
Protagonizado por Zendaya e Robert Pattinson, o filme O Drama (The Drama, 2026), que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (9), tem um elefante enorme no meio da sala.
Na trama, Zendaya interpreta Emma, e Pattinson faz o papel de Charlie. Quando o filme começa, eles estão na semana dos últimos preparativos para o casamento. Cada um está escrevendo e compartilhando com os amigos o que vai dizer na cerimônia. Charlie, por exemplo, afirma adorar como Emma transforma os dramas dele em comédia.
Parece que estamos diante de uma comédia romântica como qualquer outra, mas quem já viu o trailer sabe que alguma coisa balançou o relacionamento, a ponto de o casal não conseguir sorrir com naturalidade durante uma sessão de fotos. E quem conhece o diretor e roteirista de O Drama sabe que esse filme não vai ser uma simples comédia romântica.
O norueguês Kristoffer Borgli é o mesmo cineasta de Doente de Mim Mesma (2022) e de O Homem dos Sonhos (2023). Pode-se enxergar em O Drama características dos dois títulos anteriores, como as cenas que embaralham o real e o imaginado, o tema da cultura do cancelamento e o clima de constante desconforto.
A certa altura, Emma inverte a mão: transforma uma comédia em drama. E então faz surgir o elefante enorme no meio da sala.
Não se pode ignorá-lo e é preciso nomeá-lo, portanto, fica o alerta de que haverá SPOILERS a partir daqui.

No dia em que Emma, Charlie e os padrinhos Rachel (vivida por Alana Haim, de Licorice Pizza) e Mike (personagem de Mamoudou Athie, da série Arquivo 81) estão provando os pratos e os vinhos a serem servidos no casamento, os quatro amigos resolvem contar qual foi a pior coisa que cada um já fez na vida. As confidências provocam risos, embora algumas ações tenham sido realmente vergonhosas, até que Emma revela: quando tinha 15 anos, ela planejou um massacre a tiros no colégio onde estudava. Chegou a levar um rifle para a escola, mas não seguiu adiante com o plano.
Pronto. Essa revelação chocante muda tudo na relação entre os personagens do filme — e muda tudo também na relação dos espectadores com o filme.
O Drama pergunta: o amor é incondicional? Será que conhecemos de verdade a pessoa que amamos? Como conciliar a visão idealizada com a realidade? Você já contou tudo sobre seu passado para quem divide a cama contigo? Há coisas que não merecem perdão? Segredos que impedem uma segunda chance? Existe uma calculadora moral para medir o que é aceitável e o que não é? Até onde vai a nossa hipocrisia?

Todas essas perguntas são válidas, pertinentes e instigantes. O problema é que o próprio filme interdita uma parte muito importante do debate ao tratar como segredo de Estado o motivo da crise entre Emma e Charlie.
Sobreviventes dos ataques a tiros em colégios e pais de vítimas reclamam que O Drama usa as chacinas escolares apenas como elemento de um plot twist e criticam o marketing do filme, por esconder essa questão em vez de aproveitar a influência de Zendaya e Robert Pattinson para discutir sobre essa tragédia cotidiana dos Estados Unidos.
A comunidade negra também se queixou, citando estatísticas: são homens brancos que atacam a tiros em escolas e universidades. Negros são raros, mulheres são raríssimas — uma mulher negra, então, é praticamente uma fantasia.
É verdade que o filme não deixa de criticar a presença massiva das armas de fogo na sociedade, na cultura e no imaginário do país. Também fala sobre o que pode levar um adolescente a querer matar seus colegas, encenando em flashbacks episódios de bullying, isolamento social e depressão e mostrando como atiradores são encorajados, ensinados e endeusados em fóruns da internet.
E a identidade racial de Emma suscita leituras como a que fizeram a curadora de arte Andreza Delgado, fundadora da Perifacon, e a jornalista Karol Gomes: ambas negras, no Instagram elas refletiram sobre como o racismo estrutural está por trás das reações de Charlie à confissão da noiva.
Mas O Drama aborda seus temas complexos com ironia e comicidade, o que, pelo menos nos Estados Unidos, gera compreensível controvérsia. Será que dá para fazer humor sobre tiroteios em escolas enquanto famílias choram por filhos e irmãos mortos e milhões de crianças e adolescentes vivem com medo de que sua sala de aula vire palco de uma matança? E nós podemos rir, mesmo que de nervoso?
Extrapolando, O Drama reafirma a liberdade de expressão artística ao mesmo tempo em que convida a refletir sobre os possíveis limites da arte. E este é um mérito inegável do filme: faz o espectador sair do cinema com zilhões de perguntas na cabeça e provoca qualquer coisa, seja positiva ou negativa, menos indiferença.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter
Assista aos vídeos Dica do Ticiano no YouTube: clique aqui
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano



