
Tem gente que quer ser invisível para espiar os outros. Tem gente que quer ser invisível para não ser notado pelos outros. E tem gente mais ambiciosa: enxerga na invisibilidade o poder para fazer tudo o que quiser, como o personagem principal de O Homem Sem Sombra (Hollow Man, 2000), do diretor holandês Paul Verhoeven.
Adicionado nesta quinta-feira (2) ao menu da Netflix, o filme não foi um grande sucesso de bilheteria — custou US$ 95 milhões e arrecadou US$ 190,2 milhões.
Nem concorreu a muitos prêmios — de importante, só teve uma indicação ao Oscar, na categoria de melhores efeitos visuais (para Scott E. Anderson, Craig Hayes, Scott Stokdyk e Stan Parks), e o troféu do público no Festival de Locarno, na Suíça, um dos cinco mais antigos do mundo (surgiu em 1946).

Mas a entrada no cardápio da Netflix merece comemoração. Com a colaboração dos roteiristas Andrew W. Marlone e Gary Scott Thompson e de sua equipe técnica, Verhoeven mostrou, com o perdão do paradoxo, um homem invisível como nunca antes havia sido visto.
Para começar, a pesquisa vale-um-Nobel perseguida pelo "cientista louco" de O Homem Sem Sombra não é descobrir a fórmula da invisibilidade, mas, sim, encontrar uma maneira de revertê-la sem comprometer letalmente a estrutura genética da cobaia. Ou seja, Verhoeven poupa nosso tempo e não enche com explicações pseudocientíficas para a transformação.
Nessa transformação, está o trabalho vale-um-Oscar do filme.

Esqueça o clássico O Homem Invisível (1933), de James Whale, baseado no livro de 1897 do inglês H.G. Wells. Esqueça a comédia Memórias de um Homem Invisível (1992), com Chevy Chase e Daryl Hannah. Esqueça até mesmo o posterior O Homem Invisível (2020), de Leigh Whannell (que, não se pode negar, tem o mérito de ter reinventado o personagem para transformá-lo em um símbolo dos relacionamentos tóxicos).
Na produção de O Homem Sem Sombra, artistas, técnicos e engenheiros da Imageworks e do Tippet Studio tiveram aulas de anatomia e observaram necropsias para criar efeitos realmente especiais: quem toma o soro criado pelo arrogante doutor Sebastian Caine (Kevin Bacon, num papel bem adequado ao ator) vai sumindo aos poucos, mas de um jeito original. Primeiro, desaparecem as camadas de pele. Em seguida, sua massa muscular. Depois os órgãos, os vasos sanguíneos e, por fim, o esqueleto. O impacto visual é impressionante — ou pelo menos era, 25 anos atrás.

Mas O Homem Sem Sombra não merece ser visto apenas por seus efeitos. Paul Verhoeven tem uma história para contar.
O personagem de Kevin Bacon chefia uma pesquisa ultrassecreta do governo estadunidense sobre a invisibilidade. Ele desobedece ordens e testa o soro em si mesmo. O cientista, que já não é um moço bom, acaba envenenado pelo poder. Então, surgem os mocinhos, vividos por Elisabeth Shue e Josh Brolin.
O filme tem os elementos que marcam a carreira de Verhoeven, diretor que construiu sua reputação nas décadas de 1980 e 1990, graças a obras como Conquista Sangrenta (1985), RoboCop (1987), O Vingador do Futuro (1990), Instinto Selvagem (1992) e Tropas Estelares (1997). Temos brutalidade, niilismo, novidades tecnológicas, erotismo, humor macabro e clímax vertiginoso (mas, infelizmente, bastante hollywoodiano).
Sobre a visão filosófica da trama, Verhoeven comentou na época, citando Platão, da Grécia Antiga:
— Platão disse que a moral não está dentro de nós, que ela é definida pelos conhecimentos e pelas expectativas que os outros têm de nós. Alegou que uma pessoa invisível seria intoxicada pelo poder, exercendo-o de forma abusiva, graças à garantia de impunidade. Em suma, sugeriu que só nos portamos bem porque não queremos ir para a cadeia.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter
Assista aos vídeos Dica do Ticiano no YouTube: clique aqui
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano



