, quase inofensivo. (Netflix)
10º) Bohemian Rhapsody (2018)

De Bryan Singer. O sucesso de bilheteria e as vitórias no Oscar não anulam os pontos negativos do filme sobre Freddie Mercury e o Queen, a começar pela própria interpretação de Rami Malek, que é quase caricatural — já que não canta, o ator resolveu apostar muito no físico. O roteiro adota um tom higienizado, suavizando os excessos do protagonista, e toma muitas liberdades ao alterar a cronologia dos fatos. Por exemplo: na ficção, Freddie recebe o diagnóstico de aids e comunica ao guitarrista Brian May (encarnado por Gwilym Lee), ao baixista John Deacon (papel de Joseph Mazzello) e ao baterista Roger Taylor (vivido por Ben Hardy) às vésperas da apresentação no festival beneficente Live Aid, em 13 de julho de 1985. Na vida real, o cantor foi diagnosticado em 1987 e informou a banda em 1989. Bohemian Rhapsody também faz confusão com a primeira viagem do Queen ao Brasil, em 1981, para shows no Estádio Morumbi, em São Paulo: o filme coloca a estreia da banda por aqui no fim dos anos 1970 e no Rio de Janeiro. E ilustra isso com cenas gerais do Rock in Rio de 1985. (Disney+)
9º) Back to Black (2024)

De Sam Taylor-Johnson. Retrata a ascensão meteórica e a morte precoce da icônica cantora britânica Amy Winehouse (1983-2011), interpretada por Marisa Abela. O filme conta a história por trás do disco Back to Black (2006), que valeu a Amy cinco prêmios Grammy. Também estão em foco os dramas da cantora, como a dependência química e o tumultuado relacionamento com Blake Fielder-Civil (personagem de Jack O'Connell). Talvez para não ser acusado de sensacionalista, o filme seja delicado demais ao examinar a dura realidade do estrelato pop e do vício em drogas. Também pega leve demais com Blake e com o pai da artista, o taxista Mitch (encarnado por Eddie Marsan), e reduz Amy Winehouse a uma mulher perdidamente apaixonada — seu talento nunca é o foco. Mas há pelo menos um ponto forte: a coragem de Abela, que canta todas as músicas, incluindo momentos à capella. A decisão tomada pela diretora garante autenticidade emocional, e o trabalho vocal da atriz para reproduzir o timbre de Amy impressiona. (Netflix)
8º) Estados Unidos vs Billie Holiday (2021)

De Lee Daniels. Andra Day venceu o Globo de Ouro de melhor atriz em comédia ou musical e recebeu uma indicação ao Oscar por encarnar a cantora Billie Holiday (1915-1959), um dos grandes nomes do jazz e do blues e também uma ativista na luta contra o racismo. O filme tem algumas passagens brilhantes, como a do sonho que transporta a protagonista para dentro do cenário descrito na canção Strange Fruit, cujos versos denunciam e condenam os linchamentos de negros que ocorriam no sul dos EUA. Mas o diretor promove uma bagunça estilística, alternando a cartilha básica das cinebiografias com cenas supostamente autorais. Andra Day faz jus ao adjetivo visceral, mas Estados Unidos vs Billie Holiday não explora matizes da personagem: ora ela é a estrela que galvaniza a audiência quando está no palco, ora é a viciada que se afunda na heroína, no álcool e nos braços de homens abusivos e violentos. (Amazon Prime Video)
7º) Bob Marley: One Love (2024)

De Reinaldo Marcus Green. É bastante superficial ao tentar comprimir em menos de duas horas todos os episódios importantes e todas as facetas de Bob Marley (1945-1981), como seu discurso político, suas crenças religiosas, seu lado mulherengo e sua paixão pelo futebol. A superficialidade é ressaltada pela quantidade de trechos musicais, que pelo menos são bem orquestrados e têm letras que sublinham a trama ou até funcionam como material narrativo. One Love vale pela música do rei do reggae, é claro, e também pela atuação de Kingsley Ben-Adir, que canta em alguns momentos mais acústicos, mais íntimos — como na linda cena em que o protagonista mostra Redemption Song para sua esposa, Rita (vivida por Lashana Lynch). O ator trabalha muito bem a fisicalidade do personagem e se esmerou na prosódia do ídolo jamaicano — por vezes cômica, em outras, incisiva. Uma pena que o filme tenha pouco a dizer. (Telecine)
6º) Michael (2026)

