
O Diabo Veste Prada 2 (The Devil Wears Prada 2, 2026), que tem sessões de pré-estreia nesta quarta-feira (29) e entra em cartaz nos cinemas na quinta (30), é parecido com Michael (2026), a cinebiografia do cantor Michael Jackson: um filme feito para os fãs, um filme que aposta na nostalgia, um filme produzido em família, um filme que evita mexer em vespeiros e um filme que não quer deixar nenhum de seus personagens principais mal na fita.
Lançado em 2006, O Diabo Veste Prada adaptou o romance homônimo da escritora Lauren Weisberger e foi um tremendo sucesso financeiro: arrecadou nas bilheterias US$ 326 milhões, quase 10 vezes mais o que custou. A comédia dramática ambientada no mundo da moda de luxo também recebeu duas indicações ao Oscar, nas categorias de melhor atriz (Meryl Streep, premiada no Globo de Ouro) e melhor figurino.
O filme se tornou um marco tanto por seu olhar para a estética do universo retratado quanto por seu discurso sobre ética no ambiente de trabalho. As cenas na redação de uma fictícia revista com sede em Nova York, a Runway, falam sobre lideranças autoritárias e abusivas que cometem assédio moral, incluindo casos de humilhação pública, e sobre a competição feroz entre os empregados, que em nome do sucesso ou por causa do medo da demissão perdem o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional e normalizam a sobrecarga, o estresse crônico e a ansiedade.

Vinte anos depois, a família voltou a se reunir. O Diabo Veste Prada 2 tem o mesmo diretor, David Frankel, realizador de Marley & Eu (2008) e de Beleza Oculta (2016), a mesma roteirista, Aline Brosh McKenna, e os quatro principais atores do primeiro filme: Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci e Emily Blunt. O que muda é o cenário na Europa para o clímax da história: em vez de Paris, agora o destino é Milão, na Itália.
Na trama, Andy Sachs (a personagem de Hathaway), outrora uma reles assistente na Runway, agora é uma jornalista renomada. Ao receber um prêmio por uma reportagem sobre a resiliência dos nova-iorquinos, Andy anuncia que ela e vários de seus colegas de jornal acabaram de ser demitidos — por mensagem de celular.
Enquanto isso, Miranda Priestly (a personagem de Streep), a sofisticada, fria e implacável editora-chefe da Runway, e seu braço-direito, o diretor de arte Nigel Kipling (vivido por Tucci), precisam lidar com uma bomba: repórteres descobriram que uma marca apoiada pela revista, a SpeedFash, explora seus trabalhadores, que estão em regime análogo à escravidão. A denúncia motiva a ira de Ira Ravitz, o dono da empresa que publica a Runway, porque os anunciantes estão querendo cancelar seus contratos de publicidade.
Ou, pelo contrário, querem usar esse episódio ruim como moeda de pressão para negócios mais vantajosos. É o que faz a personagem de Blunt, Emily Charlton, ex-assistente de Miranda e agora uma executiva sênior da grife Dior.
Metade da solução para a crise deflagrada é dar um banho de credibilidade na revista: o próprio Ira decide chamar a recém desempregada Andy para se tornar a nova editora de matérias especiais, e sua primeira tarefa é escrever um pedido de desculpas aos leitores, reconhecendo o erro da Runway. A outra metade é seguir jogando o jogo, ou seja, capitular às exigências dos anunciantes.

Por dar continuação a um filme lançado 20 anos atrás, O Diabo Veste Prada 2 é nostálgico por natureza. Mas isso não significa que seja um filme desatualizado. Agora, os comentários nocivos de Miranda são reprovados no ato por sua nova assistente, Amari, papel da atriz inglesa Simone Ashley, vista nas séries Sex Education e Bridgerton.
O filme também retrata a cultura do cancelamento e os novos tempos dos veículos de jornalismo, que são acuados pelo corte de custos nas empresas e enfrentam um momento de grande transformação por causa da inteligência artificial e da mudança de comportamento do público. Em uma cena, Nigel lembra que podia passar quatro semanas na África produzindo um editorial de moda com o célebre fotógrafo Richard Avedon que ocuparia muitas páginas da Runway e provocaria enorme repercussão; hoje, fica feliz se conseguir dois dias em um estúdio de Nova York para gerar um conteúdo que será consumido nos minutinhos que uma usuária do Instagram leva para fazer xixi. Isso se ela não rolar a tela atraída por qualquer polêmica ou qualquer bobagem.
Uma pena que O Diabo Veste Prada 2 não tenha se interessado em desenvolver mais esse tema da concorrência entre a imprensa tradicional e as redes sociais. O roteiro poderia, por exemplo, ter criado um personagem coadjuvante que fosse um influenciador digital, em vez de dedicar tempo a um romance insosso de Andy com um empreiteiro australiano (Peter, encarnado por Patrick Brammall).
Duas décadas depois, seria bem-vindo, também, um olhar mais crítico à indústria da moda. Há referências muito tímidas à promoção de padrões de beleza irreais, a práticas trabalhistas condenáveis ou a questões de sustentabilidade. Mesmo quando, em uma ceninha, valoriza a cultura dos brechós, O Diabo Veste Prada 2 mantém intocado o glamour das grandes marcas.
Bem, se tem uma coisa que não podia falta neste filme é um desfile de figurinos deslumbrantes (embalado por uma trilha sonora vai da clássica Vogue, de Madonna, à novíssima Runway, composta por Lady Gaga com a rapper Doechii), modelos famosas e designers gabaritados — como Donatella Versace, coadjuvante de luxo em uma das cenas engraçadas protagonizadas por Emily Blunt. Entre as participações especiais, está a da própria Lady Gaga, que canta durante uma sequência em Milão. Fãs do mundo fashion ficarão tentados a assistir ao filme mais de uma vez para conseguir identificar todas as aparições.
E fãs do universo de O Diabo Veste Prada podem ficar sossegados: ainda que haja conflitos, traições e reveses, seus adorados personagens também saem intocados. Transformados, sim, mas não a ponto de merecerem a reprovação dos seus admiradores. Que certamente vão fazer fila nos cinemas se a moda em Hollywood for mantida e pintar um O Diabo Veste Prada 3.
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