
Estreia nesta quinta-feira (9) nos cinemas o grande ganhador do Festival de Gramado do ano passado: Cinco Tipos de Medo (2025). Ambientado em Cuiabá, no Mato Grosso, o título recebeu quatro Kikitos: melhor filme, ator coadjuvante, para o rapper Xamã, roteiro e montagem — ambos assinados pelo próprio diretor, Bruno Bini.
Trata-se de um filmaço de crime e suspense que não deve nada às produções de Hollywood, da França, da Inglaterra, da Índia ou da Coreia do Sul. Mais do que isso: é um dos melhores exemplares do gênero nos últimos anos.
Cinco Tipos de Medo foi produzido pela Plano B Filmes e pela Druzina Content, empresa da gaúcha Luciana Druzina — por falar em RS, também fazem parte da equipe o músico Leo Henkin, autor da trilha sonora original, e os desenhistas de som Kiko Ferraz e Ricardo Costa.

O diretor é o cuiabano Bruno Bini, que estreou em longas-metragens com Loop (2020). Cinco Tipos de Medo é uma expansão do seu curta Três Tipos de Medo (2016).
A história é baseada em um episódio real, quando moradores do bairro Jardim Novo Colorado, na capital do Mato Grosso, se uniram para pagar a fiança de líder do tráfico, temendo que sua ausência deixasse a comunidade vulnerável à violência de outras facções.
No Festival de Gramado, o cineasta apresentou assim o novo trabalho:
— Cinco Tipos de Medo é um filme que nasce do Brasil profundo, com contradições, potências e histórias que muitas vezes ficam fora do radar nacional. É um filme sobre como a violência urbana afeta nossa vida de forma absurda, às vezes inesperada, e sobre como a gente busca redenção no meio da dor. Então, o filme também é sobre encontros, sobre compartilhar, sobre deixar as pessoas entrarem na nossa vida.
A trama de "Cinco Tipos de Medo" (SEM spoilers)

Por se tratar de um tipo de filme em que o segredo é a alma do negócio, a descrição da trama de Cinco Tipos de Medo será sucinta, para evitar spoilers.
Uma narração em off na abertura do filme relaciona os cinco maiores medos identificados por uma pesquisa: medo de médico, medo de lugares fechados, medo da solidão, medo de ficar sem dinheiro e medo de morrer. Cada um deles é ilustrado por uma brevíssima cena que mostra os cinco personagens principais.

Bella Campos, a Maria de Fátima da novela Vale Tudo (2025), retoma o sotaque de sua cidade natal, Cuiabá, para interpretar Marlene, enfermeira que ficou desempregada depois da pandemia de covid-19.
O rapper Xamã, o Búfalo da série Os Donos do Jogo (2025), dá vida a Sapinho, líder do tráfico de drogas no Jardim Novo Colorado.

Bárbara Colen, atriz de Bacurau (2019), encarna a policial Luciana, capitã do Bope.
João Vitor Silva, o Bruno de Verdades Secretas (2015-2021) e o Haroldo de O Agente Secreto (2025), vive o jovem violinista Murilo.
E Rui Ricardo Diaz, protagonista de Lula, o Filho do Brasil (2009) e coadjuvante de Anaconda (2025), faz o papel do advogado Ivan, que tem uma filha prematura ainda internada no hospital.

Todo o elenco se destaca, em especial Bárbara Colen, que protagoniza cenas intensas de ação psicológica e de ação física. Mas o astro mesmo é Bruno Bini, que vai muito bem nos seus três papéis: diretor, roteirista e também montador.
O ponto de partida da ciranda do filme é um ataque a tiros à casa de uma dessas cinco pessoas. A partir daí, Bini faz pequenos recuos no tempo narrativo e revisita cenas para mostrar como as cinco trajetórias se conectam, se cruzam e se chocam, emparedando seus personagens com dilemas morais.
O cineasta opera um jogo de alta complexidade que desperta curiosidade sobre o processo de criação da sua estrutura: será que Bini escreveu a história de cada personagem e depois foi embaralhando tudo? Será que o roteiro já previa a construção não linear ou essa foi uma ideia que surgiu na montagem?

Ao receber o Kikito de melhor roteiro, Bruno Bini comentou:
— O ato de escrever é muito solitário. Eu gosto, só que às vezes fica muito difícil. No caso deste filme, era muito desafiador, bastante complexo, mas era um desafio que me propus. A gente tinha um roteiro quando começamos as filmagens, mas quando aquele time (disse apontando para a equipe na plateia) chegou, esse roteiro tomou outra vida, tomou outro corpo, tomou mais energia. Quando a gente se debruçou sobre ele de forma coletiva, com muita generosidade da equipe, eu finalmente consegui sentir que a gente tinha uma história que valia muito a pena contar. O roteiro que antes era meu acabou sendo de todo mundo.
Seja como for, o quebra-cabeça de Cinco Tipos de Medo não tem nenhuma peça fora do lugar nem sobrando. Tudo se amarra, tudo se completa. Até pecinhas que pareciam bobagens insignificantes lá na frente podem se tornar relevantes e decisivas.
Que coisa boa ver um filme de crime, suspense e investigação policial em que o espectador nunca está à frente, mas sempre atrás dos passos do diretor, que nos conduz com muita segurança por um labirinto violento.
Porém, fazendo jus ao discurso de Bruno Bini no palco do Palácio dos Festivais, Cinco Tipos de Medo não é só um thriller muito bem executado. O resultado na tela confirma suas palavras: vê-se como a violência urbana contamina, podendo tragar para sua espiral cidadãos comuns, adolescentes pacíficos, pais traumatizados. Vê-se as contradições e potências de um Brasil que costuma ficar fora do radar. Vê-se o peso do encontro e o valor do compartilhamento de emoções.
Por falar nisso, Cinco Tipos de Medo não investe apenas na tensão, no mistério e na ação. Pode provocar riso, mesmo nas situações mais perigosas, e até choro. Só que o filme atinge nosso coração sem exagerar no dulçor — o retrogosto é mais amargo que se poderia imaginar.
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