
Ao disponibilizar antecipadamente para a imprensa os episódios de uma série, as plataformas de streaming costumam enviar junto uma carta nas quais relacionam informações, detalhes e spoilers a serem evitados pelos críticos em seus textos, vídeos ou podcasts. A lista da segunda temporada de Treta (Beef, 2023), que estreia nesta quinta-feira (16) na Netflix, impressiona pela quantidade: tem 15 pontos.
Pelo menos neste caso, tamanho é documento. A lista reflete como a trama vai muito além do que uma simples treta entre dois casais. Esses quatro personagens, por sua vez, estão sempre escondendo, mentindo, trapaceando, manipulando. E há uma sucessão de descobertas e reviravoltas.
Entregue esses ingredientes a um elenco em estado de graça e você tem uma série altamente viciante: difícil resistir à tentação de assistir aos oito episódios de uma vez só.

Criada por Lee Sung Jin, um estadunidense de 44 anos nascido na Coreia do Sul, Treta estreou como uma minissérie, em 2023. Uma discussão no trânsito entre um empreiteiro solteiro e endividado (Danny, papel de Steven Yeun) e uma bem-sucedida mas infeliz mãe de família (Amy, vivida por Ali Wong) desencadeia uma espiral de ódio e vingança. É como se os personagens encontrassem na briga um sentido para suas vidas. O desenvolvimento da trama traz à tona mentiras e segredos, retratando a ansiedade e a intransigência do mundo contemporâneo.
Sucesso de audiência, Treta conquistou uma coleção de prêmios. Foram oito troféus no Emmy, três no Globo de Ouro e quatro no Critics Choice. Assim, a Netflix resolveu retomar o título.

Na segunda temporada, Lee Sung Jin firma outra parceria com o diretor Jake Schreier, o mesmo do filme Thunderbolts* (2025), mas escreveu uma história que não dá continuação à da série original e tem um elenco totalmente novo.
Novo e estrelado. Os quatro personagens principais são encarnados por Carey Mulligan, indicada ao Oscar de melhor atriz por Educação (2009), por Bela Vingança (2020) e por Maestro (2023); Oscar Isaac, concorrente no Emmy de melhor ator pela minissérie Cenas de um Casamento (2021); Cailee Spaeny, laureada com a Coppa Volpi de melhor atriz no Festival de Veneza pela cinebiografia Priscilla (2023); e Charles Melton, que disputou o Globo de Ouro de ator coadjuvante por Segredos de um Escândalo (2023).
Há ainda uma premiada dupla sul-coreana: a atriz Youn Yuh-jung, ganhadora do Oscar de coadjuvante por Minari: Em Busca da Felicidade (2020), e Song Kang-ho, vencedor do troféu de melhor ator no Festival de Cannes por Broker: Uma Nova Chance (2022) — além de ser conhecido como o pai da família pobre em Parasita (2019).

Na trama, Spaeny e Melton interpretam os jovens noivos Ashley e Austin, empregados de um luxuoso clube de campo. Certa noite, os dois testemunham — e gravam em um vídeo no celular — uma briga pesada entre o solícito gerente do empreendimento, Josh (papel de Isaac), e sua esposa, a sofisticada decoradora Lindsay (encarnada por Mulligan).
A partir deste acontecimento, os quatro personagens entram em um jogo de favores e coerções e competem pela aprovação da nova dona do clube, a presidente Park (interpretada por Youn Yuh-jung). A ricaça sul-coreana enfrenta os próprios desafios com seu segundo marido, o doutor Kim (vivido por Song Kang-ho), um cirurgião plástico.

Por causa do cenário, da estratificação social dos personagens e da mistura de comédia com suspense, a segunda temporada roça em uma armadilha: a de se tornar, como O Casal Perfeito (2024) ou Sereias (2025), outra tentativa da Netflix de surfar na onda de The White Lotus, série da HBO Max que também nasceu como minissérie e que em 2027 ganhará sua quarta temporada. Embora já estivesse presente na temporada de 2023, o emprego de detalhes de pinturas nas apresentações dos títulos dos episódios também contribui para uma sensação de déjà vu, pois remete aos créditos de abertura de The White Lotus.
Já na comparação com a primeira temporada de Treta, Lee Sung Jin evita repetir uma "fórmula" — não temos, por exemplo, os flashbacks que acrescentam camadas aos dramas do presente. Mas o roteirista manteve a essência da série: cada ação gera uma reação, cada fagulha gera um incêndio, em um ciclo vicioso que tem como combustível outras frustrações — familiares, amorosas, econômicas.
Cada cena amplia o desnudamento moral dos personagens, que paulatinamente revelam suas falhas de caráter e suas fragilidades emocionais — mas também aquilo que os tornam profundamente humanos, palpáveis e críveis. Ninguém é 100% bom ou ruim, sonhos dignos coexistem com a ambição mesquinha.
E cada drama, sobre temas que vão das dinâmicas conjugais à obsessão pela aparência, passando pelos conflitos de classe e de gerações, por nossa dependência do ChatGPT e pelo altíssimo custo da saúde nos EUA, é temperado por um senso de humor que não tem medo de pisar nos terrenos do absurdo, do grotesco e do politicamente incorreto.
Sobretudo quando examina os mecanismos e as idiossincrasias dos relacionamentos, discutindo, por exemplo, se existe a pessoa certa e por que ficamos juntos com alguém, a segunda temporada de Treta pode nos fazer rir — nem que seja de nervosos — enquanto expõe verdades dolorosas sobre o que chamamos de amor e de casamento.
Há pelo menos um duelo verbal antológico: aquele em que Josh e Lindsay despejam acusações um contra o outro e mágoas nunca superadas, transmutando em "porcaria" as lembranças de momentos de suposto companheirismo e de suposta alegria do casal.
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