De Antoine Fuqua. O filme vem sendo muito defendido pelos fãs e muito atacado pelos críticos. Mas em um ponto parece haver consenso: sobrinho de Michael Jackson (1958-2009), o cantor e dançarino Jaafar Jackson consegue incorporar o Rei do Pop no visual, na voz, nos trejeitos, no canto e na dança. São muito boas as cenas que recriam a gravação em estúdio de Don't Stop Til You Get Enough (1979) e as filmagens dos lendários videoclipes de Beat It e Thriller (ambas em 1983). A pulsação em uma sala de cinema pode convidar o espectador a dançar ou até a chorar de emoção.
Mas esta é uma cinebiografia polida demais. Evita polêmicas e trata com condescendência ou arranja jeito de justificar as excentricidades do astro — o pai (encarnado por Colman Domingo) surge como o grande vilão da história. A crítica Liz Shannon Miller, no site Consequence of Sound, resumiu bem: "Este é um filme com medo de explorar a interioridade de seu protagonista, e essa abordagem vai funcionar perfeitamente para os fãs que só querem assistir a uma narrativa descomplicada, que basicamente desfila pelos maiores sucessos de Michael Jackson". Aliás, a certa altura a trama deixa de lado a (mínima) atenção ao processo criativo, o desenvolvimento dos personagens e a progressão dramática e passa a cumprir tabela, fazendo Michael se tornar apenas um grandioso show de covers. (Em cartaz nos cinemas)
5º) Springsteen: Salve-me do Desconhecido (2025)

De Scott Cooper. Uns 15 minutos a mais fariam bem ao filme, para, por exemplo, explicar ao público leigo como Bruce Springsteen alcançou o estrelato sendo um porta-voz da classe operária nos EUA. Um dos méritos do roteiro é se limitar a um período bem específico da carreira do protagonista interpretado por Jeremy Allen White, que canta de verdade em muitas cenas — vide as vibrantes interpretações de Born to Run em um show e, principalmente, a de Born in the U.S.A. em um estúdio. A trama se passa sobretudo em 1981. Então com 30 e poucos anos, Bruce tinha chegado ao fim da turnê de seu quinto disco, The River, que lotou ginásios e estádios. Seu empresário e produtor, Jon Landau (papel de Jeremy Strong), aluga uma casa isolada em Colts Neck, cidadezinha do Estado de Nova Jersey perto de onde o cantor cresceu.
Nesse endereço, Bruce vai compor as músicas de seu próximo álbum, o austero, melancólico, sombrio e lendário Nebraska. Mas, mais do que isso, poderá se esconder da fama cada vez mais crescente e com a qual ainda não sabe lidar. Outro diferencial de Springsteen: Salve-me do Desconhecido em relação a outras cinebiografias é dar atenção ao processo criativo. Mostra tanto a inspiração para as letras quanto a busca obsessiva do artista para encontrar uma sonoridade singularíssima. (Disney+)
4º) Better Man: A História de Robbie Williams (2024)

De Michael Gracey. Não merecia ter sido um monumental fracasso financeiro: orçado em US$ 110 milhões, faturou somente US$ 22 milhões nas bilheterias. O alto custo se deve aos efeitos visuais, que pelo menos foram indicados ao Oscar: o cantor britânico Robbie Williams é representado como um chimpanzé criado por computação gráfica a partir da captura de expressões e movimentos do ator Jonno Davies, que também empresta a voz ao personagem — mas é o próprio Robbie quem canta e narra a história. O filme não chega a justificar essa escolha inusitada, mas o biografado disse que é uma metáfora da sua visão como "macaco de circo": dedicado exclusivamente ao entretenimento dos outros e cada vez mais alheio a sua humanidade.
O recurso funciona porque combina com o senso de humor galhofeiro e autodepreciativo do artista e com o clima fantástico dos números musicais — vide a alucinante coreografia em que os integrantes da boy band Take That desfilam pela Regent Street ao som de Rock DJ, um hit chacoalhante da carreira solo do protagonista. Conta pontos para Better Man também a honestidade ao retratar o comportamento autodestrutivo de Robbie, sua obsessão pela fama e sua inveja pelo sucesso dos outros — incluindo sua noiva, Nicole Appleton (vivida por Raechelle Banno), cantora do grupo All Saints, personagem com quem ele canta a belíssima balada She's the One, da banda World Party, em outro momento marcante do filme. (Amazon Prime Video)
3º) Um Completo Desconhecido (2024)

