Uma campanha da associação Eu Decido tenta puxar conversa sobre um tema que, no Brasil, ainda é muito evitado e que é cercado por desconforto, silêncio e impasse moral: o direito de decidir sobre o próprio fim.
Para isso, a campanha escolheu um atalho emocional. Em vez de partir de conceitos jurídicos ou argumentos médicos, o curta-metragem Cachorrinho (2026) aposta numa situação reconhecível para muita gente: a despedida de um animal de estimação em sofrimento.
Produzido integralmente com uso de inteligência artificial, o vídeo usa essa imagem íntima e dolorosa para abrir uma conversa mais ampla sobre morte assistida, autonomia e dignidade no fim da vida.
No curta, uma mulher precisa lidar com a decisão de interromper a dor de seu cachorro, doente e sem perspectiva de cura. Anos depois, ela própria aparece em uma condição irreversível, mas sem o direito de fazer a mesma escolha sobre si.
É dessa assimetria que a campanha retira sua provocação central. Por que a sociedade admite discutir dignidade e alívio da dor quando se trata de um animal, mas ainda evita enfrentar o tema quando ele envolve seres humanos?
A campanha marca a primeira ação da Eu Decido, associação civil sem fins lucrativos fundada em maio de 2025 e voltada à defesa da legalização da morte assistida no país. Segundo a entidade, o objetivo é ampliar um debate ainda pouco presente no espaço público brasileiro e informar a população sobre escolhas possíveis relacionadas ao fim da vida.

Uma pesquisa do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, o Sincep, de 2018, mostra que 73% dos brasileiros evitam falar sobre a morte. Cerca de 10% chegam a acreditar que tocar no assunto pode atrair esse desfecho. Para a campanha, esse silêncio faz com que muitas pessoas só procurem entender seus direitos quando já estão em estágio terminal, transferindo decisões delicadas para familiares que nem sempre conhecem seus desejos.

Presidente da Eu Decido, Luciana Dadalto afirma que o filme quer provocar uma reflexão a partir dessa contradição:
— A Eu Decido acredita que cada pessoa é a única que pode decidir sobre seus cuidados de saúde e, em especial, sobre o fim da sua vida. A comparação do filme não é perfeita, uma vez que é a tutora que decide pelo cachorro, mas levanta uma reflexão importante: porque podemos escolher pelos nossos pets, mas não por nós mesmos? Morrer com dignidade é um direito humano e um direito fundamental, devendo a pessoa ser a única responsável pela escolha do que é, para ela, uma vida digna. Entendemos "boa morte" como aquela com o máximo possível de autonomia e autodeterminação.
Além da defesa da legalização da morte assistida, a Eu Decido diz ter uma missão educativa de difundir no país informações sobre direitos e escolhas já existentes em torno do fim da vida, entre eles o testamento vital, a recusa terapêutica e os cuidados paliativos. A associação reúne juristas, comunicadores, médicos, psicólogos, pacientes e artistas, entre eles Andreas Kisser, Drauzio Varella, Marina Lima, Christian Dunker e Juca Kfouri.
*Produção: João Vítor Debiasi





