
O filme sobre Michael Jackson (1958-2009) é melhor do que eu esperava. Mas isso não significa que Michael (2026) seja uma obra-prima.
Com sessões de pré-estreia nesta terça (21) e na quarta (22) e em cartaz nos cinemas a partir de quinta-feira (23), Michael é o mais recente título de uma onda que vem celebrando astros do rock e do pop cantado em inglês. O ponto de partida foi Bohemian Rhapsody (2018), que contou a história de Freddie Mercury, o vocalista da banda britânica Queen.
O sucesso de público — arrecadou mais de US$ 900 milhões nas bilheterias — e as quatro conquistas no Oscar (incluindo a categoria de melhor ator, com Rami Malek) abriram caminho para muitas cinebiografias musicais, como Rocketman (2019), sobre Elton John, Stardust (2020), sobre David Bowie, Estados Unidos vs. Billie Holiday (2021), Elvis (2022), I Wanna Dance with Somebody: A História de Whitney Houston (2022), Bob Marley: One Love (2024), Back to Black (2024), sobre Amy Winehouse, Um Completo Desconhecido (2024), sobre Bob Dylan, e Springsteen: Salve-me do Desconhecido (2025).
O Brasil também surfa nessa praia. Em 2023, o país lançou Meu Nome É Gal, Meu Sangue Ferve por Você (sobre Sidney Magal), Mamonas Assassinas: O Filme e Nosso Sonho (sobre a dupla Claudinho & Buchecha). Em 2025, Homem com H reconstituiu a trajetória de Ney Matogrosso.
O ápice da onda pode acontecer em 2028, quando vão estrear os quatro filmes sobre os Beatles que estão sendo dirigidos por Sam Mendes, cineasta de Beleza Americana (1999) e de 1917 (2019). Cada longa-metragem vai abordar a história da banda sob o ponto de vista de um integrante: Paul McCartney (interpretado por Paul Mescal), John Lennon (papel de Harris Dickinson), George Harrison (encarnado por Joseph Quinn) e Ringo Starr (vivido por Barry Keoghan).
A vida e a carreira do chamado Rei do Pop também não se resumirá a um só filme. Como indica um letreiro ao final, Michael deve ter uma segunda parte — a não ser que se torne um inesperado fiasco comercial.

Eu tinha expectativas baixas. Primeiro porque o diretor Antoine Fuqua não combina com cinebiografias musicais. Seu negócio é dirigir filmes de ação, e de preferência protagonizados por Denzel Washington, como Dia de Treinamento (2001), a trilogia O Protetor (2014, 2018 e 2023) e a refilmagem de Sete Homens e um Destino (2016).
Segundo porque Jaafar Jackson, que faz o papel principal, nunca tinha atuado antes. Basicamente, o cantor e dançarino de 29 anos foi escalado por ser sobrinho de Michael Jackson.
E terceiro porque os produtores do filme cortaram o final original, que abordava a acusação de abuso sexual que teria sido cometido pelo cantor contra um garoto de 13 anos, em 1993. Ou seja, fui assistir a Michael ciente de que seria uma biografia chapa-branca, interessada apenas em mostrar o inegável talento, a invejável genialidade e a estratosférica popularidade do artista.

É verdade que o filme encena momentos tensos, como a vez em que o cabelo de Michael pegou fogo durante a gravação de um comercial. Mas o roteiro escrito por John Logan, indicado ao Oscar por Gladiador (2000), O Aviador (2004) e A Invenção de Hugo Cabret (2011), evita polêmicas. Ou pior: trata com condescendência e arranja jeito de justificar as excentricidades excêntrico de Michael, que ao longo dos anos transformou radicalmente sua aparência (aliás, o racismo é um tema abordado apenas em uma passagem cômica que envolve a MTV) e que mantinha cobra, chimpanzé, girafa, lhama e outros animais na sua casa. A mãe do cantor, encarnada por Nia Long, nunca vê nada de estranho no comportamento do filho. Os irmãos somente fazem uma piada ou outra, sem demonstrar qualquer tipo de preocupação. Acho que um pouco de controvérsia enriqueceria o protagonista e o filme em si.
O pai é o grande vilão da história, que começa em 1966, na cidade de Gary, em Indiana. Joe Jackson (papel de Colman Domingo) era um tirano como empresário dos filhos, do grupo The Jackson 5 — seu mantra coloca em palavras o lado sombrio do chamado sonho americano: ou vocês são vencedores, ou são perdedores. Ele batia de cinto no pequeno Michael (interpretado pelo estreante Juliano Valdi) e chamava o guri de narigudo. Sem poder viver uma infância plena, o menino se refugiava em livros como Peter Pan, no qual fantasiava a vingança contra o pai e que inspirou o nome de seu rancho e parque de diversões na Califórnia, Neverland.

A atuação de Domingo é um dos pontos positivos de Michael. Indicado ao Oscar de melhor ator por Rustin, em 2024, e por Sing Sing, em 2025, ele até se credencia para concorrer pela terceira vez na premiação da Academia de Hollywood, agora na categoria de coadjuvante.
E tenho de admitir que Jaafar Jackson justifica sua escalação como Michael Jackson. Além da semelhança física, ele consegue incorporar o tio na voz — é espantoso quando seu personagem fala pela primeira vez —, nos trejeitos, no canto e na dança. São muito boas as cenas que recriam a gravação em estúdio de Don't Stop Til You Get Enough (1979), um dos primeiros sucessos da carreira solo de MJ, e as filmagens dos lendários videoclipes de Beat It e Thriller (ambas em 1983). A pulsação em uma sala de cinema pode convidar o espectador a dançar ou até a chorar de emoção.
O problema é que a certa altura o filme deixa de lado a (mínima) atenção ao processo criativo, o desenvolvimento dos personagens e a progressão dramática e passa a cumprir tabela, simplesmente pulando de um ponto marcante na trajetória do Michael Jackson para outro. Alguns bons coadjuvantes, como o produtor e compositor Quincy Jones, vivido por Kendrick Sampson, são largados no meio do caminho. Quem conhece um pouco da história da indústria musical dessa época sabe o quanto a parceria entre os dois mudou o pop e foi decisiva para o sucesso do astro. Outras pessoas importantes nem chegam a ganhar alguma personalidade: tirando La Toya Jackson, difícil distinguir quem é quem entre os irmãos de Michael.

Mesmo querendo fazer uma espécie de álbum de figurinhas da trajetória de Michael Jackson, o filme deixa de fora momentos muito marcantes. Não há qualquer menção, por exemplo, à gravação de We Are the World (1985), canção e videoclipe produzidos pra ajudar a diminuir a fome na África. Provavelmente porque daria uma trabalheira e custaria uma dinheirama reconstituir os bastidores daquela noite mágica da música pop dos Estados Unidos. Seria preciso obter os direitos de imagem e contratar atores parecidos com Lionel Richie, Bruce Springsteen, Cyndi Lauper e Bob Dylan, entre outros.
O final é bastante preguiçoso. Ao emendar duas longas apresentações ao vivo, uma de Human Nature, em 1984, e outra de Bad, em 1988, com direito a closes inúteis em uma plateia de figurantes sem a menor cara de anos 1980, Michael nem parece mais um filme, mas só um show de covers.
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