De James Mangold. Recebeu oito indicações ao Oscar, incluindo as categorias de melhor filme, direção, ator (Timothée Chalamet), ator coadjuvante (Edward Norton) e atriz coadjuvante (Monica Barbaro), mas não ganhou nada. Um Completo Desconhecido acerta ao se concentrar nos primeiros anos de carreira de Bob Dylan e ao escolher o elenco. Chalamet evita a caricatura ao interpretar o ícone do folk rock e consegue expressar diferentes emoções do personagem — desde o artista ávido por reconhecimento à celebridade com dificuldade de lidar com a fama. Norton empresta honra e generosidade a Pete Seeger, Boyd Holbrook contrabandeia sabedoria e coragem por baixo da embriaguez de Johnny Cash, e Barbaro rouba a cena cada vez que aparece na pele de Joan Baez, às vezes transmitindo paixão e combatividade apenas com o olhar.
Há dois grandes conflitos na trama. Um, talvez o mais visível, seja o da busca pela liberdade artística versus as expectativas da indústria e do próprio público. O outro, conforme disse o colunista Paulo Germano, é: como um artista tão profundo e lírico na sua leitura de mundo consegue ser tão precário nas relações pessoais? Mas o filme acaba se tornando convencional, discreto e até superficial. Bob Dylan soube traduzir o espírito da época em canções de protesto, como Blowin' in the Wind (1962) e The Times They Are a-Changin' (1964), mas James Mangold nunca se interessa em fazer o protagonista conversar sobre seus temas, em discutir suas letras e o impacto provocado, ou em esmiuçar o processo criativo do compositor. (Disney+)
2º) Rocketman (2019)

De Dexter Fletcher. Ao encarnar Elton John e cantar todas as músicas em cena, Taron Egerton ganhou o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical, e o filme também faturou o Oscar de canção original, I'm Gonna Love me Again, composta por Elton e seu célebre letrista, Bernie Taupin (interpretado por Jamie Bell na ficção). Na trama, o astro britânico narra pontos marcantes da sua vida e da sua carreira. Os flashbacks não miram só os sucessos, pelo contrário: evidenciam os fracassos. Aliás, Rocketman começa em uma reunião de alcoólicos anônimos, onde o protagonista chega com o extravagante figurino de um show e diz mais ou menos assim: "Oi, meu nome é Elton Hercules John. Eu sou viciado em álcool, cocaína e sexo. Sofro de bulimia, sou um comprador compulsivo e tenho acessos de raiva".
À medida que vai tirando a roupa, Elton se despe também do cinismo. Com sinceridade, ele rememora a infância marcada por brigas entre seu pai, que era rígido e distante com o filho, e sua mãe (encarnada por Bryce Dallas Howard), o longo processo de aceitação da sua homossexualidade, a luta contra a depressão e o relacionamento conturbado com o empresário John Reid (papel de Richard Madden). Bastante criativos, os números musicais são como momentos de fantasia que permitem ao personagem fugir do seu inferno pessoal, além de emprestarem muito dinamismo à narrativa — vide a cena em que toda a família de Elton John canta I Want Love. (Aluguel em Amazon Prime Video, Apple TV, Google Play e YouTube)
1º) Elvis (2022)

De Baz Luhrmann. Indicado ao Oscar em oito categorias, incluindo melhor filme e melhor ator (Austin Butler), Elvis é narrado por um personagem ambíguo e inconfiável, o coronel Parker (papel de Tom Hanks), o empresário com quem Elvis Presley (1935-1977) firmou uma espécie de pacto com o Diabo. Os biógrafos, os fãs e até os detratores do cantor podem reclamar que sua esposa, Priscilla Presley, aparece menos do que o esperado e que não se fala do namoro ter começado quando ela tinha 14 anos e ele, 24. E também podem sentir falta de profundidade na abordagem do debate sobre apropriação cultural de uma música inventada por negros, o rock, por artistas brancos.
Mas Elvis é um filme espetacular. Reflete na forma e no ritmo o espírito irrequieto do protagonista, sua energia, sua extravagância, seu requebro sedutor e suas várias transformações. Com duas horas e 40 minutos, vai desde a infância do biografado em Tupelo, no Mississippi, onde ele descobriu sua conexão com a música negra e seu prazer em ser adorado, até a morte na mansão Graceland, em Memphis, no Tennessee. Entre uma coisa e outra, assistimos ao desfile de diferentes fases: a do terno cor de rosa, a do uniforme militar, a do traje de couro preto e a dos macacões de Las Vegas. É o próprio Austin Butler quem canta os sucessos da juventude; nas cenas a partir do '68 Comeback Special, o diretor recorreu a gravações originais. No final, que recria a interpretação da última canção no último show do cantor, só não chora quem já morreu por dentro. (HBO Max e Netflix)
Bônus: Homem com H (2025)

De Esmir Filho. Protagonizada por Jesuíta Barbosa, é a grande cinebiografia musical brasileira dos últimos anos — talvez a melhor na comparação com as internacionais. O filme reafirma que Ney Matogrosso sempre foi um símbolo da luta contra a caretice e da defesa apaixonada de uma liberdade infinita, seja na vida artística, seja na vida pessoal. Mas Homem com H também mostra como a trajetória do cantor espelhou a do próprio Brasil, oprimido pela ditadura militar e por preconceitos sociais. (Netflix)
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